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Game of Thrones: Quem Vai Acabar no Trono Mais Desejado da TV?

É certo que lá fora o bom tempo não dá tréguas, mas para os seriólicos o inverno só agora chegou. A temporada final de «A Guerra dos Tronos» tem apenas seis episódios e a estreia está marcada para a madrugada de 15 de abril na HBO Portugal e no Syfy, com os episódios a serem emitidos ao mesmo tempo dos EUA. Há muitos pretendentes ao Trono de Ferro, mas quem será que se vai sentar lá no final da série? Eu deixo uma lista de sérios candidatos e fico à espera dos vossos palpites. O texto abaixo está cheio de spoilers, por supuesto.

 

NIGHT KING

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Um dos posters da nova temporada coloca o líder da armada dos mortos no Trono, numa altura em que se antecipa um confronto estrondoso entre vivos e mortos em Winterfell. Embora esteja propriamente relacionado com uma questão de poder consciente, a vitória do Exército dos Mortos resultaria no comando do Night King, capaz de controlar todos os que perderam a vida. Depois de Winterfell, todavia, faltaria enfrentar a rainha Cersei, que não cumpriu a sua palavra, ao contrário de Jaime (Nikolaj Coster Waldau), e se manteve em King’s Landing.

 

CERSEI LANNISTER

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O comportamento de Cersei Lannister (Lena Headey) em batalha faz lembrar a terceira armada que, depois de ver duas destruírem-se uma à outra, chega no final para reclamar vitória. No último episódio da sétima temporada, a rainha acertou uma aliança com Jon (Kit Harrington), Daenerys (Emilia Clarke) e (crê-se) Tyrion (Peter Dinklage), mas tudo não passava de uma mentira. Euron Greyjoy (Pilou Asbæk) não foi para a sua ilha, mas sim para Braavos, em busca de apoio dos bancos para Cersei garantir o controlo dos Sete Reinos, também com o wildfire do seu lado para proteção.

 

JON SNOW… ups, AEGAN TARGARYEN

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Sendo filho de Rhaegar Targaryen, o irmão mais velho de Daenerys, e fruto do seu casamento com Lyanna Stark, Jon Snow posiciona-se como o herdeiro legítimo ao Trono de Ferro. Depois de ter jurado fidelidade a Daenerys, despoletando até a raiva de Cersei, o jovem que cresceu como bastardo dos Stark é, afinal, o derradeiro herói da saga. Embora não seja conhecido por ter sede de poder, a revelação dá uma nova importância a Jon, que se tinha afastado da luta pelo Trono. Muitos acreditam, desde o início, que o final conta com Jon à frente dos destinos de Westeros, mas numa série como «A Guerra dos Tronos» não há certezas.

 

DAENERYS TARGARYEN

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Acreditando que tudo se mantém como está, sem Daenerys "dobrar o joelho" e jurar fidelidade a Jon, a vitória dos humanos pode significar a reconquista dos Targaryen, que contam com dois dragões no seu exército. Porém, tudo se complica ainda mais se recordarmos que Jon e Daenerys, afinal tia e sobrinho, se envolveram romanticamente no final da passada temporada. É certo que em tempos medievais as relações intrafamiliares nem sempre são encaradas com a mesma ‘repulsa’, como é o caso dos gémeos Lannister, até porque os Targaryen, no passado, se relacionavam uns com os outros para garantir a prevalência dos seus genes.

 

TYRION LANNISTER

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Um dos personagens favoritos da audiência, Tyrion já mudou de lado várias vezes, sendo agora a "Mão" de Daenerys. O final da sétima temporada, com o anão a testemunhar a aproximação entre Jon e a sua rainha, deixa no ar a possibilidade de ele reagir novamente, em busca dos seus melhores interesses. Algumas teorias apontam para o facto de também Tyrion ser um Targaryen, quiçá irmão de Daenerys e filho do "Mad King". Além disso, Tyrion também pode estar a jogar 'infiltrado' para garantir o sucesso dos Lannister ou o seu próprio sucesso, sendo que, na eventualidade de ser verdadeiramente um herói, poderá lutar por um reinado mais justo, caso Jon e Danny morram em batalha.

 

GENDRY

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Os trailers já anunciaram a sua participação, pelo que Gendry (Joe Dempsie) terá ainda uma palavra a dizer antes do final da saga. Filho ilegítimo do rei Robert Baratheon, possivelmente o único (confirmado), atendendo ao facto de todos os filhos de Cersei terem Jaime como pai, o jovem era uma séria ameaça ao sucesso dos Lannister. Muitas temporadas depois, Gendry ressurge ainda com futuro incerto, mas com alguns fãs de «A Guerra dos Tronos» a acreditarem que se vai sentar no Trono de Ferro no final.

 

NINGUÉM

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Poderíamos acrescentar à lista de pretendentes figuras como Jaime Lannister, Sansa ou Arya Stark, já que há muitas outras personagens que seriam facilmente candidatas ao Trono. No entanto, há também uma outra possibilidade, em caso de vitória dos humanos perante o Exército dos Mortos: os Sete Reinos chegarem a um entendimento e, em vez de um estado de soberania, organizarem-se num formato bem mais equilibrado e igualitário.

 

 

Leiam o meu artigo especial sobre «A Guerra dos Tronos» aqui.

 

After Life: Os Mortos vão Para o Céu. E os Vivos?

Se estão à procura de uma série curta para maratonar, o 'sinal' que procuram está aqui: «After Life», de Ricky Gervais, tem apenas seis episódios e já está disponível no catálogo da Netflix. O multifacetado autor britânico debruça-se sobre a problemática da existência humana, após a perda da pessoa mais importante das nossas vidas. Mas esta é uma história invulgar, pois o protagonista não está a tentar homenagear a mulher ou em busca de novos horizontes: ele está simplesmente a borrifar-se para tudo e para todos.

 

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Acredite-se ou não na vida após a morte, a verdade é que poucas vezes se problematiza o que acontece depois da morte... a quem continua vivo. Ricky Gervais chega-se à frente, novamente, para dar resposta às questões mais prementes da sociedade – mesmo àquelas que não sabíamos que tínhamos –, e criou «After Life» para preencher este vazio nas nossas vidas. São seis episódios, de curta duração, que mostram o que acontece quando o típico bom rapaz se cansa de o ser e, de um momento para o outro, se passa a comportar como uma verdadeira besta. Do desconto por estar a lidar com uma perda enorme, a morte da mulher, à falta de paciência para tolerar o seu mau feitio, as restantes personagens têm de se adaptar à nova personalidade de Tony (Ricky Gervais).

 

Para os fãs do humor negro que carateriza algumas séries britânicas, e nomeadamente o estilo que celebrizou Ricky Gervais, «After Life» é um autêntico manjar dos deuses. O argumento da série cresce a partir de uma premissa simples: Lisa (Kerry Godliman), a mulher de Tony, morreu na sequência de uma doença prolongada e deixou-lhe uma mensagem em vídeo, onde explica alguns dos conceitos básicos do dia a dia. Apesar da carga emocional do momento, a mensagem acaba por se tornar cómica e, ao contrário do que ela pretendia, não dá um novo fôlego a Tony para encarar o que aí vem. Pelo contrário, ele quer pôr termo à vida e só não o faz porque, imagine-se, o cão aparece sempre a pedir comida. Mas como o fim é uma inevitabilidade, diz ele, e não tem qualquer motivação, isso não o desanima e Tony faz por castigar o resto do mundo com o seu péssimo humor.

 

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O exagero da rotina e a total ausência de esperança por parte de Tony são uma combinação tão dramática que, na forma como se constrói, nos fazem rir. Este humor negro, requintado nalguns momentos, vai modelando as personagens, nomeadamente as que vão surgindo em torno de Tony, seja por acaso no quotidiano ou no jornal onde trabalha. Para dificultar ainda mas a sua vida, o trabalho jornalístico do protagonista é tão supérfluo, assente em pessoas que conseguem 'feitos' impressionantes – como receber postais iguais ou tocar um instrumento musical pelo nariz –, que se torna ridículo. Ao contrário do que acontecia antes, Tony deixa de compactuar com isso e não perde uma oportunidade de verbalizar essa mesma patetice.

 

Por sua vez, o elenco é bastante plural: David Bradley, mais conhecido por «A Guerra dos Tronos» e «Harry Potter», interpreta o pai de Tony, enquanto habitués da televisão britânica, como Tom Basden e Diane Morgan assumem uma clara importância. Embora por momentos funcione apenas como 'saco de pancada', o elenco secundário vai crescendo de episódio para episódio, desafiando os novos princípios morais (ou a ausência deles) de Tony, e contribuindo de forma cada vez mais ativa para a narrativa que Ricky Gervais decidiu escrever. Isso resulta tão bem que, mal nos apercebemos, a temporada já acabou. Se os seis episódios vos ficarem a saber a pouco, fiquem descansados: a segunda temporada está confirmada.

 

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Yay ou Nay? YAY

 

É certo que o tipo de humor de Ricky Gervais não é para todos, mas se brincar com coisas sérias, sem piadas fáceis, é a tua cup of coffee, «After Life» é para ti. Trata-se de um humor inteligente, consciente de si próprio e sem recurso a atalhos, o que fortalece o argumento e o papel sobretudo de Ricky Gervais. Apesar de ter a capacidade de levar a sua premissa mais além, com questões que se aproximam da filosofia e até da psicologia, a série da Netflix é essencialmente uma trama de comédia, com muito drama, capaz de arrancar algumas gargalhadas. Assim como acontece com Tony, esta é uma série que se está a 'borrifar' para o politicamente correto. E que conta uma história muito humana, onde a aparente força não é mais do que fraqueza, pelo caminho.

 

 

«Absentia» continua a ser tão boa quanto nos lembrávamos

Em breve vão poder encontrar a entrevista que fiz à Stana Katic aqui, mas enquanto esta não chega fiquem com a minha análise aos dois primeiros episódios da nova temporada. «Absentia», que tem estreia mundial terça-feira, 26, no AXN.

 

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A primeira temporada foi um corrupio imparável de emoções e twists, que terminou com uma semi-revelação relativamente a Emily Byrne (Stana Katic) e àquilo que, como é sugerido, ela terá feito de forma menos consciente. Esperámos mais de um ano por respostas, mas a verdade é que, como já percebemos, em «Absentia» nada nos é dado assim tão facilmente.

 

Os primeiros minutos do episódio são de cortar a respiração. Tudo acontece tão rapidamente, e de forma inesperada, que o espectador é deixado imediatamente em alerta máximo. Foi assim, aliás, que os criadores Matthew Cirulnick e Gaia Violo foram mantendo a audiência viciada na primeira temporada, sempre em busca de um desfecho risonho (ou não) que tardava em chegar. Contudo, há mudanças e o sinal dado na abertura é claro: a história vai além da sua personagem principal, e não estamos perante outra temporada com uma grande storyline que 'afunda' todas as outras. Isso não descura, todavia, o crescimento que é necessário em Emily e no drama despoletado anteriormente. E esse equilíbrio é muito bem conseguido nos dois primeiros episódios.

 

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Mas vamos à premissa. Emily está obcecada com o seu passado e com o que aconteceu na instituição onde viveu parte da infância, enquanto, ao mesmo tempo, tenta estabelecer uma relação minimamente normal com Flynn (Patrick McAuley), o filho. A incursão nestes dois objetivos não acaba, naturalmente, sem que estes se cruzem e Emily tenha de lidar com as consequências. Emily conta, na sua investigação em causa própria, com o apoio de Tommy (Angel Bonanni), que parece uma personagem diferente (e até evoluída) da que encontrámos na season 1. O primeiro episódio termina com uma revelação chocante que, embora expectável mais cedo ou mais tarde na narrativa, acaba por mudar o rumo esperado nos primeiros 20 minutos da nova temporada. Será que ainda não aprendemos que «Absentia» raramente vai para onde estamos à espera?

 

Não há comic refliefs aqui. A série tem uma inspiração marcadamente europeia, sobretudo nórdica, sendo continuamente pesada e insuportável para as personagens. Os azares sucedem-se, a realização tenta acompanhar a escuridão do argumento e, no meio de tudo isto, sobressai a qualidade da história e, particularmente, de Stana Katic e do 'irmão' Neil Jackson – que, no hiatus, até fez uma perninha em «Westworld». É uma experiência quase sufocante para quem assiste, como se a trama nos fosse prendendo no mesmo tanque de onde Emily tentou sair, com um emaranhamento constante de novas informações, que vão tornando a narrativa ainda mais complexa. O desafio dos produtores, onde Stana se inclui, é ser sempre capaz de dar o 'nó' final no meio de tantos laços que, a espaços, parecem não fazer sentido. Até agora, a missão tem sido bem-sucedida.

 

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É indiscutível que muita gente foi parar a «Absentia», em 2017, porque a protagonista era Stana Katic, uma atriz praticamente desconhecida em 2009 que tinha ascendido ao estatuto de estrela global com a sua participação em oito temporadas de «Castle». Dúvidas houvesse em relação ao fenómeno Stana e a 'loucura' que se gerou em torno da atriz quando visitou o nosso país para a antestreia mundial, no início da semana passada, levaria a que caíssem por terra. Uma adolescente correu para o palco para roubar um abraço (e conseguiu), o ator português João Bonneville pediu a estrela em 'casamento' à frente da namorada e os fãs trocaram as perguntas sobre «Castle» e «Absentia» para transmitirem simplesmente a sua admiração pela atriz canadiana.

 

Stana Katic é hoje mais do que Katherine Beckett, de «Castle», e conseguiu esse feito – outrora aparentemente impossível – com apenas 10 episódios de «Absentia», uma série de menor escala que, mesmo assim, conquistou a Europa e, especialmente, a Península Ibérica. Assim como na primeira temporada, Portugal e Espanha voltam a estrear a série primeiro do que os Estados Unidos ou Reino Unido, com a estreia mundial a acontecer já esta terça, 26. Um acontecimento verdadeiramente histórico, mas que é também sintoma da peculiaridade da série que Stana protagoniza e também produz. Possivelmente consciente das fraquezas de «Absentia», nomeadamente ao nível do poder de marketing, a atriz contrariou a tendência que a tem marcado e viajou primeiro para Lisboa e depois para Madrid. Porque nem só de qualidade (sobre)vivem as séries. E, não restem dúvidas, «Absentia» tem muita qualidade.

 

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

De «Making a Murderer» a «Serial»: Quando o Crime é um "Guilty Pleasure"

Embora não se tratem de um fenómeno propriamente recente, os documentários e podcasts sobre crimes verídicos, assentes sobretudo em condenações alegadamente injustas, atingiram recentemente um novo patamar de popularidade. Há um antes e depois do podcast Serial, de 2014, e da série «Making a Murderer», do ano seguinte, que arriscaram lançar um novo olhar sobre casos resolvidos, mas com fragilidades evidentes. Ainda assim, desengane-se quem acha que estas séries dão respostas definitivas: a maior parte das vezes, deixam ainda mais perguntas.

 

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Dias antes da estreia, na HBO Portugal, do documentário «The Case Against Adnan Syed», o americano-paquistanês, atualmente com 38 anos, viu o seu mais recente recurso ser rejeitado pelo tribunal. A série documental é baseada no caso de Adnan Syed, detido quando tinha 18 anos, em 1999, acusado de ter assassinado a sua ex-namorada Hae Min Lee. A incoerência entre provas levou Sarah Koenig, da estação WBEZ, a investigar o crime e, especialmente, a forma como as autoridades geriram todo o processo. Falamos da primeira temporada de «Serial», mas, na verdade, poderíamos estar a descrever qualquer outra série de true crime, tal tem sido a aposta intensiva em condenações "tremidas". Ironicamente, enquanto abriu portas a outras apostas do género, «Serial» perdeu qualidade nas temporadas que se seguiram.

 

Tenho o hábito de ouvir podcasts enquanto trabalho. I know, estranho. Normalmente ouço música, mas, quando estou com tarefas em que não preciso de escrever, aproveito o meu multitasking feminino para pôr em dia os podcasts que acompanho. Começou na altura de «Westworld», para ter capacidade de perceber a série (né?), e tornou-se uma relação mais séria nas últimas semanas, por culpa da Marisa. Não sei porquê nem como, mas ela começou a ouvir a primeira temporada de «Serial» e falava daquilo como se fosse uma série de TV: o plot, os envolvidos, os pormenores mal explicados e, claro, o perigo de apanhar spoilers. Não foi a primeira vez que pensei como era algo bizarra a relação do público com séries de true crime, mas foi a primeira vez que pensei a sério sobre o assunto.

 

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Nunca tinha visto «Making a Murderer» ou outros documentários do género, por acreditar que não eram bem a my cup of coffee, mas fiquei de tal forma embrenhada na discussão – e curiosa –, que basicamente fiz maratona da primeira temporada de «Serial» em poucos dias. Entretanto, e em incrivelmente pouco tempo, vi duas temporadas do podcast «In the Dark» e três episódios de «Making a Murderer», da Netflix. Sei que ainda é cedo para reclamar o meu lugar entre os verdadeiros seguidores deste tipo de conteúdos, mas estou lá perto. Comecei por ficar pelo choque: como é que casos tão sérios podem ser tratados com tamanha leviandade? Acusar pessoas a troco de nada, e deixar outras à solta e livres para repetirem os seus crimes? Como é que, em vez de fazer sentido dos acontecimentos, estes são moldados à medida das necessidades da Acusação?

 

No entanto, há também um lado de seriólica a falar mais alto. O que será que vai acontecer a seguir? (Na verdade, aconteceu antes, mas não se pesquisa para evitarmos spoilers. Parece «A Guerra dos Tronos» dos pobres.) Depois, há uma frustração perante a incapacidade de perceber o desfecho, como se de uma série de ficção de tratasse. Mas é pior: é um mistério para o qual nem sempre se encontra resposta no final, e que fica aberto indeterminadamente. Ao contrário do que acontece nos filmes e nas séries, todavia, a ação continua no mundo real, atrás das grades, entre advogados e nas salas dos tribunais. Muitas vezes, as séries sobre estes casos verídicos acabam por provocar desenvolvimentos nos casos – veja-se a segunda temporada de «In the Dark», sobre Curtis Flowers, que revelou mesmo provas desconhecidas da Defesa, que a fortaleceram (aparentemente).

 

 

As séries de true crime são o meu mais recente "guilty pleasure". Sim, bem sei que cheguei atrasada à fandom, mas mais vale tarde do que nunca, certo? Consigo perceber agora as conversas entusiasmadas entre os meus amigos sobre os casos que vão surgindo, na Internet e nos serviços de streaming, uma vez que o seu efeito acaba por ser idêntico ao de uma série de ficção. Mas ainda não entrei pelo lado moral e ético deste tipo de conteúdos: embora seja uma investigação jornalística em parte dos casos, há uma aposta maior (e perigosa) na linguagem sensacionalista e nem todas as atitudes são claras para o público e para os intervenientes, que se veem depois expostos de maneira tão mainstream.

 

Não estou totalmente convencida da abordagem por detrás das câmaras, nem podemos esquecer que há alguma manipulação e um certo posicionamento da audiência perante um crime real, pelo que é preciso ver para lá do ecrã da televisão ou do áudio. No entanto, acredito que a "inspeção" do comportamento da Justiça e das autoridades é um dever do jornalismo enquanto quarto poder, mostrando que aqueles que optam por caminhos ilegais não vão passar impunes. E testemunhar estes incumprimentos é algo que preocupa e nos deixa alerta, por saber que são um exemplo entre tantos, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento do documentário, construído nos moldes e com os truques da ficção, nos vicia. É uma questão complexa, vou já pensar sobre ela enquanto vejo mais um episódio!

 

Fiz Maratona de «Boneca Russa» no Carnaval

Apesar da fama, não é o gato de «Boneca Russa», o esquivo "Oatmeal", que tem sete vidas. A série da Netflix que-está-a-dar-que-falar estreou a 1 de fevereiro, um dia antes do mítico Groundhog Day, e centra-se numa mulher que não para de morrer no dia do seu aniversário (ou imediatamente a seguir), apenas para depois voltar à vida. Embora a premissa de quase-imortalidade pareça tentadora, a verdade é que a vida – e a morte – de Nadia Vulvokov não tem nada de glamouroso. Assim como o meu "feriado" de Carnaval.

 

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Sei que nem toda a gente teve a mesma sorte, mas tive direito a folga no dia de Carnaval. Antes que invejem a minha aparente boa vida, deixo já o disclaimer de que estive doente. É certo que os planos originais envolviam disfarces e alguma folia, mas a fatiota acabou por nem sequer sair da embalagem e, vencida pela chuva e por uma pequena constipação, fui empurrada para o sofá e para o mundo maravilhoso do streaming. Para tentar curar parte das maleitas, nomeadamente o mau humor por não sair de casa, fui ver os episódios que me faltavam da «Boneca Russa», o mais recente fenómeno da Netflix. [A justificação para os meus atrasos seriólicos já foi dada aqui.]

 

 

Quando li algures que a «Boneca Russa» era uma espécie de criação autobiográfica de Natasha Lyonne, conhecida mais recentemente pela sua participação em «Orange is the New Black», fiquei confusa. Como é que uma série sobre alguém que vive o seu próprio Groundhog Day [para quem não sabe, há um filme do Bill Murray, «O Feitiço do Tempo» (1993) em português, no qual ele revive constantemente o mesmo dia] pode estar sequer próximo da realidade? É inevitável cair nas parecenças da atriz com a personagem, a nível de comportamento, dado o estigma associado ao seu estilo de representação: Natasha mantém os seus 'tiques', postura e discurso nos papéis que vai aceitando. Como gosto da atriz, isso escapa, já que caso contrário torna (praticamente) impossível ver qualquer coisa em que ela entre.

 

Mas a chamada para si da atriz ia para  de uma biografia unidimensional. As semelhanças estão numa camada mais profunda, ainda que genericamente pública, relacionada com a personalidade e os vícios que moldaram o passado da atriz. Amy Poehler, uma das criadoras da série (o trio fica completo com Leslye Headland), viu na experiência de vida da amiga de longa data Natasha o potencial para uma série de sucesso, mas a primeira tentativa com «Old Soul» não passou do piloto. Era preciso ir além do básico: a ideia inicial passava por 'brincar' com o facto de Natasha ter uma mentalidade de 'velha', aproximando a sua Nadia dos idosos em vez de pessoas da sua idade [o mesmo nome da sua personagem em «Boneca Russa», uma homenagem à ginasta Nadia ComăneciFast forward até à série da Netflix, as criadoras apostaram numa protagonista mais complexa, assente não só nas experiências de Natasha mas também na perceção da figura da Mulher, e na sua 'destruição' parcial e progressiva, tal como acontece a uma matrioska. A um nível mais particular, na dependência, no desequlíbrio mental e nos traumas e, qual luz ao fundo do túnel, no regresso à vida depois da turbulência.

 

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Recentemente tive uma conversa sobre como a possibilidade de 'maratonar' séries tornou dispensáveis os cliffhangers. Não é preciso ter um final chocante para garantir que o espectador volta na semana seguinte, já que basta carregar play e acompanhar a história de forma contínua. «Boneca Russa» não vive de revelações chocantes em momentos específicos dos episódios, salvo uma ou outra exceção (nomeadamente a conversa no elevador), mas antes como um todo que vai complicando cada vez mais o mistério, à medida que recebemos mais informação. Não há heróis anunciados, não se cria uma empatia instantânea e as relações dentro da trama, e das personagens com a audiência, não são lineares. Além disso, as verdades passam de absolutas a subjetivas com a mudança de perspetivas e de timelines após cada morte de Nadia.

 

A «Boneca Russa» de Lyonne e companhia não é uma série fácil, ainda que o hype que se criou em torno dela pareça indicar isso. A receção da crítica e o primeiro impacto na audiência facilitouboom da série, que foi pensada para três temporadas e deixa a porta aberta na season finale para entrarmos, em breve, em busca de mais respostas. No entanto, o melhor é chegar à narrativa sem grandes expetativas e abrir caminho a possíveis surpresas, já que a popularidade de «Boneca Russa» pode castigar o seu sucesso depois de a poeira assentar e de os Netflixeiros se ocuparem de novas maratonas e novos hypes. A organização da história é bastante minunciosa: há comédia, drama, caos e, sobretudo, muito sexo e rock 'n roll. No fundo, é uma série madura para pessoas imaturas – ou vice versa – capaz de ter conversas sérias, afastadas do típico 'feitiço' e com devaneios sobre a moralidade, a consciência, o tempo e a coexistência de linhas temporais diferentes, entre outros.

 

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A boleia do Groundhog Day é boa para ganhar vantagem, mas a relação entre o filme e série é meramente simbólica. Outras vozes se levantarão para argumentar que a «Boneca Russa» que é demasiado parecida com o filme «Feliz Dia Para Morrer» (2017), cuja sequela chegou ao cinema no Dia dos Namorados. Não é preciso pesquisar muito para encontrar comentários mais amargos. Ainda assim, e apesar de tudo, há algo na série da Netflix que é íntimo e singular: aquilo que Natasha representa. Aquilo que levou Amy Poehler, com créditos mais do que firmados na comédia e na produção, a ligar à amiga e a desafiá-la para trabalharem em conjunto, tendo como base a riqueza por detrás do cabelo exuberante e da voz rouca de Natasha. A pessoa. E encontrando pessoas com histórias de vida semelhantes e vícios, nem que seja só em séries.

 

A «Crazy Ex-Girlfriend» De Que Vamos Ter Saudades

Desde pequenos que ouvimos esta frase à boca-cheia: "só damos valor às coisas quando as perdemos". É provavelmente esse o destino fatal da série «Crazy Ex-Girlfriend», a aposta improvável da CBS que chegou a Portugal pela mão da Netflix. Com a última temporada já em andamento, e antes que descubram esta pérola e não me deem os devidos créditos, fica já o alerta: vejam isto antes de ser um clássico da nossa geração. Ou percam o comboio e depois corram atrás do prejuízo.

 

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Não gosto de musicais, mas a verdade é que os vejo (podem ler sobre isso aqui). No entanto, a Rachel Bloom, protagonista e cocriadora de «Crazy Ex-Girlfriend», obrigou-me a ir ainda mais longe: de repente lá estava eu, a pessoa alérgica a cenas cantadas for no reason a meio de um episódio, a recomendar esta série aos amigos. E a lidar com o preconceito e a rejeição de musicais ou, no caso, séries com músicas soltas pelo meio. Foi nessa altura que percebi o quão difícil deve ter sido, para a Rachel, ser bem-sucedida no pitch do que ali vinha. Sobretudo tendo em conta que, quando tentou vender a ideia à Netflix, a reunião de Rachel aconteceu logo após Jane Fonda e Lily Tomlin apresentarem a sua épica «Grace and Frankie» . É entrar em jogo já com a derrota certa.

 

A cada nova rentrée televisiva, critica-se a ausência de vozes femininas e a proliferação do cliché do homem branco. E nem mesmo «Orange is the New Black», «New Girl» ou «GLOW» vieram acalmar a pertinência desta questão. Rachel Bloom já escreveu músicas sobre diarreia, a dolorosa preparação para encontros amorosos e até sexo durante o período (a versão completa foi proibida pelo canal, mas há um tease em dois episódios e a versão completa na net). Grande parte do segundo episódio da quarta temporada é sobre a colocação dos tampões usados na sanita ou no lixo – não há muitas séries que ousassem sequer mencionar a palavra 'tampão', quanto mais discutir sobre onde este deve ir parar! Claro que não são os temas mais 'agradáveis' para se fazer humor, mas há temas masculinos igualmente 'desinteressantes' que servem o humor televisivo e cinematográfico há décadas. O próprio nome da série, aliás, incide num estereótipo machista, e piada recorrente entre homens: o da ex-namorada louca e desequilibrada. 

 

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O mote da série é totalmente descabido, ainda que, no meio da sua complexidade hiperbólica, acabe por fazer sentido. Rachel Bloom tem, aliás, a preocupação de justificar o papel da protagonista, culpabilizando-a e responsabilizando-a pelos seus atos. Entre o caos que é a existência de Rebecca Bunch, a sua obsessão por Josh Chan (Vincent Rodriguez III) e os traumas com os pais, há uma discussão muito pertinente sobre a saúde mental, o comprometimento de cada um com o seu próprio bem-estar e da mulher com a sua intimidade. Esta é uma reação em cadeia que vai sendo preparada temporada após temporada, até culminar numa despedida mais serena mas que, para já, ainda não se sabe onde vai parar. Costuma dizer-se que quem canta seus males espanta, mas em «Crazy Ex-Girlfriend» a música tem uma ação bem mais complexa.

 

Há comédia, drama, romance e até terror. E há acontecimentos aparentemente inexplicáveis que ganham explicação na genialidade que é a escrita de Rachel Bloom, Aline Brosh McKenna e companhia. Por detrás do fogo de artifício, das músicas inspiradas por outras e reinventadas à imagem da série, está uma estória que terá de ecoar na história da TV. Rachel Bloom dificilmente conseguirá replicar um feito desta dimensão, pelo menos musicado, mas a grandiosidade de «Crazy Ex-Girlfriend» ainda não atingiu o seu ponto mais alto. Precisa de tempo, de alguma distância, para se ter noção da importância que a série, rejeitada inicialmente pela Showtime e pela Netflix, teve para a discussão do papel da mulher na TV e fora do ecrã.

 

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Já pus os meus amigos a ouvir músicas sobre infeções urinárias, rap battles entre advogadas de origem judaica, a generalização dos homens e sobre como as lutas na vida real são bem menos impressionantes do que as do cinema. Do outro lado, muitas vezes a reação é simplesmente "gostas mesmo dessa série". Pois gosto, muito mesmo. A tal ponto que, mesmo não gostando particularmente de cenas cantadas for no reason, acabei de escrever um artigo inteiro sobre uma série musical. Vão a correr ver o piloto enquanto não é fixe. Pode ser que assim o número de fãs em Portugal cresça e eu consiga ver este cast espectacular ao vivo [sim, esta malta anda em digressão pelos States a cantar músicas sobre infeções urinárias e o período].

 

 

A Triste Sina de uma Seriólica Sem Tempo (Ou Como Ser Adulto é uma Treta)

Isto de gostar de séries é tudo muito bonito, até uma pessoa ter um emprego. Porque uma coisa é procrastinar quando se é estudante, outra coisa é arranjar energia para ver séries depois de oito horas (e muitas vezes mais do que isso) de trabalho. Depois de uma investigação bastante óbvia, é fácil constatar que a vida profissional estragou completamente a minha vida de seriólica: dou por mim com 1001 séries em atraso, 882 que ainda nem consegui começar a ver e muita incapacidade de manter o meu nível habitual de geekness. Chamar a isto crise de identidade é um eufemismo.

 

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Como procrastinadora convicta e praticante, era surpreendente a dedicação que eu empregava na leitura de livros, numa primeira fase, e mais tarde em filmes e séries, já depois dos 18 anos. Qualquer momento era aproveitado ao máximo, com personagens atrás de personagens, séries em dia e muitas conversas geek com outros viciados como eu. O meu início de vida seriólica, todavia, não tem nada de glamoroso: a Diana, a minha colega de casa na Faculdade, via «Os Diários do Vampiro» e «Glee». Eu comecei a ver também, desde os primeiros episódios para perceber a história, e, quando dei por isso, ela desistiu das séries e eu fiquei agarrada. Primeiro a estes dramas adolescentes, dos quais desistiria também anos mais tarde, e depois a uma sucessão impressionante de pilotos, temporadas e maratonas.

 

Os anos seguintes, segundo o trakt.tv, contam-se em 104 dias, 7 horas e 11 minutos a assistir a 4148 episódios de 292 séries. Não fosse ter começado a trabalhar aos 20 anos, com uma tese pelo meio, e tenho a certeza que os meus números seriam bem mais memoráveis. A tendência para ver menos coisas tem-se agravado nos últimos anos, entre o full time e freelancers (algo que não vos posso reproduzir em dados concretos porque implicaria ter uma conta premium no trakt.tv). O que não deixa de ser bastante irónico, já que um dos meus freelancers é a escrever para a Revista Metropolis... sobre televisão. Se não fosse isso, acreditem, os meus números seriam ainda mais ridículos

 

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Estão a ver aquelas pessoas com que gozamos quando somos jovens, porque adormecem no sofá constantemente? Eu tornei-me uma dessas pessoas. Uau. Não é um momento de orgulho da minha parte, este. Chego ao fim do dia completamente exausta, sem energia e, por diversas vezes, tenho de parar um episódio para ir dormir (ou adormeço onde estou, incapaz de fazer a deslocação). Longe vai o tempo em que via séries madrugada fora, até às três ou quatro horas da manhã, e ia trabalhar normalmente no dia seguinte. Agora faço uma maratona de Óscares e ando a arrastar-me durante duas semanas. Parece uma maldição zombie, que afeta os seriólicos a partir de certa idade. Ou só a mim, porque sou um espécime fraco e é a seleção natural a acontecer.

 

O blogue, aqui no burgo, também vai pagando as favas. Este texto é uma mistura de confissão com pedido de desculpas pela minha inabilidade de ser uma adulta funcional. Não sei se me hei-de isolar do mundo para pôr as séries todas em dia, despachar os artigos dos próximos meses para depois conseguir ser uma seriólica a sério durante esse período, ou simplesmente ir dormir porque não consigo decidir. Já viram a tristeza? Antes uma pessoa ia dormir porque tinha demorado demasiado tempo a escolher o que ver e, a certa altura, era vencida pelo cansaço. É como se, em vez de desistir da guerra porque estou a perder, desistir antes de viajar porque já sei qual o meu destino e assim ainda evito o esforço.

 

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Vou entrar em reabilitação para curar esta maleita da falta de tempo, prometo. Bem, vou continuar a ter muito que fazer, porque as contas não se pagam sozinhas, mas vou tentar combater esta soneira e fazer a minha vida de seriólica entrar novamente nos eixos. E, mais importante do que tudo isso, retomar o gosto de me sentar ao sofá e aproveitar o episódio de uma série. Simplesmente aproveitar, desligada da eventualidade de ter de escrever sobre ele nalgum momento. A vida adulta tira-nos muito isso, o passar pelo momento sem pensar no que ele pode representar. A profundidade desta frase aplica-se a várias coisas, mas vamos deixá-la apenas aqui, à frente do ecrã a 16:9 da minha TV, antes de carregar play para um episódio. [Quem é que eu quero enganar, é óbvio que vou dormir. Começo amanhã, ok?].