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TV KILLED THE CINEMA STAR

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Quatro Casamentos e um Funeral: Regresso (Feliz?) às “Rom-Coms” dos Anos 90

AMC Portugal

Está marcada para esta noite a estreia na TV portuguesa do spin-off de «Quatro Casamentos e um Funeral» (1994), às 22h10 no AMC. Assisti aos dois primeiros episódios (e ao filme de Hugh Grant para refrescar a memória).

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Numa era com tanta oferta televisiva e de streaming, «Quatro Casamentos e um Funeral» teve sem dúvida alguma dificuldade em conquistar o seu lugar, quando estreou no verão de 2019. Criada por Mindy Kaling e Matt Warburton para a Hulu, a história foi pensada com uma série limitada – inspirada no filme de 90 mas sem depender diretamente dele – e não há ainda indícios de uma possível segunda temporada. Quem sabe se o lançamento internacional vai trazer alguma surpresa – veja-se, por exemplo, o caso de sucesso do AXN, que tem conseguido assegurar a continuidade de séries como «Absentia» ou «Carter» graças ao seu êxito além-Estados Unidos.

Há um “acontecimento digital” que sintetiza a avaliação de «Quatro Casamentos e um Funeral», que tem estreia marcada hoje pelas 22h10 no AMC Portugal. No site Rotten Tomatoes, os críticos atribuem 42% à série (de 1 a 100), enquanto o público a coloca nos 82%. A verdade é que a trama protagonizada por Nathalie Emmanuel (Game of Thrones) não é particularmente incrível a nível técnico ou de estilo, mas responde a um público específico: os/as fãs das “rom-coms”, ou comédias românticas, sobretudo da década de 1990.

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Estas estavam frequentemente repletas de clichés, grandes gestos românticos e uma quantidade considerável de drama e exagero: recordemos filmes como «Pretty Woman: Um Sonho de Mulher» (1990), «O Casamento do Meu Melhor Amigo» (1997), «Doidos por Mary» (1998) ou «Notting Hill» (1999). Julia Roberts e Hugh Grant – que protagoniza «Quatro Casamentos e um Funeral» (1994) ao lado de Andie MacDowell – são dois dos atores-referência dessa época, que ainda hoje encontra audiência um pouco por todo o mundo. Como seria de esperar, a série do AMC serve de homenagem e cai nos mesmos vícios narrativos, de forma propositada, recriando um romance à anos 90 na atualidade.

A história é agora encabeçada por uma mulher, Maya (Nathalie), enquanto Duffy (John Reynolds) dá alguns ares ao look de Grant no filme 1994, ao mesmo tempo que é a Fiona (Kristin Scott Thomas) deste spin-off: apaixonado há 10 anos por uma das suas melhores amigas. Assim como Carrie (Andie MacDowell), Maya é a norte-americana que viaja até Londres, onde vive o seu grupo de amigos, composto por Duffy, Ainsley (Rebecca Rittenhouse) e Craig (Brandon Mychal Smith). Apaixonada por um homem casado, a personagem acabou por rejeitar a ida com eles para “Terras de Sua Majestade”, e tudo o que experiencia na série acontece com algum delay.

3.jpgDestaca-se ainda uma storyline paralela ao estilo de «Giras e Terríveis» (2004) ou «A Melhor Despedida de Solteira» (2011), com Maya a ter um confronto com Gemma (Zoe Boyle), que se tenta afirmar com a melhor amiga de Ainsley. Também no cast central, encontramos Nikesh Patel e Tom Mison (Sleppy Hollow, Watchmen), além de uma participação especialíssima – mesmo que breve – de Andy MacDowell.

«Quatro Casamentos e um Funeral» segue um conjunto de imprevistos “previsíveis”, que transportam o enredo para onde se esperava. O dilema romântico é expectável e, numa ação ritmada e à “rom-com”, as diferentes personagens vão conquistando o seu espaço e a storyline vai-se tornado mais consistente. Uma das artimanhas do argumento é o seu humor, tanto verbal como físico, que contribui para aumentar o interesse do espectador – ainda que a empatia com os protagonistas nem sempre seja conseguida. O elenco destaca-se também por ser mais diverso do que aquele que habitualmente encontrávamos nas comédias românticas do passado, onde a maioria (ou totalidade) dos intervenientes eram brancos.

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Uma coisa é clara: a série foi pensada para um público-alvo concreto. Como tal, é normal que se encontrem “ódios” e “amores” à série, consoante o gosto ou não pelo cinema romântico dos anos 80 e 90. Acima de tudo, é uma experiência divertida e agradável de visualização, baseada numa narrativa simples e sem surpresas, que corresponde às expetativas que habitualmente temos quando decidimos ver uma “rom-com”.

 

Texto originalmente publicado na Metropolis