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Mr. Mercedes: A Triste Alegoria do Nosso Tempo

O arranque de «Mr. Mercedes» é um sinal claro dos nossos tempos: a trágica sina de um grupo de cidadãos comuns é marcada sem o mínimo glamour ou euforia. A ação tem início, nada mais nada menos, do que numa “Feira do Emprego”, que conta já com uma fila notável em plena madrugada. Quem diria que Stephen King iria começar uma das suas histórias com algo nas linhas de “certa madrugada, um desconhecido num Mercedes acelerou contra a multidão, que guardava lugar para a Feira do Emprego do dia seguinte, e matou indiscriminadamente”. Embora a trama seja situada em 2009, e se trate de um livro publicado originalmente em 2014, a sua envolvência é atual e uma amostra evidente de que estamos longe de deixar os tempos difíceis.

 

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Stephen King já antecipara a incursão no universo cru e cruel dos detetives, algo que aconteceu com a trilogia protagonizada por Bill Hodges, uma 'raposa velha' da polícia que é desafiada por um assassino sádico, desconhecido e, pior do que tudo, imprevisível. A adaptação para TV tem a assinatura de David E. Kelley, o criador de séries como «Big Little Lies», «Goliath» e «The Crazy Ones». Já Jack Bender, velho conhecido de «A Vingadora» e «Perdidos», volta a tornar real o imaginário de King – como acontecera em «Under the Dome» –, sendo produtor e também o principal realizador.

 

Fã confesso de «Perdidos» [«Lost» no seu título original], Stephen King acabou por conhecer Bender e, vários anos depois, os dois mantinham uma relação mais próxima. “Aquilo que realmente me atraiu para o projeto não foi apenas o Stephen King estar a escrever sobre detetives, algo que nunca tinha feito, mas o facto de ser uma história sobre o monstro dentro de nós em oposição ao monstro fora de nós, o que é frequente naquilo que ele escreve”, frisa Bender, em materiais cedidos à METROPOLIS. Em jeito de brincadeira, o produtor-realizador disse ao autor que seria Brendan Gleeson a dar vida a Hodges – e a verdade é que foi mesmo.

 

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O drama de King aproxima-se tanto da atualidade que, ironicamente, o evento central foi alterado. Depois do ataque bombista num concerto de Ariana Grande em Manchester, em 2017, a equipa de produção optou por mudar o alvo principal do criminoso – no livro, Hartsfield quer atacar o concerto de uma boysband. Em todo o caso, muitas das atitudes do grande vilão da obra ecoam no mundo como o conhecemos hoje. “É a minha responsabilidade, e de todos nós, mostrar o que acontece de uma forma realística, mas sem qualquer tipo de moldura. Sem glamour, sem a sexy 'slow motion', sem a banda sonora de ação”, defende Bender.

 

O estilo de King está muito presente na forma como a realidade de «Mr. Mercedes» chega aos espectadores: de forma fria, direta e, acima de tudo, muito assente nas personagens, nas suas ações e na forma como reagem ao que vai acontecendo. As primeiras cenas do piloto são prova disso mesmo e da forma como somos chamados, enquanto audiência, à responsabilidade, à empatia com as vítimas e ao desprezo (inicial) face ao culpado. As pessoas apresentadas, à espera da Feira do Emprego, não são, afinal, mais do figurantes do que se vai seguir: a naturalidade e profundidade com que são apresentadas, mais do que qualquer outra coisa, tiram a 'beleza' imagética da tragédia e colocam o peso e carga emocional próprios da dor da perda.

 

 

A série inspirada pelo primeiro livro da trilogia de Bill Hodges, de Stephen King, é a grande estrela do novo serviço AXN Now, apenas disponível, atualmente, para clientes MEO. Texto completo aqui.