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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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After Life: Os Mortos vão Para o Céu. E os Vivos?

Se estão à procura de uma série curta para maratonar, o 'sinal' que procuram está aqui: «After Life», de Ricky Gervais, tem apenas seis episódios e já está disponível no catálogo da Netflix. O multifacetado autor britânico debruça-se sobre a problemática da existência humana, após a perda da pessoa mais importante das nossas vidas. Mas esta é uma história invulgar, pois o protagonista não está a tentar homenagear a mulher ou em busca de novos horizontes: ele está simplesmente a borrifar-se para tudo e para todos.

 

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Acredite-se ou não na vida após a morte, a verdade é que poucas vezes se problematiza o que acontece depois da morte... a quem continua vivo. Ricky Gervais chega-se à frente, novamente, para dar resposta às questões mais prementes da sociedade – mesmo àquelas que não sabíamos que tínhamos –, e criou «After Life» para preencher este vazio nas nossas vidas. São seis episódios, de curta duração, que mostram o que acontece quando o típico bom rapaz se cansa de o ser e, de um momento para o outro, se passa a comportar como uma verdadeira besta. Do desconto por estar a lidar com uma perda enorme, a morte da mulher, à falta de paciência para tolerar o seu mau feitio, as restantes personagens têm de se adaptar à nova personalidade de Tony (Ricky Gervais).

 

Para os fãs do humor negro que carateriza algumas séries britânicas, e nomeadamente o estilo que celebrizou Ricky Gervais, «After Life» é um autêntico manjar dos deuses. O argumento da série cresce a partir de uma premissa simples: Lisa (Kerry Godliman), a mulher de Tony, morreu na sequência de uma doença prolongada e deixou-lhe uma mensagem em vídeo, onde explica alguns dos conceitos básicos do dia a dia. Apesar da carga emocional do momento, a mensagem acaba por se tornar cómica e, ao contrário do que ela pretendia, não dá um novo fôlego a Tony para encarar o que aí vem. Pelo contrário, ele quer pôr termo à vida e só não o faz porque, imagine-se, o cão aparece sempre a pedir comida. Mas como o fim é uma inevitabilidade, diz ele, e não tem qualquer motivação, isso não o desanima e Tony faz por castigar o resto do mundo com o seu péssimo humor.

 

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O exagero da rotina e a total ausência de esperança por parte de Tony são uma combinação tão dramática que, na forma como se constrói, nos fazem rir. Este humor negro, requintado nalguns momentos, vai modelando as personagens, nomeadamente as que vão surgindo em torno de Tony, seja por acaso no quotidiano ou no jornal onde trabalha. Para dificultar ainda mas a sua vida, o trabalho jornalístico do protagonista é tão supérfluo, assente em pessoas que conseguem 'feitos' impressionantes – como receber postais iguais ou tocar um instrumento musical pelo nariz –, que se torna ridículo. Ao contrário do que acontecia antes, Tony deixa de compactuar com isso e não perde uma oportunidade de verbalizar essa mesma patetice.

 

Por sua vez, o elenco é bastante plural: David Bradley, mais conhecido por «A Guerra dos Tronos» e «Harry Potter», interpreta o pai de Tony, enquanto habitués da televisão britânica, como Tom Basden e Diane Morgan assumem uma clara importância. Embora por momentos funcione apenas como 'saco de pancada', o elenco secundário vai crescendo de episódio para episódio, desafiando os novos princípios morais (ou a ausência deles) de Tony, e contribuindo de forma cada vez mais ativa para a narrativa que Ricky Gervais decidiu escrever. Isso resulta tão bem que, mal nos apercebemos, a temporada já acabou. Se os seis episódios vos ficarem a saber a pouco, fiquem descansados: a segunda temporada está confirmada.

 

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Yay ou Nay? YAY

 

É certo que o tipo de humor de Ricky Gervais não é para todos, mas se brincar com coisas sérias, sem piadas fáceis, é a tua cup of coffee, «After Life» é para ti. Trata-se de um humor inteligente, consciente de si próprio e sem recurso a atalhos, o que fortalece o argumento e o papel sobretudo de Ricky Gervais. Apesar de ter a capacidade de levar a sua premissa mais além, com questões que se aproximam da filosofia e até da psicologia, a série da Netflix é essencialmente uma trama de comédia, com muito drama, capaz de arrancar algumas gargalhadas. Assim como acontece com Tony, esta é uma série que se está a 'borrifar' para o politicamente correto. E que conta uma história muito humana, onde a aparente força não é mais do que fraqueza, pelo caminho.