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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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1986: Como Era Portugal Antes de Eu Nascer

Nasci quase seis anos depois de janeiro de 1986, pelo que as referências às históricas Eleições Presidenciais entre Mário Soares e Freitas do Amaral ecoavam na minha memória apenas como os resquícios de uma qualquer página de um livro de História. Até agora. Nuno Markl estreia-se na criação de séries e, a seis mãos com Ana Markl e Filipe Homem Fonseca, desafia-nos a viajar até ao passado. Às terças-feiras na RTP1.

 

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Trinta e dois anos separam o arranque da série «1986», que estreou ontem, 13, na RTP1, da altura a que esta nos remete. Nas terceiras Presidenciais após o 25 de Abril, Freitas do Amaral, do CDS, levou a melhor sobre a concorrência na primeira volta, mas não conseguiu margem suficiente e ficou agendado um segundo confronto – desta feita apenas com Mário Soares, do PS, pela frente. No meio disto tudo, ouve-se "Soares é Fixe" e os apoiantes do Partido Comunista unem esforços, contrariados, para garantir a vitória do PS. Mais vale o "Bochechas" que um "Facho", defende o pai de Tiago (Miguel Moura e Silva), Eduardo (Adriano Carvalho).

 

Vinte dias separam a primeira e a segunda volta das Presidenciais, que estabelecem a temporalidade onde encaixam as aventuras de Tiago, um 'puto' corajoso mas tradicionalmente desajeitado, e dos seus amigos, Sérgio (Miguel Partidário) e Patrícia (Eva Fisahn). Com a política renhida nos bastidores, a história dos Markl e de Filipe Homem Fonseca Homem da Fonseca traz à ribalta a eterna inadaptação dos geek, as exigências escolares e familiares da adolescência e o amor. Se este drama é comum e testemunhado pelos liceus de norte a sul do país, e atravessa gerações, o que aqui assegura a diferença é a atenção ao detalhe e o regresso de marcas caraterísticas do final da década de 80, do cinema ao vestuário, passando pelo Cola Cao.

 

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Marta (Laura Dutra) capta a atenção de Tiago, que logo se confessa apaixonado às pessoas mais próximas. Nos tempos de liceu, tudo é imediato e bem mais fácil, não fosse o twist do final do episódio piloto, "Tarzan Boy", que deixa antever grandes complicações para o casal... Por culpa das Presidenciais, lá está. Como é que algo em pano de fundo é capaz de determinar os destinos de quem ainda nem sequer tem idade para votar? Quem precisa de obstáculos épicos quando há política, futebol e temos um crítico de cinema e comunista como pai, certo? Ou quando os gostos musicais não coincidem e os rapazes lá fazem de tudo para agradar às conquistas, até arranjar um disco dos Supertramp quando se é fã de heavy metal.

 

Um mega de memória RAM ou um videoclube com centenas de cassetes eram algo espectacular em 1986, mas provocam agora umas valentes gargalhadas. Tudo à boleia da criatividade de Nuno Markl, que já há muito tempo tem vindo a conquistar o público português com as suas histórias. Não há nenhum homem a morder o cão, pelo menos para já, mas há a naturalidade encantadora da década de 80, com miúdos que nasceram no tempo da ditadura e, felizmente, só conheceram a liberdade. Podem ser tudo, mas serão capazes de aproveitar essa (ainda tenra) novidade?

 

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Não me lembro de outra série portuguesa que tenha sido recebida com o mesmo hype de «1986». Desde que a RTP divulgou a sua (merecida) aposta nas produções nacionais, que a série criada por Nuno Markl deu que falar – e, ao mínimo esquecimento, ele fazia questão de nos lembrar nas Manhãs da Rádio Comercial. Se o '13', dia da estreia', é realmente número de azar, Nuno Markl fez questão de o fintar com um elenco de luxo – e não, não falo apenas da miscelânea bem conseguida de atores jovens e experientes que anima o pequeno ecrã. Na banda sonora, «1986» conta com o talento de João Só, Rita Redshoes, Ana Bacalhau, Miguel Araújo, Lena D'Água, David Fonseca e Samuel Úria, entre outros. [De fazer inveja a qualquer série da HBO!]

 

Acabei o primeiro episódio e tive vontade de ligar a um adolescente daquela altura, atualmente a aproximar-se dos 50 – como é o caso de Nuno Markl, aliás, que parece ter encontrado aqui uma qualquer aventura semi-autobiográfica – para saber se aquilo era mesmo assim. Ou se, pelo contrário, passaram ao lado daquela euforia. Como a minha família é de uma tímida cidade do interior, acredito que a segunda hipótese seja a mais provável. Mas, enquanto não confirmo, vamos acreditar que o meu primo também fingiu gostar de Supertramp para conquistar a mulher. Dava uma história gira.

 

 

 

Agenda/Março: Estreias na Televisão em Portugal

Estreia do mês: O Mecanismo

Regresso mais esperado: Jessica Jones

Figura do mês: Bill Hader - Barry

 

21 Thunder | Netflix, 1 de março

 

Ocupados | RTP2, 1 de março

 

B: The Beginning | Netflix, 2 de março

 

Bad Guys: Vile City | Netflix, 8 de março

 

Jessica Jones - Temporada 2 | Netflix, 8 de março

 

A.I.C.O. Incarnation | Netflix, 9 de março

 

Collateral | Netflix, 9 de março

 

Perfeito! | Netflix, 9 de março

 

Love - Temporada 3 (última) | Netflix, 9 de março

 

1986 | RTP1, 13 de março

 

Filhos das Baleias | Netflix, 13 de março

 

Tabula Rasa | Netflix, 15 de março

 

Edha | Netflix, 16 de março

 

No Meu Bairro | Netflix, 16 de março

 

Wild Wild Country | Netflix, 16 de março

 

Death in Paradise | FOX Crime, 19 de março

 

Deception | TVSéries, 19 de março

 

Ash vs. Evil Dead - Temporada 3 | AMC, 22 de março

 

Alexa & Katie | Netflix, 23 de março

 

Requiem | Netflix, 23 de março

 

Santa Clarita Diet - Temporada 2 | Netflix, 23 de março

 

O Mecanismo | Netflix, 23 de março

 

Barry | TVSéries, 25 de março

 

American Housewife | FOX Comedy, 26 de março

 

Silicon Valley - Temporada 5 | TVSéries, 26 de março

 

Instinct | TVSéries, 27 de março 

 

The Blacklist: Redemption | AXN, 27 de março

 

Station 19 (spin-off de Anatomia de Grey) | FOX Life, 29 de março

 

Reboot: The Guardian Code | Netflix, 30 de março

 

Sobrenatural - Temporada 13 | AXN Black, 30 de março

 

Uma Série de Desgraças - Temporada 2 | Netflix, 30 de março

 

O Dia da Mulher e o Dia de Jessica Jones, por Samantha

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Sentei-me a ver o primeiro episódio da segunda temporada de Jessica Jones.
Como é habitual antes de uma nova temporada começar, a Netflix disponibiliza um resumo da temporada anterior. Dá jeito para não entrar numa nova temporada com memórias em falta e sobretudo dá jeito para repensar mensagens importantes. Foi o que me aconteceu: só conseguia pensar em como a primeira temporada é uma poderosa metáfora para o papel e poder da mulher numa sociedade sexista e, especialmente, em relacionamentos abusivos.
 
Se a primeira temporada lida com o processo de sair de um relacionamento abusivo, a segunda começa por mostrar que as marcas ficam mesmo após esse processo ser finalizado. Há consequências com as quais as vítimas têm que lidar toda uma vida mesmo que a vida continue. E é aqui que se percebe que o problema vai além de uma pessoa abusadora – que não poderá ser desresponsabilizada, obviamente – e que o mal está, de facto, enraizado na sociedade.
 

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Jessica Jones é uma super-heroína com super-força e, ainda assim, viu-se obrigada a sorrir perante os poderes de persuasão e controlo mental de Killgrave. E é aqui que se encontra o paralelo: ele é uma representação do sexismo instaurado na sociedade.
 
O controlo de homens sobre mulheres é maioritariamente social e psicológico. Esse controlo é existente tanto na rua e entre estranhos com os sorrisos que nos são "pedidos" (porque é esse o papel da mulher) como em relacionamentos mais próximos. E engane-se quem pensa que relacionamentos abusivos são coisa de gente fraca – aliás, envergonhe-se quem assim o pensar, isso não é uma questão de opinião: é culpabilização da vítima e isso é grave – porque Jessica, cuja força é tanto física como traduzida em atitude, sorriu dessa vez. Sem brilho nos olhos. Submissa. Porque é isto que um relacionamento abusivo faz: destrói e marca até a pessoa mais forte. E não é culpa dela. 
 

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Não é por acaso que a segunda temporada saiu hoje, Dia Internacional da Mulher. E também não é por acaso que a segunda temporada vai ser totalmente dirigida por mulheres. É uma tomada de posição como a que tomou – e vai tomando, porque as consequências são permanentes – Jessica. Uma heroína não se define por algum super-poder que tenha: é uma mulher que todos os dias, de diversas formas, mais subtis ou mais extremas, é vítima de uma sociedade patriarcal que a manda calar, sorrir e abrir as pernas contra a sua vontade e que, ainda assim, sobrevive, luta e segue em frente.
 
 

 

 

Fargo: o hattrick de Hawley e a 'alegoria' da Guerra Fria

Tinha tudo para correr mal. «Fargo», o filme, estava ainda bem presente na memória dos cinéfilos que, desde 1996, não resistiam a visitar aquela assombrosa localidade reimaginada pela lente dos irmãos Coen. Além disso, em 2014, Noah Hawley era uma figura fácil de contestar: na bagagem, trazia apenas uma comédia pouco convincente, episódios de «Ossos» e duas séries – «The Unusuals» e «My Generation» – canceladas após uma temporada. Mas, derrotando a crítica e o preconceito, Hawley fez o impensável: foi bem-sucedido. Duas vezes. E agora está de volta para um terceiro round. [Análise ao primeiro episódio da terceira temporada || maio de 2017].

 

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Anunciada, por alguns, como a crónica de uma morte anunciada, «Fargo» foi uma das surpresas mais agradáveis de 2014. Uma espécie de remake, já que do filme de 1996 bebia sobretudo a inspiração, a série de Noah Hawley vincou, desde cedo, o seu estilo muito próprio. Com uma narrativa desenhada para apenas uma temporada, tinha como principais ingredientes Billy Bob Thornton e Martin Freeman, mas sairia reforçada com a revelação de Allison Tolman e a confirmação de Colin Hanks. Não obstante, o principal nome a reter no final desta aventura sangrenta era mesmo o do criador, aquele a que tantos tinham apontado o dedo em sinal de desconfiança. E, se primeiro se queria travar o regresso a Fargo ainda antes de acontecer, a verdade é que, entretanto, só se pensava em embarcar numa nova viagem.

 

Estreada no mesmo ano da estrondosa «True Detective», pode dizer-se que a série de Hawley aproveitou a 'boleia' (merecida, é certo) e foi lançada também numa campanha pela renovação, ainda que antecipando um elenco renovado. De forma contundente, o preconceito de mais-um-remake tinha dado lugar ao hype em apenas oito episódios e a segunda temporada afigurava-se uma inevitabilidade. Com dois Globos de Ouro no 'bolso', o de Melhor Minissérie e Melhor Ator (Thornton), «Fargo» regressou de cara lavada em outubro de 2015, com Kirsten Dunst e Patrick Wilson nos principais papéis. Fazer o impossível uma vez é obra, mas duas vezes é astronómico e está somente ao alcance dos predestinados: Hawley é um deles.

 

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Do choque visual ao argumento mirabolante, a narrativa de Hawley alimenta-se de instrumentos simples para, nos momentos mais improváveis, criar e consolidar o conflito. Apesar do seu caráter inusitado, a história de «Fargo» parece, cirurgicamente, desenhada ao detalhe – para tal, Hawley serve-se das personagens que, muito com a ajuda do diálogo, se apresentam (quase imediatamente) como figuras complexas e a ter em conta no desenrolar da ação. Deste modo, e assim como acontece a quem sofre várias vezes do mesmo 'mal', também nós, espectadores, criamos uma espécie de anticorpos aos truques de Hawley. Presos como sempre pelo seu ritmo acutilante, tornamo-nos mais atentos por hábito e, no jogo de imagens e palavras de «Fargo», sabemos que nada é introduzido por acaso. Ao jeito de uma receita pensada ao pormenor, o criador e argumentista – que na segunda temporada até se chegou à frente para realizar um episódio (o primeiro da carreira) – equilibrou os universos visuais e narrativos para trazer, novamente, uma das histórias mais viciantes dos últimos anos.

 

Mas nem só de «Fargo» vive Noah Halwey. Provando, uma vez mais, que gosta de correr riscos, agarrou o desafio de trazer a primeira série X-Men para a televisão, «Legion», exibida no nosso país pela FOX. Não lhe chegava testar os fãs dos irmãos Coen, e decidiu arriscar (e muito!) no mundo das comics: ao seu estilo, pois claro. Sem receios ou comodismos, voltou a pegar num universo pré-existente para o reclamar como seu, com o seu imaginário muito próprio a respirar em cada centímetro de «Legion». A narrativa 'inquieta', e capaz de nos deixar também inquietos, é já imagem de marca do autor que, em três anos, se assumiu (e consolidou) como uma das figuras mais proeminentes da televisão. Longe da 23ª posição alcançada por «Fargo» no top IMDb, a série está, ainda assim, entre as 150 melhores, na 143ª posição – e já foi renovada para uma segunda temporada!

 

Nunca digas nunca voltes a um lugar onde foste feliz

 

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"Esta é uma história verídica. Os eventos descritos neste filme tiveram lugar no Minnesota em 2010. A pedido dos sobreviventes, os nomes foram alterados. Por respeito aos mortos, o resto foi contado exatamente como aconteceu". Ainda antes de Ewan McGregor se mostrar no pequeno ecrã, as letras desenham-se no manto branco que, incontornavelmente, habita Fargo. No dia 30 de abril, data de estreia da série em Portugal, o TVSéries 'passou' esta mentira, que tem sido difundida desde o filme dos irmãos Coen. «Fargo» nunca foi uma história verídica, mas antes uma reinvenção – arriscada e inusitada – de um crime.

 

A terceira temporada da criação de Hawley começa longe da localidade: um cidadão, aparentemente comum, é interrogado em 1988, no Berlim de Este. O discurso flui atabalhoadamente, com uma falsa naturalidade, e nós somos apanhados de surpresa. Prometeram-nos uma viagem a Fargo, mas ali estamos, num escritório desconhecido, a testemunhar a condenação – talvez injusta – de um homem. Num plano desenhado com mestria, novamente com Hawley na realização, a transição para Fargo faz-se com uma transição fulgurante e bem construída. E, mais uma vez num escritório, agora numa altura bem mais contemporânea, eis que chega a aguardada voz de Ewan McGregor. O ator escocês dá vida a dois irmãos gémeos: Emmit, um empresário bem-sucedido, e Ray Stussy, um polícia careca que culpa o irmão pela sua situação 'humilde'. No centro, estão selos – mas não são uns selos quaisquer...

 

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Não tardaram a surgir as primeiras comparações entre a relação dos Stussy e a Guerra Fria, com a terceira temporada a ser, inclusivamente, entendida como uma possível alegoria. Dois lados vivem um conflito aparentemente 'político' e mais jogado nos bastidores do que no campo de batalha. A julgar pelo episódio piloto, os problemas começam logo na comunicação entre intervenientes, mas também na forma como a informação chega ao espectador. Na tentativa de empatizar, ou não, com as personagens em cena, somos constantemente iludidos pela imagem que passam e pelas escolhas que fazem. Mais uma vez, Hawley apresenta homens e mulheres complexos, que não são necessariamente bons ou maus, pelo que falarmos em vilões ou vítimas será perigosamente redutor.

 

Como não podia deixar de ser, «Fargo» move-se muito para além do suposto núcleo central, sendo uma questão de tempo até acabar tudo misturado! Findo o episódio piloto, já todas as personagens parecem, irremediavelmente, interligadas. No entanto, ao tentarmos recriar os passos da trama, totalmente inusitados e, mesmo assim, complexos, apercebemo-nos do brilhante trabalho que é feito por Hawley. Ray, que está envolvido com uma das criminosas em liberdade condicional que tem de acompanhar, só pensa em vingar-se de Emmit. O empresário, que teve de recorrer a um empréstimo de um milhão de dólares um ano antes, está agora envolvido num negócio, no mínimo, questionável. É VM Vargas (David Thewlis) o portador da má notícia: o ator rouba, aliás, a cena na sua breve aparição no primeiro episódio. E também as atrizes Carrie Coon e Mary Elizabeth Winstead prometem dar que falar nesta nova incursão em Fargo.

 

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Costumam dizer que nunca devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Como referimos, ao ser associado a «Fargo» (1996), o remake foi, inclusivamente, 'afastado' com base nesse argumento fácil. No entanto, e no arranque da terceira temporada, Hawley prova novamente que mereceu o voto de confiança. Sem a ambição de imitar os Coen, o criador conquistou já o seu espaço em Fargo e promete ter vindo mesmo para ficar. Nós, que gostamos de boas séries, agradecemos.

 

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

 

 

Óscares 2018: Como Fazer Conversa Sem Ter Visto a Cerimónia

Se contribuíram para a anunciada audiência miserável da cerimónia, mas querem saber os mínimos para fazer conversa em ocasiões sociais, vieram ao sítio certo. Como não quero que vos falte nada, deixo-vos os 10 melhores momentos dos Óscares 2018 – de Portugal ao Dolby Theatre, passando por um qualquer cinema do outro lado da rua em Los Angeles. Até vai parecer que viram!
 

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1) Sabes que o fim do mundo está próximo quando, num evento VIP de cinema, transmitido pela SIC para pobre ver antes dos Óscares, a Lili Caneças tenta falar de... cinema e não consegue. Porquê comentar apenas a Passadeira Vermelha dos Óscares, quando se pode fazer o mesmo num cinema de Lisboa, certo? Se isto não é sinal do apocalipse, não sei o que será. (E também isto).
 

 

2) Para quem não queria ouvir os comentários da SIC durante a cerimónia, havia o canal 700 da NOS, diziam eles. No entanto, esta escolha representava um desafio verdadeiramente hercúleo. O que era mais irritante: os comentários em português por cima ou o som do intervalo no 700? Brilhante estratégia de marketing para levar as pessoas a, de uma vez por todas, passarem a ver a versão comentada. (Comigo não resultou, mas boa tentativa).

 

 

3) Resumo do monólogo de abertura: Jimmy Kimmel repetiu a apresentação dos Óscares com a certeza de que não podia correr pior do que em 2017. Depois do engano estrondoso na categoria de Melhor Filme, com o anúncio de «La La Land: Melodia do Amor» (2016) como vencedor em vez de «Moonlight» (2016), Kimmel logo avisou que mais valia os vencedores esperarem um minuto antes de se levantarem para receber a estatueta [assim como em 2017, Warren Beatty e Faye Dunaway voltaram a apresentar a última categoria]. Outros temas – assédio sexual dentro e fora de Hollywood, se Christopher Plummer achava Lin-Manuel Miranda parecido com o verdadeiro Alexander Hamilton e que o objetivo de filmes como «Chama-me Pelo Teu Nome» (2017) não é fazer dinheiro [para isso há o «Pantera Negra» (2018)], mas sim irritar Mike Pence.

 

 

4) A fim de desencorajar discursos mais longos, a Academia decidiu premiar os mais rápidos. Em caso de empate, o Jet Ski iria para o Christopher Plummer, mas tal não foi necessário e foi Mike Bridges, vencedor na categoria de Guarda-Roupa por «Linha Fantasma» (2017), a levar o brinquedo para casa. [Helen Mirren não incluída].

 

 

4.1) Outra das novidades é que os discursos mais longos iam deixar de ser interrompidos por música. Em vez disso, Lakeith Stanfield, de «Foge» (2017) [e «Atlanta»], devia repetir a cena do filme e desatar aos gritos em palco para a pessoa ir embora. Infelizmente, tal não se confirmou e os vencedores foram mesmo 'cortadas' pela orquestra...

 

5) Bem, chegou oficialmente a altura de deixar de piratear filmes e de ir ao cinema. Nunca se sabe quando podem entrar, sala dentro, o Mark Hamill, a Emily Blunt, a Lupita Nyong'o ou o Armie Hammer. Na verdade, só quero ter a Meryl Streep a dizer-me adeus.

 

6) A maioria da Academia é dos Los Angeles Lakers. Ou provavelmente era há uns anitos, passou pela bandwagon dos Miami Heat e dos Cleveland Cavaliers, e deve estar agora para os lados dos Golden State Warriors. A carta com que Kobe Bryant se despediu da NBA virou curta-metragem de animação e o ex-jogador tem um Óscar de vantagem perante a concorrência de LeBron James e Michael Jordan. [Fãs de Jordan não desesperem, é só fazer sequela de «Space Jam» (1996)].

 

 
7) Em 2017, Casey Affleck levou o Óscar por «Manchester By The Sea» (2016) apesar das críticas ensurdecedoras de assédio. O ator foi amealhando prémios, por um lado, e, por outro, lá se ia dizendo que Casey tinha chegado a acordo com as queixosas e não valia a pena fazer campanha contra ele. O que é certo é que, 12 meses depois, o irmão de Ben Affleck foi 'encostado' em todas as cerimónias, onde é suposto o vencedor do ano passado passar o testemunho a um dos premiados. Para disfarçar, Emma Stone entregou o Óscar de Melhor Realizador em vez do de Melhor Ator.
 

 
8) Nem sei muito bem como abordar este mistério, que me deixou totalmente perplexa. Jennifer Lawrence é assim tão mais alta que Jodie Foster? Acho que elas fizeram uma qualquer tentativa de piada relacionada com a Meryl Streep, mas eu estava demasiado distraída, desculpem. Após pesquisa, está confirmado que Jennifer tem 1,75m e Jodie 1,6m. [Já agora, aplausos para a coragem de Jennifer, que mesmo depois das quedas que já protagonizou, ainda se arrisca em manobras como esta].
 

 

9) O discurso da Frances McDormand, eleita sem surpresas Melhor Atriz [por «Três Cartazes à Beira da Estrada» (2017)], foi o melhor da noite. Já que não havia orçamento para outro jet ski, pelo menos dava-lhe uma trotineta rasca. Deve estar cansada de tanta subida a palcos na temporada de prémios. Aqui não vos facilito a vida, têm mesmo de ver!
 

   

10) Em cinco anos, quatro Óscares de Melhor Realizador foram para cineastas mexicanos (Alfonso Cuarón, duas vezes Alejandro González Iñárritu e agora Guillermo del Toro). Foi, aliás, noite de festa para o México, que ainda celebrou duas vezes graças a «Viva - A Vida é Uma Festa» (2017), por Melhor Música Original e Melhor Filme de Animação. Uma escolha política, que del Toro, premiado por «A Forma da Água» (2017), acentuou no discurso com a frase "Sou um imigrante". Ainda assim, pelo sim pelo não, del Toro lá verificou o envelope antes de festejar, não fosse outra vez um erro...
 

 

 
Última Sessão / Androids & Demogorgons

Da TV Para o Dolby Theatre: Estrelas do Pequeno Ecrã Que Podem Levar o Óscar

Longe vai o tempo em que a televisão era uma rampa de lançamento para ser estrela de cinema – que o diga Shemar Moore [desculpem, não resisti]. Ou que as grandes estrelas de Hollywood centravam toda a carreira no grande ecrã, já que os estúdios de TV não eram suficientemente competitivos para os colocar em séries. O paradigma mudou totalmente e, em anos recentes, é cada vez mais comum ver as vedetas do cinema mudarem-se de 'armas e bagagens' para o pequeno ecrã, ou os atores de televisão encaixarem um ou dois filmes por ano na agenda já atarefada.

 

Domingo, 4, é dia de Óscares e há muitos rostos conhecidos da televisão (ou dos seus bastidores), que podem sair do Dolby Theatre com a estatueta. Vamos à lista!

 

Allison Janney

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Lançada para a ribalta por «Os Homens do Presidente», série na qual participou entre 1996 e 2006, Allison Janney tem brilhado na comédia «Mom». Regressou à TV com estrondo em 2014, ano em que 'limpou' dois Emmys, um por «Mom» e outro pela participação especial em «Masters of Sex». Em sentido contrário, recebeu o primeiro Globo de Ouro da carreira por «Eu, Tonya», após cinco nomeações por séries televisivas.

Concorre ao Óscar de Melhor Atriz Secundária por «Eu, Tonya» e é a grande favorita à vitória.

 

 

Daniel Kaluuya

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Uma amiga minha correu para o Twitter após o segundo episódio de «Black Mirror», Fifteen Million Merits, para elogiar o seu protagonista, Daniel Kaluuya. "Ele tinha de saber", diz ela sempre que conta a história. Praticamente desconhecido na altura, em 2011, o ator, que já tinha participado em «Skins», arrasou completamente. Reconhecido finalmente por «Foge», o ator continua a marcar presença em séries televisivas, nomeadamente britânicas. No filme, divide o protagonismo com outra atriz da televisão, Allison Williams, de «Girls».

Concorre ao Óscar de Melhor Ator por «Foge».

 

Jordan Peele

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É difícil pensar em Jordan Peele, nomeado para três categorias por «Foge», sem o ligar imediatamente ao seu trabalho em televisão. Começou em «MADtv», e participou, enquanto ator e argumentista, em comédias inusitadas como «Key and Peele», onde dividia as atenções com Keegan-Michael Key. Também se tem destacado em papéis um pouco mais sérios, sendo disso exemplo «Fargo» e «Childrens Hospital». Na vida real, Jordan é casado com a atriz Chelsea Peretti, de «Brooklyn Nine-Nine».

Concorre aos Óscares de Melhor Realizador, Melhor Filme e Melhor Argumento Original por «Foge».

 

Laurie Metcalf

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Habituada a ter de arranjar vestimenta para as premiações dos Emmy e dos Globos de Ouro, já que conta com várias nomeações pelas suas participações televisivas, Laurie Metcalf está agora nas bocas do mundo por «Lady Bird», onde dá vida à mãe da protagonista (Saoirse Ronan). Prestes a regressar a «Roseanne», na recuperação daquele que foi, provavelmente, o papel da sua vida, a atriz é muito popular por interpretar a mãe de Sheldon Cooper (Jim Parsons), em «A Teoria do Big Bang». Além disso, foi também a protagonista da adaptação americana de «Getting On».

Concorre ao Óscar de Melhor Atriz Secundária por «Lady Bird».

 

Kumail Nanjiani

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Dinesh Chugtai em «Silicon Valley», Kumail Nanjiani está em destaque pelo argumento de «Amor de Improviso», escrito a meias com a esposa, Emily V. Gordon. A sua inclinação para a escrita de comédia já tem raízes antigas, sendo disso exemplo séries centradas na comédia stand-up, como «The Meltdown with Jonah and Kumail».

Concorre ao Óscar de Melhor Argumento Original por «Amor de Improviso».

 

Aaron Sorkin

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Longe de ser um estranho às lides da sétima arte, Aaron Sorkin é também o responsável pela criação de várias séries, nomeadamente duas séries estratosféricas: «Os Homens do Presidente» e «The Newsroom». Já galardoado com o Óscar pelo argumento de «A Rede Social» (e nomeado também por «Moneyball - Jogada de Risco»), o cineasta volta a marcar presença no Dolby Theatre por um argumento, pelo filme onde se estreia como realizador.

Concorre ao Óscar de Melhor Argumento Original por «Jogo da Alta-Roda».

 

Lesley Manville

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Não é a mais popular entre as nomeadas a Melhor Atriz Secundária, duas das quais já referidas neste artigo, mas é um rosto conhecido das séries britânicas. Entre o currículo, cujo primeiro crédito remonta a 1974, destacam-se séries como «Mum», «River» e «Emmerdale Farm».

Concorre ao Óscar de Melhor Atriz Secundária por «Linha Fantasma».

 

Virgil Williams

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Embora a reação imediata de muita gente possa ser "quem é este?", os fãs de séries televisivas já ouviram provavelmente falar nele. Confusos? Produtor e argumentista de séries como «Serviço de Urgência», «24», «The Chicago Code» e «Mentes Criminosas», Virgil Williams não foi falado em 2016 pelos melhores motivos. Lembram-se de o ator Thomas Gibson ter sido despedido de «Mentes Criminosas» por, alegadamente, tentar agredir um produtor? Virgil Williams era esse produtor...

Concorre ao Óscar de Melhor Argumento Adaptado por «Mudbound - As Lamas do Mississípi».

 

Richard Jenkins

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Recentemente, Richard Jenkins participou nas séries «Berlin Station» e «Olive Kitteridge», protagonizada por Frances McDormand, a candidata favorita ao Óscar de Melhor Atriz deste ano por «Três Cartazes à Beira da Estrada». Não obstante, é impossível pensar neste ator sem o ligar imediatamente ao pai da complicada família de «Sete Palmos de Terra», estreada em 2001.

Concorre ao Óscar de Melhor Ator Secundário por «A Forma da Água».

 

Woody Harrelson

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Mais ligado ultimamente ao grande ecrã, Woody Harrelson iniciou a sua carreira no elenco principal de «Cheers, Aquele Bar», onde participou em 200 episódios. Passou mais tarde por «Will & Grace» e foi aclamado, em 2014, pela primeira temporada de «True Detective», ao lado de Matthew McConaughey. Deve perder o Óscar para o parceiro de «Três Cartazes à Beira da Estrada», Sam Rockwell.

Concorre ao Óscar de Melhor Ator Secundário por «Três Cartazes à Beira da Estrada».

 

Outros nomeados:

Guillermo del Toro e J. Miles Dale: cocriador e produtor executivo de «The Strain», respetivamente, são os dois produtores de «A Forma da Água destacados na categoria de Melhor Filme.

Michael Green: Com um historial já longo na produção de séries (e argumento), estreou-se este ano na criação em «American Gods», ao lado de Bryan Fuller. No currículo tem séries como «Smallville», «Everwood» e «Heroes». É um dos argumentistas de «Logan», nomeado a Melhor Argumento Adaptado.

Scott Frank: Também argumentista de «Logan», Scott pode subir ao palco com Michael Green caso o filme dos X-Men saia vitorioso. É o criador, argumentista e realizador de «Sem Deus», cuja primeira temporada foi lançada em 2017.

Scott Neustadter e Michael H. Weber: A única nomeação de «Um Desastre de Artista», protagonizado por James Franco e uma recriação dos bastidores de «The Room», cabe a esta dupla por Melhor Argumento Adaptado. Os dois criaram a série «Amigos Coloridos», em 2011, que teve apenas uma temporada.

 

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