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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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12 de Abril, 2020

Insecure: A Vida Adulta Para Totós

Sara

Como não há duas sem três, há mais uma série a entrar no catálogo da HBO Portugal esta segunda-feira, 13. Depois de um hiato de quase dois anos, Issa Rae está de regresso com mais 10 episódios de «Insecure». Já vi os primeiros cinco episódios da quarta temporada e escrevi sobre isso para a revista Metropolis.

 

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Há uma cena na quarta temporada de «Insecure» que parece ser o resumo – próximo da perfeição – do que é a storyline da série e, ironicamente, dos dias de quarentena que agora vivemos. Issa (Issa Rae) e Molly (Yvonne Orji) encontram-se para fazer exercício em casa e, no meio desta tentativa de proatividade, a primeira queima o tapete de ioga. Se há metáfora que descreve a história de «Insecure» é esta: mesmo quando a intenção é boa, it all goes to shitJá em relação ao exercício caseiro, foi quase premonitório, certo?

 

Ao longo da primeira metade da T4, é feita a contagem decrescente para a tão aguardada block party de Issa. E, se o pontapé de partida é auspicioso, uma coisa é praticamente certa: algo vai estragar tudo. A amizade de Issa e Molly tem apresentado fragilidades, nomeadamente pelos ressentimentos de parte a parte, pelo que há uma sensação constante de que tudo pode descambar. Enquanto Molly continua a encontrar problemas de forma persistente, mesmo na nova relação, Issa arrisca-se demasiado quando julga a melhor amiga e se mantém, também ela, nos mesmos erros. Fosse esta uma série portuguesa e já alguém tinha dito a tão popular frase "diz o roto ao nu".

 

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Seria uma desconsideração para com o incrível trabalho dos criadores Issa Rae e Larry Wilmore (Grown-ish, The Bernie Mac Show) dizer que não houve uma evolução das personagens. É inegável que houve um trabalho de emancipação na vertente profissional, até pelas exigências naturais da vida adulta, mas a componente relacional tem um longo caminho pela frente. E o caminho tem sido construído para mostrar que essa jornada dificilmente tem fim. A audiência já sabe que Condola (Christina Elmore), o novo braço-direito de Issa, está a encontrar-se com Lawrence (Jay Ellis), o ex-namorado da protagonista, e o universo da narrativa também não tarda a perceber isso. Que relações terão a capacidade de sobreviver a tamanho caos?

 

O humor da narrativa é um dos seus pontos fortes. Até os momentos mais rotineiros resultam frequentemente em piadas improváveis, que vão aliviando a tensão que se espera de uma temporada com o tema Lowkey  (subtil, retraído). A comédia física também se mantém como aposta, bem como a linguagem explícita e visual que é já caraterística da série, num estilo bastante ousado. Por outro lado, a série tem ainda a capacidade de "caricaturizar" a própria realidade, nomeadamente com a menção à popularidade das séries que exploram crimes reais (num estereótipo hilariante) ou ao facto de se recorrer ao Youtube sempre que não se sabe fazer algo.

 

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Estamos perante uma série de mulheres fortes, que se colocam narrativamente no lugar habitualmente atribuído aos homens. «Insecure» terá mais tendência para "falar" com a audiência feminina, mas tem a capacidade de explorar temáticas comuns a ambos os sexos. Já a insegurança que dá nome à série original da HBO, continua lá, apenas se vai reinventando e encontrando novas formas de se expressar. E de revelar esta inabilidade social de vingar na vida adulta, ao mesmo tempo que a realidade parece teimar em colocar novos obstáculos. Um trabalho notável de Issa Rae.