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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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País Irmão: Afinal o 'Truman' Somos Nós

Há décadas que os comuns mortais são assombrados pelo Big Brother, uma entidade, por vezes abstrata, que tudo vê, tudo sabe e tudo pode manipular. A maior mentira é acreditar que nada podemos fazer (ou que somos imunes) – e «País Irmão» esfrega-nos isso na cara. Disponível aqui.

 

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"Quem controla o presente, controla o futuro". A frase, dita por Fernando (Dinarte Branco), transporta-nos, quase automaticamente, para o 1984 de George Orwell: "Aquele que controla o passado controla o futuro. Aquele que controla o presente controla o passado" [tradução livre]. Publicado em 1949, este livro é mais uma prova de que a atualidade de «País Irmão», que estreou a 11 de setembro na RTP1, é tão intemporal quantos os problemas que representa (ainda que modernizados no processo). E, na era da Informação, nós – o espectador que é personagem enquanto público – continuamos tão susceptíveis à ignorância quanto antes.

 

Desengane-se, portanto, quem acha que está fora do espectáculo mediático em que habita Truman Burbank (Jim Carrey), o protagonista, sem saber, de um reality show que o acompanha 24/7, em «The Truman Show - A Vida em Directo» (1998). O espectador está no centro, e o Big Brother assumiu o controlo. Acabaram os "intelectuais", agora só há o público – a ideia, defendida pela Ministra da Cultura (Margarida Marinho), coloca a sociedade como alvo para, de seguida, a desmontar na sua farsa. O público, na sua forma amorfa – mas presente –, quer novelas, futebol e outras distrações do seu quotidiano, privilegiando o entretenimento em vez dos dramas da vida real. E isso dá uma vantagem assustadora a quem tem poder – e pode usá-lo sem qualquer critério.

 

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O monólogo 'acompanhado' de José Ávila (José Raposo), na sua pacata sala de aula, é um dos mais brutalmente verdadeiros dos últimos tempos. Não é o 'rei' que vai nu, somos nós: consumidores de redes sociais, de aplicações, de programas vulgares, de leituras rápidas e inconsequentes. Não porque os consumimos, mas antes porque não vemos nada para além disso, porque temos uma vida física sustentada na digital. É uma chapada de luva branca dada a seis mãos, pelos criadores da série – Tiago R. Santos, Hugo Gonçalves e João Tordo – e por um leque composto por atores de qualidade comprovada, como José Raposo, Margarida Marinho, Manuel Cavaco, Dinarte Branco, Afonso Pimentel ou Victória Guerra, entre muitos outros.

 

«País Irmão» arranca com uma cena hilariante, já sinal do que nos espera. Manuela Azevedo, a Ministra da Cultura, é entrevistada por Carlos (Jorge Mourato), o rosto do programa mais visto em Portugal. A conversa, amigável mas leviana, é criticada nos bastidores pelos assessores da Ministra, uma mais 'verde' (Vera – Filipa Areosa) e outro bem experiente (Fernando), que têm perspetivas diferentes relativamente à importância do que está acontecer. Na verdade, tudo não passa de um teatro feito para o público ver, e que rapidamente se desfaz após o 'corta', que mostra as verdadeiras cores de Manuela e Carlos, inimigos de longa data. É ele que lança a primeira 'farpa' sobre o rumor que visa uma polémica que envolve o Governo e que, dali em diante, será tratado como "o escândalo que não pode ser mencionado".

 

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No rescaldo do que acontece, Manuela senta-se com os seus assessores num bar, onde Fernando comenta a simplicidade de uma vida, de outros tempos, acompanhada por apenas dois canais, e na qual o país parava para ver a novela. Se Fernando elogia essa época pelo poder de 'controlar' o público, que via as novelas religiosamente, José, professor de Escrita Criativa e Produção de Telenovelas, valoriza a riqueza de novelas como «Gabriela» ou «Roque Santeiro», que 'simplificavam' o discurso de grandes obras literárias para a população. Que eram verdadeiras aulas culturais e abertas a todos. Como tal, José grita a plenos pulmões, alcoolizado, que "a novela morreu", num claro corte com o que é hoje consumido pela audiência, a nível de qualidade. Ainda assim, o comentário assertivo de Fernando dá a Manuela uma ideia brilhante: produzir uma grande novela luso-brasileira para distrair toda a gente do escândalo – antes que ele seja realmente mencionado.

 

Toda a apresentação do projeto ao Primeiro-Ministro (André Gago) é uma ironia corporizada a cada frase. Pode usar-se o dinheiro do Cinema – mas esse é pouco, pelo que vão ter de convencer investidores brasileiros. Deverá lançar-se um concurso público para escolher quem vai participar e, assim, entreter os portugueses, mesmo que os vencedores já estejam à partida escolhidos; apenas para eles serem iludidos de que têm realmente uma oportunidade. Além disso, há sempre a novela… da novela: paparazzis e notícias de 'encher chouriços' que vão permitir que a tal produção ocupe bem mais do que apenas uma slot horária. E uma novela pode durar "seis meses, um ano, ou até mais", atesta a personagem de Dinarte Branco.

 

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Veste-se de comédia, mas «Pais Irmão» é também um drama, desenhado com críticas bem duras aos nossos dias: novelas, entrevistas sensacionalistas, programas de comentário desportivo sem rigor e aplicações como o Facebook ou o Tinder que substituem a interação presencial pelas redes. No primeiro episódio, e ao mesmo tempo que apresenta as 'suas' personagens, o trio de criadores vai dizendo ao que vem, sem, para isso, descaraterizar a narrativa e quem a habita. E é aí que reside a maior vitória da nova série das segundas-feiras: a história está bem estruturada e avança sem clichés ou truques fáceis, privilegiando a ficção acima de tudo. O confronto com a realidade é, ainda assim, inevitável e a crítica dirige-se a algo que nos é querido: nós próprios. Estaremos dispostos a ouvi-la e, acima de tudo, a aceitá-la?

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

 

Seven Seconds: Longe Vai o Tempo Em Que Tínhamos Todo o Tempo do Mundo

Embora sem apresentar um tema novo, «Seven Seconds» assume uma abordagem inovadora, exigindo ao espectador uma participação ativa ao longo do processo. A nova série da Netflix marca o regresso de Veena Sud, a criadora da «The Killing» norte-americana, que aprendeu com os 'erros' e opta por uma abordagem mais direta.

 

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Para quem não conhece a sinopse de «Seven Seconds», e parte rumo ao desconhecido, o episódio piloto é verdadeiramente absorvente (ou para quem, como eu, tem memória de peixe e se esqueceu entretanto). Peter (Beau Knapp) conduz por entre a neve em direção ao hospital, para onde a esposa, grávida, foi levada numa emergência. Chamada para aqui, chamada para ali, até se ouvir um 'baque' intenso, que o próprio condutor demora a perceber de onde veio. A irromper pelo silêncio, que adia a revelação mais do que anunciada da tragédia, eis que se destaca o som das voltas aparentemente intermináveis da roda de uma bicicleta.

 

Este choque acidental não parece ter grande história, mas a verdade é que a sociedade ainda continua a encontrar formas de nos surpreender – que é como quem diz, basta um drama ser humano, tenha artifícios ou não, para ter à sua disposição um sem-fim de possibilidades. «Seven Seconds» não é uma trama surpreendente, aborda até tópicos que já conhecemos bem demais, nomeadamente o preconceito e as divisões sociais, mas inova através das suas personagens. Desta forma, já o caso parece resolvido – embora não saibamos ainda quem é a vítima – quando somos fintados por um trio de polícias. Mike DiAngelo (David Lyons) descobre, finalmente, a pessoa colhida e decide, unilateralmente, ocultar o acidente. Ainda não sabemos o que ele quer evitar, mas desconfiamos...

 

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Influenciados pelos estereótipos sociais – fomentados inclusivamente pelo mundo das séries –, logo suspeitamos que se trata de alguém da comunidade afro-americana. Não estamos enganados. Ao jeito de um puzzle, vamos tendo uma pista aqui e ali acerca de quem pode ser, sendo que a presença portentosa de Regina King, bem ao seu estilo, deixa antever que a sua personagem vai estar no centro do problema. Na verdade, o adolescente ceifado acidentalmente por Peter, e que afinal foi deixado à sua sorte ainda vivo, é o filho de Latrice (King) e Isaiah (Russell Hornsby). As culpas apontam para um idoso acólatra, uma mentira conjeturada pelas autoridades, da qual o espectador acaba por ser testemunha.

 

Com a manipulação da informação que nos chega, ou não, «Seven Seconds» não julga apenas as suas personagens, mas também as interpretações do público – baseadas na forma como cada um vê a realidade. O conhecimento do caso vai chegando de forma doseada, até a advogada alcoólica KJ Harper (Clare-Hope Ashitey) aceitar olhar para o adolescente em coma numa cama de hospital, já perto do final do piloto. Numa mensagem direta à própria audiência, a criadora deixa o sinal claro de que é impossível continuar a ignorar o que acontece à nossa volta, bem como a crítica social arrasadora e bem real que habita a ficção de «Seven Seconds».

 

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Multiplicam-se frequentemente, pela imprensa e não só, casos de violência policial para com cidadãos afro-americanos. É isso, aliás, que DiAngelo usa para manipular Peter, que se quer entregar à Justiça. Segundo o comandante da polícia, Peter arrrisca-se a pagar não apenas pelo acidente no qual participou, e cuja culpa foi agravada pelo facto de não ter prestado logo socorro à vítima, mas também pelos outros casos que têm marcado a atualidade dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, as figuras políticas de Jersey garantem que a cidade tem passado à margem todas as polémicas: por mérito próprio ou por encobrimentos regulares? Fica a questão.

 

A narrativa de «Seven Seconds» é simples, mas rica pelas leituras que possibilita. A televisão, mesmo de ficção, é uma casa preparada para receber, mas também para oferecer novas perspetivas: tem uma janela para o globo, observando a realidade passada e presente, e uma porta, de onde podem sair novas ideias e, sobretudo, novas discussões. Embora tenha diferentes storylines, que vivem de forma independente mas estão destinadas a cruzar-se, a nova série da Netflix assume um fio condutor claro e que, certamente, será explorado ao longo dos próximos episódios.

 

 

High Maintenance: Que Droga de Vida... e de Série (das Boas)

Depois de seis temporadas na internet, «High Maintenance» mudou-se para a HBO – e para o TVSéries. Dois episódios foram o suficiente para a série conseguir a renovação, em 2016. (Atualmente na segunda temporada, viu a terceira ser garantida há dois dias || Análise do episódio piloto).

 

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Foi um longo caminho para o casal Ben Sinclair e Katja Blichfeld desde a estreia da sua web série «High Maintenance», em novembro de 2012. Antes de ser adquirida pela HBO, os criadores tinham de apelar ao apoio monetário dos seguidores da série e, em 2014, o Vimeo financiou meia dúzia de episódios. Agora, se procurar os episódios na internet, na sua fonte original, encontrará um breve teaser que o/a reencaminhará para a HBO, o canal detentor dos direitos de emissão da série, que foi renovada para uma segunda temporada no final de setembro [texto originalmente publicado em novembro de 2016].

 

A narrativa é sustentada por um conceito que, não sendo novo, não é tão replicado quanto isso: a entrada de novas personagens em cada episódio, com a temporada a resultar, na prática, de eventos isolados (curiosamente, «Easy» parte do mesmo princípio). O elo de ligação entre eles é "The Guy" (Ben Sinclair), um traficante de droga sem nome, que faz entregas em Nova Iorque de bicicleta e vai contactando com um leque distinto – e caricato – de clientes. Não obstante, ao contrário do que acontecia na web série, "The Guy" tem múltiplos clientes por episódio e não apenas um, sendo que, naturalmente, também a duração atual é superior à dos episódios antigos.

 

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Mais tempo é também sinal de mais aventuras para o "The Guy", que não consegue ter um dia calmo no "trabalho". No primeiro episódio, que teve estreia mundial no passado dia 16 de setembro, o traficante bem se pode queixar da falta de sorte que, em contrapartida, valeu umas boas risadas ao espectador. Não podemos esperar pela primeira entrega, depois de uma breve introdução ao protagonista, mas qual ironia do destino, "The Guy" é detido à porta do apartamento por uma discussão entre Johnny (KeiLyn Durrel Jones) e a namorada. Este autêntico "Vin Diesel" – a piada evidente é mesmo verbalizada – não está, aparentemente, a atravessar a melhor fase da sua vida e procura apoio no suposto amigo...

 

"The Guy" não é uma pessoa sociável, embora isso pudesse até ser uma mais-valia no negócio da "erva", pelo que a interação com os clientes se torna facilmente incómoda, sendo o mal-estar palpável para lá do ecrã. O vendedor não vê em Johnny um amigo, mas vai mantendo a farsa com medo de perder o cliente. Já a presença de um amigo misterioso na sala serve para adensar o lado mais sombrio desta comédia, uma vez que, ao contactarmos com personagens desconhecidas, nunca sabemos do que elas são capazes. Sem que nada o fizesse prever, o comportamento estranho de Johnny não passou, afinal, de um teste às suas capacidades de representação e, a julgar pela reação de "The Guy", foi bem-sucedido.

 

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Há, de seguida, uma escolha criativa arriscada. Fora da esfera imediata de "The Guy", conhecemos Max (Max Jenkins), o único homem num grupo de amigas, que tem dificuldade em pautar a sua presença com mais do que conselhos ocos. Não é, portanto, de estranhar que desapareça à mínima oportunidade. Através de uma aplicação para encontros casuais entre homens, Max envolve-se com Sebastian (interpretado pelo ator porno Colby Keller) e, a partir daí, começa a acompanhá-lo às reuniões de ex-viciados em droga. No entanto, as mentiras que vai alimentando sucedem-se, tentando assim parecer mais interessante aos olhos da nova conquista.

 

No entanto, embora "The Guy" esteja mais longe da vista, é uma questão de tempo até as duas storylines se cruzarem, como é desde logo anunciado pelo conceito da série. Como seria de esperar, a mentira de Max tem a perna curta e, por acaso do destino, a sua fase mais negra coincide com a descoberta do telemóvel do protagonista da série que, curiosamente, é também o seu fornecedor. Ironicamente, e depois de não destruir a "amizade" com Johnny a muito custo, "The Guy" perde as estribeiras e confessa não suportar Max. A discussão é inevitável e, como consequência, Max vê ali a oportunidade de enriquecer aproveitando a lista de clientes presente no telemóvel, que não para de tocar.

 

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O piloto é um exemplo de como se pode ter um episódio equilibrado sem depender em demasia da sua figura principal, permitindo, assim, que a narrativa exista fora do universo deste. Enquanto audiência, sabemos mais do que "The Guy": Johnny termina a sua mentira já depois da saída do traficante e o trajeto de Max nada tem a ver com este. Com um sem fim de possibilidades à sua frente, «High Maintenance» sai reforçada pela profundidade, ainda que superficial, das personagens que vão surgindo. Resta saber quais os próximos clientes que vamos encontrar pelo caminho...

 

 

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

A Pecadora: Lobo em Pele de Cordeiro, ou Cordeiro em Pele de Lobo?

Como não adorar uma série que desafia os estereótipos e definições-tipo de certo e errado, nos inquieta enquanto espectadores e, às tantas, nos deixa totalmente fora do nosso ambiente de conforto? É o que acontece com «A Pecadora», um tesouro seriólico em estado puro que revela uma Jessica Biel que desconhecíamos. Se pensas que sabes o que te espera, pensa outra vez.

 

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A premissa de «A Pecadora» assume contornos tão surreais que, à partida, tinha tudo para correr mal. A história centra-se numa mulher comum, Cora Tannetti (Jessica Biel), que, numa tarde em família na praia, tem, ao que tudo indica, um surto psicológico avassalador e esfaqueia um desconhecido até à morte. O caso, insólito mas sem mistério aparente, parece condenado a um fim rápido e sem cerimónias... Só que aí não havia série, certo?

 

A julgar pelo arranque da narrativa, não seria de esperar este golpe definitivo no rumo da história (a não ser que conheçam a sinopse). Nada em Cora indicia um problema tão grave, ainda que ela se mostre frequentemente descontente e alguns sinais roçem o estado depressivo, como a apatia. Na criação da empatia com a personagem principal de «A Pecadora», será fácil encontrar traços próximos de nós ou de pessoas que conhecemos, mas essa ilusão não dura muito. Acima de tudo está a mestria, de certa forma inesperada, de Jessica Biel, facilmente reconhecida por filmes como «O Ilusionista» (2006) ou «Next» (2007). A nomeação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV foi a cereja no topo do bolo para destacar um papel que pode marcar a sua carreira. 

 

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A rígida rotina entre o trabalho e a vida pessoal, sufocada pela presença permanente dos sogros, a falta de afetos com o marido Mason Tannetti (Christopher Abbott), as exigências enquanto mulher e mãe e outras questões aparentemente banais empilham-se cena após cena. Até Cora não ser capaz de se as segurar mais às costas. Mas não seriam suficientes, ainda assim, para tamanha reação sanguinária da protagonista. Depois de se afastar para nadar sozinha e fixar perturbada um casal num momento íntimo, Cora sai disparada rumo a Frankie (Eric Todd), que se encontra numa toalha próxima, e assassina-o sem qualquer hesitação.

 

O espetáculo gore protagonizado por Cora lança o mote para um dos enigmas mais atrofiantes da história recente da televisão. Da primeira vez que assistimos ao momento, extraordinariamente violento e também por isso uma fácil distração, são muitos os pormenores que nos escapam. É quando o revisitamos, através de personagens diferentes e em alturas também distintas, que vamos somando as frases ou gestos de que não nos apercebemos de imediato. Na verdade, por vezes o melhor truque é aquele que é feito mesmo por baixo do nosso nariz. E, como que troçando da nossa inocência inicial, o criador Derek Simonds opta por repetir a cena uma e outra vez, e mais outra, sempre com a adição de algo que aconteceu fora da primeira cena ou demasiado rápido para 'apanharmos'.

 

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Depois há Harry Ambrose (Bill Pullman). Aquele tipo desajeitado, detetive da velha guarda mas inconformado, que vem estragar as contas já feitas e dar à série o rumo de que precisa. Na mesma altura, é introduzida uma criança numa família disfuncional, que aos poucos vai desvendando a sua verdadeira identidade. Não apenas enquanto personagem, mas também no contexto social e familiar, muito apoiado na fé e na absolvição dos pecados – daí o título de «A Pecadora». Como se o puzzle não estivesse já confuso o suficiente, cada personagem é apresentada com profundidade e traços bem definidos, que deixam adivinhar storylines paralelas também bastante 'fora'.

 

Aos poucos, vai-se desenhando uma linha narrativa suportada por um trauma, consciente ou inconsciente, e por um passado que se esconde por baixo da superfície. É a sagacidade e perseverança de Harry que possibilita a sua real investigação e, consequentemente, o adensar do mistério que se desmancha episódio após episódio. «A Pecadora» surpreendeu pela sua ousadia e, para sorte do público português, não demorou a chegar ao catálogo da Netflix. Uma maratona irresistível e passível de resultar em dependência...

 

 

O Assassinato de Gianni Versace: Onde é Que Arranjaste Tanto Estilo, Pá?

O arranque luxuoso de «American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace», com uma sonoridade a fazer lembrar um outro épico bíblico, é, na sua essência, uma experiência quase mística. Ainda assim, e embora funcione como uma boa distração perante a incoerência narrativa, traduz a incursão extravagante de uma história erguida sob uma superfície demasiado frágil.

 

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Há uma cena célebre de um programa qualquer do José Figueiras, perdido algures nos anos 90, na qual um elemento da plateia pergunta ao apresentador onde foi arranjar tanto estilo. A mesma pergunta que ecoa, ainda que de forma menos inocente, quando assistimos ao primeiro episódio da segunda temporada de «American Crime Story». A vida de Versace esbanja glamour, numa caraterização sublime daquela época [como diria uma amiga minha, seria mais difícil se fosse Tom Ford], mas a qualidade está longe de ser a mesma a nível de argumento. A preocupação estética está lá, mas o resto é um conjunto de nadas, ou de muito pouco.

 

Antes de mais, é preciso esclarecer uma coisa: o protagonista desta história não é Versace, interpretado aqui pelo venezuelano Edgar Ramírez, mas antes o assassino em série Andrew Cunanan (Darren Criss). Os criadores usam e abusam da sua liberdade criativa para construir e dar profundidade àquele que é, muito provavelmente, o papel da vida de Criss, que já tinha colaborado com o produtor executivo Ryan Murphy em «Glee». Menos sorte tem Donatella Versace (Penélope Cruz), que faz jus à sua fama de pessoa complicada.

 

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É difícil ficar indiferente ao homicídio de Versace. Seja pela sua dimensão no mundo da moda, seja pela sua presença social enquanto celebridade – à qual a minha geração escapou –, há um apelo forte à nossa veia voyeurista mal ouvimos o seu nome. Deste modo, há acontecimentos do episódio inicial que nos saciam um pouco a curiosidade, ainda que o namorado de então do estilista, Antonio D'Amico, vivido na série por Ricky Martin, já tenha dito que não terá sido bem assim. Não obstante, o ritmo composto até ao disparo fatal, datado de 15 de julho de 1997, é, na sua base, bem conseguido. O pior é depois.

 

Além dos constantes avanços e recuos temporais, que acontecem sobretudo, e numa fase inicial, para relacionar Cunanan e Versace, há também uma certa decadência narrativa que baixa abruptamente a intensidade do arranque. Como se o clímax fosse atingido ao fim dos primeiros cinco minutos e o resto fossem fait divers. É inegável, apesar de tudo, a atenção problematizada à temática da homossexualidade nos anos 90, uma altura bem mais conturbada do que os dias de hoje. Versace, polémico por natureza, assumiu publicamente que era gay e nem sempre é fácil separar o 'boneco', criado ao longo dos anos, do problema real e inegável do preconceito. A série tenta fazê-lo.

 

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Após «Feud», protagonizada por Jessica Lange e Susan Sarandon, a única envolvida ainda viva, Olivia de Havilland [atualmente com 101 anos], veio mostrar o seu desagrado com a suposta mentira por detrás da trama 'factual'. Desta feita, é a família Versace a mostrar-se desagradada com a segunda temporada, sendo que ainda não se sabe até onde Donatella e companhia estarão dispostos a ir. Até ao momento, a polémica apenas ajudou o marketing. E, quando «Feud» se centrar em Carlos e Diana, como vai reagir a Família Real Britânica? E o próprio público?

 

Por diversas vezes, Ryan Murphy, que está agora a caminho da Netflix na sequência de um negócio estratosférico, defendeu que não está a fazer documentários – está a (re)imaginar acontecimentos factuais. O que, trocado por miúdos, quer basicamente dizer que os nomes reais ajudam o marketing, mas esqueçam o rigor histórico. Confusos? É como as letras pequeninas dos contratos, passíveis de passarem despercebidas e capazes de resultar em chatices valentes. Se ninguém reparar, tanto melhor; é que se esta fosse a história de um qualquer Joaquim e não do Gianni, o hype seria bem diferente, certo?

 

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Inicialmente, a segunda temporada de «American Crime Story» deveria ser sobre o furacão Katrina, mas a agenda ocupada da anunciada protagonista Annette Bening complicou as contas. Como tal, fica a dúvida: terá a história de Versace sido apressada para cumprir os prazos expectáveis pela FX e restantes produtores? É, no mínimo, questionável tratar-se de uma série com uma só base: o livro escrito pela jornalista da Vanity Fair Maureen Orth, Vulgar Flavors, de 1999. Ou seja, algo que foi publicado menos de dois anos depois do crime e que tem quase 20 anos.

 

Aponta-se o caráter sensacionalista da obra, baseada supostamente em comentários de pessoas que não estiveram diretamente envolvidas no caso, e cuja veracidade é, consequentemente, questionada pela família Versace e não só. Como tal, muitos garantem que as 'verdades absolutas' de Orth, como o facto de Versace ter SIDA, não passam de falsos rumores. Não teria sido interessante confrontar aquilo que a autora defende, que mais não fosse para reforçar a tese de «O Assassinato de Versace»? Ao que tudo indica, os criadores da série nem tentaram... "Não é um documentário". Está bem então.

 

 

É Tudo Uma Porcaria!: Uma Série Sobre a Pior (Ou Melhor) Época das Nossas Vidas

A nova série da Netflix, cuja primeira temporada será lançada na totalidade no dia 16 de fevereiro, às 8 horas, tem como palco um liceu norte-americano nos anos 90. A METROPOLIS já iniciou este regresso ao passado; acompanha-nos nesta viagem?

 

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É inevitável enquadrar a estreia de «É Tudo Uma Porcaria!» [«Everything Sucks!» no original] entre as apostas de sucesso do serviço de streaming Netflix, na linha de «Stranger Things» e «Por 13 Razões». A série criada por Ben York Jones e Michael Mohan leva-nos de volta aos anos 90, mais concretamente a 1996, e pega num grupo de jovens 'caloiros' no liceuLuke (Jahi Di'Allo Winston), Tyler (Quinn Liebling) e McQuaid (Rio Mangini) –, que se prepara para enfrentar os obstáculos mais difíceis da adolescência: os miúdos populares. No entanto, não se deixem enganar por estereótipos ou ideias feitas.

 

Pulseiras que rodeavam o pulso após uma ‘pancada’, Trolls e uma sucessão de 'quantos-queres'. Ainda o primeiro episódio mal começou e já fomos transportados para outros tempos, que ecoam memórias não apenas dos adolescentes de 90, mas também dos anos seguintes. É que, apesar de «É Tudo Uma Porcaria!» ser uma série tipicamente americana, há muitas brincadeiras juvenis que nos remetem também para o passado português. Mas apertem bem os cintos, porque a viagem não acaba aqui: há a caraterização pelo vestuário, um clube audiovisual (como em «Stranger Things») e preconceitos sobre os quais mal se ousava falar.

 

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Ao mesmo tempo que é um passado recente que nos parece já muito distante, demonstra ainda como, em termos sociais, as pessoas não evoluíram tanto como se julga. Enquanto «Stranger Things» se situava na década de 80, e frisava recorrentemente essa realidade, a nova série da Netflix opta por fazer enquadramentos sobretudo visuais e de caraterização. Da mesma forma, organiza o ambiente com música, linguagem e referências espaciais e pormenorizadas a momentos ou tendências que marcaram aqueles que experienciavam a adolescência há 20 anos.

 

Ainda assim, e ao contrário da trama dos irmãos Duffer, tem o principal conflito na rotina escolar, a partir da qual aproveita para escalar para uma discussão muito maior. Não é apenas uma batalha entre geeks e alunos populares – embora por vezes até pareça. Nada é inocente e, tal como se suspeitava, esta não é uma série infantojuvenil: atravessa gerações e dirá muito, certamente, aos nascidos nos anos 80 – e não só. Por seu lado, o elenco jovem soma créditos de respeito. Peyton Kennedy fez 14 anos recentemente, e já conta com uma carreira de quase seis anos. Jahi começou mais tarde, em 2016, mas soma créditos em êxitos como «Feed The Beast».

 

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Este duo, no qual se centra parte da storyline, serve de exemplo para a qualidade que se pode encontrar em «É Tudo Uma Porcaria!», pelo que o melhor é não se deixarem enganar pela sua aparência franzina! É uma comédia, sim, mas é muito mais que isso: é uma discussão inevitável sobre as nossas memórias, as nossas experiências e, sobretudo, sobre a forma como a adolescência mexeu connosco e moldou a nossa personalidade. Afinal, para os mais jovens, tudo se vive com uma tal intensidade que todos os dias podem ser o fim do mundo...

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

 

 

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