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Androids & Demogorgons

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Fiz Maratona de «Boneca Russa» no Carnaval

Apesar da fama, não é o gato de «Boneca Russa», o esquivo "Oatmeal", que tem sete vidas. A série da Netflix que-está-a-dar-que-falar estreou a 1 de fevereiro, um dia antes do mítico Groundhog Day, e centra-se numa mulher que não para de morrer no dia do seu aniversário (ou imediatamente a seguir), apenas para depois voltar à vida. Embora a premissa de quase-imortalidade pareça tentadora, a verdade é que a vida – e a morte – de Nadia Vulvokov não tem nada de glamouroso. Assim como o meu "feriado" de Carnaval.

 

Boneca Russa 1.png

 

Sei que nem toda a gente teve a mesma sorte, mas tive direito a folga no dia de Carnaval. Antes que invejem a minha aparente boa vida, deixo já o disclaimer de que estive doente. É certo que os planos originais envolviam disfarces e alguma folia, mas a fatiota acabou por nem sequer sair da embalagem e, vencida pela chuva e por uma pequena constipação, fui empurrada para o sofá e para o mundo maravilhoso do streaming. Para tentar curar parte das maleitas, nomeadamente o mau humor por não sair de casa, fui ver os episódios que me faltavam da «Boneca Russa», o mais recente fenómeno da Netflix. [A justificação para os meus atrasos seriólicos já foi dada aqui.]

 

 

Quando li algures que a «Boneca Russa» era uma espécie de criação autobiográfica de Natasha Lyonne, conhecida mais recentemente pela sua participação em «Orange is the New Black», fiquei confusa. Como é que uma série sobre alguém que vive o seu próprio Groundhog Day [para quem não sabe, há um filme do Bill Murray, «O Feitiço do Tempo» (1993) em português, no qual ele revive constantemente o mesmo dia] pode estar sequer próximo da realidade? É inevitável cair nas parecenças da atriz com a personagem, a nível de comportamento, dado o estigma associado ao seu estilo de representação: Natasha mantém os seus 'tiques', postura e discurso nos papéis que vai aceitando. Como gosto da atriz, isso escapa, já que caso contrário torna (praticamente) impossível ver qualquer coisa em que ela entre.

 

Mas a chamada para si da atriz ia para  de uma biografia unidimensional. As semelhanças estão numa camada mais profunda, ainda que genericamente pública, relacionada com a personalidade e os vícios que moldaram o passado da atriz. Amy Poehler, uma das criadoras da série (o trio fica completo com Leslye Headland), viu na experiência de vida da amiga de longa data Natasha o potencial para uma série de sucesso, mas a primeira tentativa com «Old Soul» não passou do piloto. Era preciso ir além do básico: a ideia inicial passava por 'brincar' com o facto de Natasha ter uma mentalidade de 'velha', aproximando a sua Nadia dos idosos em vez de pessoas da sua idade [o mesmo nome da sua personagem em «Boneca Russa», uma homenagem à ginasta Nadia ComăneciFast forward até à série da Netflix, as criadoras apostaram numa protagonista mais complexa, assente não só nas experiências de Natasha mas também na perceção da figura da Mulher, e na sua 'destruição' parcial e progressiva, tal como acontece a uma matrioska. A um nível mais particular, na dependência, no desequlíbrio mental e nos traumas e, qual luz ao fundo do túnel, no regresso à vida depois da turbulência.

 

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Recentemente tive uma conversa sobre como a possibilidade de 'maratonar' séries tornou dispensáveis os cliffhangers. Não é preciso ter um final chocante para garantir que o espectador volta na semana seguinte, já que basta carregar play e acompanhar a história de forma contínua. «Boneca Russa» não vive de revelações chocantes em momentos específicos dos episódios, salvo uma ou outra exceção (nomeadamente a conversa no elevador), mas antes como um todo que vai complicando cada vez mais o mistério, à medida que recebemos mais informação. Não há heróis anunciados, não se cria uma empatia instantânea e as relações dentro da trama, e das personagens com a audiência, não são lineares. Além disso, as verdades passam de absolutas a subjetivas com a mudança de perspetivas e de timelines após cada morte de Nadia.

 

A «Boneca Russa» de Lyonne e companhia não é uma série fácil, ainda que o hype que se criou em torno dela pareça indicar isso. A receção da crítica e o primeiro impacto na audiência facilitouboom da série, que foi pensada para três temporadas e deixa a porta aberta na season finale para entrarmos, em breve, em busca de mais respostas. No entanto, o melhor é chegar à narrativa sem grandes expetativas e abrir caminho a possíveis surpresas, já que a popularidade de «Boneca Russa» pode castigar o seu sucesso depois de a poeira assentar e de os Netflixeiros se ocuparem de novas maratonas e novos hypes. A organização da história é bastante minunciosa: há comédia, drama, caos e, sobretudo, muito sexo e rock 'n roll. No fundo, é uma série madura para pessoas imaturas – ou vice versa – capaz de ter conversas sérias, afastadas do típico 'feitiço' e com devaneios sobre a moralidade, a consciência, o tempo e a coexistência de linhas temporais diferentes, entre outros.

 

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A boleia do Groundhog Day é boa para ganhar vantagem, mas a relação entre o filme e série é meramente simbólica. Outras vozes se levantarão para argumentar que a «Boneca Russa» que é demasiado parecida com o filme «Feliz Dia Para Morrer» (2017), cuja sequela chegou ao cinema no Dia dos Namorados. Não é preciso pesquisar muito para encontrar comentários mais amargos. Ainda assim, e apesar de tudo, há algo na série da Netflix que é íntimo e singular: aquilo que Natasha representa. Aquilo que levou Amy Poehler, com créditos mais do que firmados na comédia e na produção, a ligar à amiga e a desafiá-la para trabalharem em conjunto, tendo como base a riqueza por detrás do cabelo exuberante e da voz rouca de Natasha. A pessoa. E encontrando pessoas com histórias de vida semelhantes e vícios, nem que seja só em séries.