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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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Perdidos no Espaço: O Nome Diz Tudo

No dia em que «Lost in Space» fechou a sua caminhada de três temporadas, a 6 de março de 1968, o Homem não tinha ainda chegado à Lua. Tal aconteceria um ano depois, em julho, e o que Neil Armstrong encontrava era mais credível do que os companheiros de cartão que acompanhavam a família Robinson – e também com menos extraterrestres. Muito mudou, portanto, até 13 de abril de 2018, 50 anos depois, data em que a Netflix estreou um remake da série que, além das viagens pelo Espaço, tinham viajado também na TV do preto e branco para a cor.

 

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Elencos monstruosos, super-heróis e ficção científica acima e abaixo do solo: não há género que escape ao alcance do serviço de streaming, que continua a desafiar o paradigma instalado no pequeno ecrã e também no cinema. Mais do que uma homenagem à série dos anos 60, «Lost in Space» é um passo determinado da Netflix, que assume a sua aposta clara também no Universo – literal – 'sagrado' de Hollywood. Depois de conquistar a Terra, com sucessos inquestionáveis como «Stranger Things» ou «The Crown», o streaming toca um dos tesouros da televisão, e onde ainda não tinha chegado com firmeza – no que a conteúdos originais diz respeito.

 

Mas vamos ao que interessa. A reinvenção da popular «Lost in Space», que se foi tornando uma série de culto ao longo das décadas, é, na sua essência, uma adaptação frágil e, a espaços, totalmente irrisória. No entanto, esta falha não está relacionada com a tecnologia ou a edição de episódios, no geral competente e obviamente bem mais avançada que a série-mãe, mas antes com a construção das personagens. Os Robinsons são trazidos para o futuro, modernizados, têm outro tipo de problemas, e relacionam-se, naturalmente, de forma diferente do que acontecia nas séries há meio século.

 

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Ainda assim, esta modernização não tem correspondência com o comportamento das personagens, nomeadamente do pai John Robinson (Toby Stephens, «Velas Negras»). Desenhado à imagem das personagens masculinas do cinema e da televisão dos anos 40 e 50, com ar de durão e de ideias feitas, que faz as escolhas difíceis que ninguém quereria fazer. O problema é que, ao contrário do que acontecia com os 'machos' do género, ainda a preto e branco, e a julgar pelo episódio piloto, John não é bem-sucedido – é só teimoso. Ou seja, ele faz as escolhas impopulares e, não fosse uma ajuda improvável de última hora, que salvou ambas as decisões que tinha tomado, e tudo acabava em catástrofe: a série começava com cinco Robinsons e no segundo episódio já só havia três (possívelmente dois).

 

O resto dos Robinsons também recebe o nome do elenco original, assim como acontece com outras personagens, ainda que a misteriosa personagem Dr. Smith seja agora uma mulher, interpretada por Parker Posey. O alien outrora totalmente 'artificial' e pouco credível é agora substituído por uma figura imponente e mecânica, que faz lembrar o Demogorgon de «Stranger Things», também uma série original da Netflix. A nível de CGI, há um claro cuidado dos produtores, o que faz realçar ainda mais o poder económico do serviço de streaming, que tem sido capaz de dar resposta a exigências monetárias bastante altas, e que certamente não estariam ao alcance de todos os canais de televisão (pelo menos em tantas séries).

 

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A personagem de Molly Parker, de «House of Cards», Maureen, é uma mulher aparentemente frágil que, nos momentos-chave, revela uma determinação impressionante: contrastando, evidentemente, com o marido John, que é apresentado em flashbacks como um pai cada vez mais ausente. Apesar de todos os conflitos em Terra, causados em grande medida pela vida militar de John, a família acaba por ser toda integrada no mesmo grupo de colonos, o 24. Perante um problema na base, todas as famílias se apressam para as respetivas naves – algo que é revelado pela primeira vez na fase final do primeiro episódio, e depois progressivamente explorado –, sendo que a ação arranca já depois desta turbulência e o conhecimento é dado por partes. O puzzle não poderia ser idealizado sem o pequeno Will (Maxwell Jenkins), que, apesar da tenra idade, não acusa a inexperiência.

 

É irónico que uma série virada para o futuro seja castigada por algo intemporal: a construção das personagens. Ainda que as decisões por detrás da imaginação dos cinco Robinsons possam ter sido conscientes e os riscos totalmente assumidos pelos criadores Irwin Allen, Matt Sazama e Burk Sharpless, a verdade é que tornam um argumento, imaginativo e pensado como homenagem à série antecessora, uma aventura frágil e sustentada em teimosia. Algo que, naturalmente, pode ser contornado com a progressão da narrativa, mas que, inevitavelmente, vai afetar a relação do público com as personagens (a nível de empatia, sobretudo) e das personagens entre si.

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

 

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