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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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A Pecadora: Lobo em Pele de Cordeiro, ou Cordeiro em Pele de Lobo?

Como não adorar uma série que desafia os estereótipos e definições-tipo de certo e errado, nos inquieta enquanto espectadores e, às tantas, nos deixa totalmente fora do nosso ambiente de conforto? É o que acontece com «A Pecadora», um tesouro seriólico em estado puro que revela uma Jessica Biel que desconhecíamos. Se pensas que sabes o que te espera, pensa outra vez.

 

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A premissa de «A Pecadora» assume contornos tão surreais que, à partida, tinha tudo para correr mal. A história centra-se numa mulher comum, Cora Tannetti (Jessica Biel), que, numa tarde em família na praia, tem, ao que tudo indica, um surto psicológico avassalador e esfaqueia um desconhecido até à morte. O caso, insólito mas sem mistério aparente, parece condenado a um fim rápido e sem cerimónias... Só que aí não havia série, certo?

 

A julgar pelo arranque da narrativa, não seria de esperar este golpe definitivo no rumo da história (a não ser que conheçam a sinopse). Nada em Cora indicia um problema tão grave, ainda que ela se mostre frequentemente descontente e alguns sinais roçem o estado depressivo, como a apatia. Na criação da empatia com a personagem principal de «A Pecadora», será fácil encontrar traços próximos de nós ou de pessoas que conhecemos, mas essa ilusão não dura muito. Acima de tudo está a mestria, de certa forma inesperada, de Jessica Biel, facilmente reconhecida por filmes como «O Ilusionista» (2006) ou «Next» (2007). A nomeação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV foi a cereja no topo do bolo para destacar um papel que pode marcar a sua carreira. 

 

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A rígida rotina entre o trabalho e a vida pessoal, sufocada pela presença permanente dos sogros, a falta de afetos com o marido Mason Tannetti (Christopher Abbott), as exigências enquanto mulher e mãe e outras questões aparentemente banais empilham-se cena após cena. Até Cora não ser capaz de se as segurar mais às costas. Mas não seriam suficientes, ainda assim, para tamanha reação sanguinária da protagonista. Depois de se afastar para nadar sozinha e fixar perturbada um casal num momento íntimo, Cora sai disparada rumo a Frankie (Eric Todd), que se encontra numa toalha próxima, e assassina-o sem qualquer hesitação.

 

O espetáculo gore protagonizado por Cora lança o mote para um dos enigmas mais atrofiantes da história recente da televisão. Da primeira vez que assistimos ao momento, extraordinariamente violento e também por isso uma fácil distração, são muitos os pormenores que nos escapam. É quando o revisitamos, através de personagens diferentes e em alturas também distintas, que vamos somando as frases ou gestos de que não nos apercebemos de imediato. Na verdade, por vezes o melhor truque é aquele que é feito mesmo por baixo do nosso nariz. E, como que troçando da nossa inocência inicial, o criador Derek Simonds opta por repetir a cena uma e outra vez, e mais outra, sempre com a adição de algo que aconteceu fora da primeira cena ou demasiado rápido para 'apanharmos'.

 

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Depois há Harry Ambrose (Bill Pullman). Aquele tipo desajeitado, detetive da velha guarda mas inconformado, que vem estragar as contas já feitas e dar à série o rumo de que precisa. Na mesma altura, é introduzida uma criança numa família disfuncional, que aos poucos vai desvendando a sua verdadeira identidade. Não apenas enquanto personagem, mas também no contexto social e familiar, muito apoiado na fé e na absolvição dos pecados – daí o título de «A Pecadora». Como se o puzzle não estivesse já confuso o suficiente, cada personagem é apresentada com profundidade e traços bem definidos, que deixam adivinhar storylines paralelas também bastante 'fora'.

 

Aos poucos, vai-se desenhando uma linha narrativa suportada por um trauma, consciente ou inconsciente, e por um passado que se esconde por baixo da superfície. É a sagacidade e perseverança de Harry que possibilita a sua real investigação e, consequentemente, o adensar do mistério que se desmancha episódio após episódio. «A Pecadora» surpreendeu pela sua ousadia e, para sorte do público português, não demorou a chegar ao catálogo da Netflix. Uma maratona irresistível e passível de resultar em dependência...