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TV KILLED THE CINEMA STAR

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Eu Sobrevivi à Sexta Temporada de «Orange is the New Black»!

Depois do motim das presidiárias, a narrativa ficou em aberto e as possibilidades eram imensas. «Orange is the New Black» segue um caminho ousado, e com escolhas que dificilmente vão agradar a todos, mas sai a ganhar após 13 episódios. A METROPOLIS teve acesso antecipado à nova temporada, que estreia sexta-feira, 27, na Netflix.

 

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Pela primeira vez desde a estreia, em 2013, «Orange is the New Black» não somou qualquer indicação aos Emmys de setembro. A 'culpada' foi a sua quinta temporada, lançada no verão de 2017 e só agora elegível para nomeação, que marcou uma rutura clara e incontornável com as anteriores storylines da criadora Jenji Kohan e companhia. Depois de conflitos entre presidiárias – ou destas com pessoas pré-Litchfield –, foi a vez de as mulheres se revoltarem contra os guardas e a corporação responsável pela gestão da Prisão de Litchfield (a MCC), devido às más condições, violência e discriminação. Qualquer semelhança com a realidade das prisões norte-americanas não será pura coincidência.

 

É certo que, mais do que qualquer uma das anteriores, a última temporada dividiu opiniões. A mudança de paradigma foi muito acentuada e ousada, levando a um corte quase total com aquela que tinha sido a 'linguagem' usada até então, e os resultados foram catastróficos – que o diga Desi Piscatella (Brad William Henke). No entanto, o regresso está longe, também, de querer agradar às massas, pelo que não tem problemas em afastar personagens ou prejudicar as individualidades em prol da história maior que quer contar. Ainda que algumas pessoas possam entender isto como uma falta de foco, ou um 'castigo' sem critério definido, «Orange is the New Black» tem uma narrativa intencional e cuidada, o que se torna cada vez mais claro ao longo dos 13 episódios, disponíveis na Netflix a partir de sexta, feira, 27.

 

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Sempre foi notório que, à exceção de Piper Chapman (Taylor Schilling), inspirada na ex-presidiária e humanitária Piper Kerman, ninguém está a salvo. Veja-se a morte de Poussey (Samira Wiley, agora em «The Handmaid's Tale») ou o afastamento, nos próximos episódios, de personagens tidas como determinantes e até fan favourites, como 'Big' Boo (Lea DeLaria) e Maritza (Diane Guerrero). Outrora nos 'bastidores' da ação, a Max de Litchfield reclama agora todas as atenções para si, pelo que o núcleo duro da menina dos olhos da Netflix vão ser as presidiárias deslocadas para lá e aquelas que já estão na prisão de segurança máxima, nomeadamente as 'líderes' da Prisão de Máxima Segurança, as irmãs Carol (Henny Russell) e Barbara (Mackenzie Phillips), e as suas pupilas Badison (Amanda Fuller) e Daddy (Vicci Martinez). Quem foi transferida para outra prisão acaba por perder importância e, consequentemente, passa ao lado da sexta temporada.

 

"Ai, as saudades que eu tinha da Piper!". Embora a nova temporada da bem-sucedida aposta da Netflix seja propícia a frases emotivas, dificilmente encontraremos este desabafo de felicidade entre elas. Piper seria facilmente colocada numa lista de 'protagonistas não adorados' ou 'personagens que provocam mais revirar de olhos por episódio', e regressa igual a si mesma. A evolução da personagem principal ao longo dos anos tem sido notória, mas isso não tem tido correspondência em menos egoísmo e egocentrismo, ainda que ela tente contribuir para uma realidade mais positiva na prisão. Ao jeito do que acontece com Piper Kerman, que sempre manifestou a sua vontade de colocar a audiência a falar não apenas sobre a ficção, mas também sobre o drama real que se desenrola fora da televisão e do computador, nos centros de detenção norte-americanos.

 

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Sem revelarmos demasiado sobre o que aí vem, fica desde já o aviso que as surpresas continuam a acontecer a um bom ritmo, mesmo com velhos conhecidos. Estamos perante, aliás, alguns dos twists mais chocantes de «Orange is the New Black». Por seu lado, há três personagens que se vão revelar determinantes e nas quais assentam as principais storylines: Piper, Frieda (Dale Soules), que tem um desentendimento antigo na Max, e Joe Caputo (Nick Sandow). Apesar de a narrativa não se concentrar demasiado em nenhum deles, seguindo mais uma vez o foco global da vida na prisão (ou sobrevivência), é indispensável o foco particular para fazer avançar «Orange is the New Black». E, sobretudo, aquilo que as consequências das diferentes histórias poderão significar na sétima, e última (?), temporada.

 

A avaliação global dos novos episódios é bastante positiva, embora as fragilidades da série sejam inegáveis, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento de pequenos 'dramas', que nem sempre têm resposta à altura na ação. Não obstante, 'perdoa-se' esta falha pelas limitações óbvias de tempo e, ao mesmo tempo, porque são enfraquecidas em prol de uma maior força da história inspirada por Piper Kerman como um todo. Os produtores executivos olham Donald Trump e as suas políticas bem de frente, sem precisarem sequer de o mencionar ou de situar rigorosamente os acontecimentos, na linha do que têm feito apostas como «The Handmaid's Tale», «The Good Fight» ou «Arrested Development».

 

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«Orange is the New Black» está a marcar a atualidade seriólica e irá, com toda a certeza, ficar na história das produções da Netflix – não apenas pelo seu sucesso, mas também pela sua relevância para a discussão social. Numa altura em que ainda se critica a desvalorização das personagens femininas em séries e filmes, a série da Netflix rompe com a 'norma' e coloca as mulheres no topo desta cadeia alimentar, dando-lhes relevância, profundidade e problemas complexos (além da multiplicidade de etnias presentes). Isso não quer dizer que ignore as suas personagens masculinas, pelo contrário, sendo uma lição valiosa de como é possível ter conteúdos mais equilibrados em termos de género, sem prejudicar outros grupos.

 

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.