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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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08 de Março, 2018

O Dia da Mulher e o Dia de Jessica Jones, por Samantha

Sara

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Sentei-me a ver o primeiro episódio da segunda temporada de Jessica Jones.
Como é habitual antes de uma nova temporada começar, a Netflix disponibiliza um resumo da temporada anterior. Dá jeito para não entrar numa nova temporada com memórias em falta e sobretudo dá jeito para repensar mensagens importantes. Foi o que me aconteceu: só conseguia pensar em como a primeira temporada é uma poderosa metáfora para o papel e poder da mulher numa sociedade sexista e, especialmente, em relacionamentos abusivos.
 
Se a primeira temporada lida com o processo de sair de um relacionamento abusivo, a segunda começa por mostrar que as marcas ficam mesmo após esse processo ser finalizado. Há consequências com as quais as vítimas têm que lidar toda uma vida mesmo que a vida continue. E é aqui que se percebe que o problema vai além de uma pessoa abusadora – que não poderá ser desresponsabilizada, obviamente – e que o mal está, de facto, enraizado na sociedade.
 

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Jessica Jones é uma super-heroína com super-força e, ainda assim, viu-se obrigada a sorrir perante os poderes de persuasão e controlo mental de Killgrave. E é aqui que se encontra o paralelo: ele é uma representação do sexismo instaurado na sociedade.
 
O controlo de homens sobre mulheres é maioritariamente social e psicológico. Esse controlo é existente tanto na rua e entre estranhos com os sorrisos que nos são "pedidos" (porque é esse o papel da mulher) como em relacionamentos mais próximos. E engane-se quem pensa que relacionamentos abusivos são coisa de gente fraca – aliás, envergonhe-se quem assim o pensar, isso não é uma questão de opinião: é culpabilização da vítima e isso é grave – porque Jessica, cuja força é tanto física como traduzida em atitude, sorriu dessa vez. Sem brilho nos olhos. Submissa. Porque é isto que um relacionamento abusivo faz: destrói e marca até a pessoa mais forte. E não é culpa dela. 
 

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Não é por acaso que a segunda temporada saiu hoje, Dia Internacional da Mulher. E também não é por acaso que a segunda temporada vai ser totalmente dirigida por mulheres. É uma tomada de posição como a que tomou – e vai tomando, porque as consequências são permanentes – Jessica. Uma heroína não se define por algum super-poder que tenha: é uma mulher que todos os dias, de diversas formas, mais subtis ou mais extremas, é vítima de uma sociedade patriarcal que a manda calar, sorrir e abrir as pernas contra a sua vontade e que, ainda assim, sobrevive, luta e segue em frente.
 
 

 

 

2 comentários

  • A situação é mesmo essa, daí o paralelo com a série. Ela é super forte então, tecnicamente, teria vantagem sobre ele, certo? Mas não. O psicológico tem bastante poder sobre nós e, usando técnicas abusivas, é fácil subjugar alguém (e não apenas em relacionamentos românticos, isto acontece constantemente em "amizades", famílias, locais de trabalho, etc).
    Por vezes entramos em relacionamentos abusivos sem sequer entender porque começa com pequenos gestos que estão tão romantizados e normalizados que nem sequer os questionamos mas quando damos por nós já estamos tão dentro que é difícil sair. Um pouco como entrar no mar alto: ah, eu sei nadar. Ups, afinal era só um ponto mais fundo na areia, já tenho pé outra vez. E mais um bocado já estamos tão dentro do oceano, sozinhas, que mal nos aguentamos acima de água e nem conseguimos pedir ajuda.
    E isto não acontece com pessoas mais... manipuláveis. Daí ter falado que não é só para gente fraca. Sei-o por experiência própria. Simplificando, de uma perspectiva heterossexual tens a razão social que é sempre dada aos homens. De uma perspectiva homossexual, como não são relacionamentos "a sério" isso também ajuda a subjugar. Entre outras situações, obviamente. Mas isto para te explicar que o abuso não é apenas individual, embora a pessoa não deva ser desresponsabilizada, mas que é alimentado e até protegido socialmente de várias formas. É complexo. Daí a importância de tratar e desconstruir o mal pela raiz. :)
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