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Globos de Ouro: As Previsões Mais Imprevisíveis em TV

Não, ainda não está tudo a pensar (só) nos Óscares. Os Globos de Ouro misturam categorias de cinema e televisão, e estão sempre abertos a surpresas no que diz respeito ao pequeno ecrã. Será que «The Handmaid's Tale» e «Big Little Lies», que saíram na linha da frente após os Emmys, vão confirmar a sua hegemonia em 2017? Ou, pelo contrário, vai ser noite de vingança para aqueles que saíram de mãos a abanar? Fiquem com a lista de nomeados  e (im)previsíveis vencedores  abaixo.

 

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Melhor Ator – Drama

  • Bob Odenkirk (Better Call Saul)
  • Freddie Highmore (The Good Doctor)
  • Jason Bateman (Ozark)
  • Liev Schreiber (Ray Donovan)
  • Sterling K. Brown (This is Us)

Quem vai ganhar: Sterling K. Brown

Possível surpresa: Freddie Highmore

Quem devia ganhar: Bob Odenkirk

 

Melhor Atriz – Drama

  • Caitriona Balfe (Outlander)
  • Claire Foy (The Crown)
  • Elisabeth Moss (The Handmaid's Tale)
  • Katherine Langford (13 Reasons Why)
  • Maggie Gyllenhaal (The Deuce)

Quem vai ganhar: Elisabeth Moss

Possível surpresa: Katherine Langford

Quem devia ganhar: Elisabeth Moss

 

Melhor Ator – Comédia ou Musical

  • Anthony Anderson (Black-ish)
  • Aziz Ansari (Master of None)
  • Eric McCormack (Will & Grace)
  • Kevin Bacon (I Love Dick)
  • William H. Macy (Shameless)

Quem vai ganhar: Eric McCormack

Possível surpresa: Kevin Bacon

Quem devia ganhar: Anthony Anderson

 

Melhor Atriz – Comédia ou Musical

  • Alison Brie (GLOW)
  • Frankie Shaw (SMILF)
  • Issa Rae (Insecure)
  • Pamela Adlon (Better Things)
  • Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

Quem vai ganhar: Rachel Brosnahan

Possível surpresa: Alison Brie

Quem devia ganhar: Rachel Brosnahan

 

Melhor Ator – Série Limitada ou TV Movie

  • Ewan McGregor (Fargo)
  • Geoffrey Rush (Genius)
  • Jude Law (The Young Pope)
  • Kyle MacLachlan (Twin Peaks)
  • Robert De Niro (The Wizard of Lies)

Quem vai ganhar: Ewan McGregor

Possível surpresa: Robert De Niro

Quem devia ganhar: Ewan McGregor

 

Melhor Atriz – Série Limitada ou TV Movie

  • Jessica Biel (The Sinner)
  • Jessica Lange (Feud)
  • Nicole Kidman (Big Little Lies)
  • Reese Witherspoon (Big Little Lies)
  • Susan Sarandon (Feud)

Quem vai ganhar: Nicole Kidman

Possível surpresa: Jessica Biel

Quem devia ganhar: Nicole Kidman

 

Melhor Ator Secundário – Série, Série Limitada ou TV Movie

  • Alexander Skarsgård (Big Little Lies)
  • Alfred Molina (Feud)
  • Christian Slater (Mr. Robot)
  • David Harbour (Stranger Things)
  • David Thewlis (Fargo)

Quem vai ganhar: Alexander Skarsgård

Possível surpresa: David Harbour

Quem devia ganhar: David Thewlis

 

Melhor Atriz Secundária – Série, Série Limitada ou TV Movie

  • Ann Dowd (The Handmaid's Tale)
  • Chrissy Metz (This is Us)
  • Laura Dern (Big Little Lies)
  • Michelle Pfeiffer (The Wizard of Lies)
  • Shailene Woodley (Big Little Lies)

Quem vai ganhar: Laura Dern

Possível surpresa: Chrissy Metz

Quem devia ganhar: Ann Dowd

 

Melhor Série – Drama

  • Game of Thrones
  • Stranger Things
  • The Crown
  • The Handmaid's Tale
  • This is Us

Quem vai ganhar: The Handmaid's Tale

Possível surpresa: The Crown/Game of Thrones

Quem devia ganhar: The Handmaid's Tale

 

Melhor Série – Musical ou Comédia

  • Black-ish
  • Master of None
  • SMILF
  • The Marvelous Mrs. Maisel
  • Will & Grace

Qual vai ganhar: The Marvelous Mrs. Maisel

Possível surpresa: Will & Grace

Qual devia ganhar: The Marvelous Mrs. Maisel

 

Melhor Série Limitada ou TV Movie

  • Big Little Lies
  • Fargo
  • Feud
  • Top of The Lake
  • The Sinner

Qual vai ganhar: Big Little Lies

Possível surpresa: Feud

Qual devia ganhar: Big Little Lies

 

A cerimónia será apresentada por Seth Meyers, que já admitiu, em entrevistas, que os escândalos sexuais noticiados ao longo dos últimos meses vão ser o 'elefante na sala'. Os Globos de Ouro são emitidos, em Portugal, pela SIC Caras a partir da meia-noite.

 

 

 

 

Especial Black Mirror S4: Black Museum (6 de 6)

Há algo de muito macabro em "Black Museum", o episódio que fecha a quarta temporada de «Black Mirror» e que une pontas que nem sequer tínhamos dado conta que estavam soltas. Tal como acontece em "White Christmas", o episódio vive da dependência saudável de micro-histórias que, qual truque de magia revelado depois de nos ter enganado, se desmancham como ilusões de um mesmo puzzle. Enquanto a generalidade dos fãs desespera por novidades, e se queixa da reciclagem tecnológica das 'novas' narrativas, Charlie Brooker deixa bem vincado que ainda não fechou as 'velhas'. Calma, o jogo não muda - está só (ainda) mais complexo.

 

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A ligação de «Black Mirror» com o mundo do crime, e sobretudo com a crueldade humana, é perigosamente próxima. Ao longo de quatro temporadas, fomos convidados e testemunhas de crimes brutais e atitudes reveladoras do pior que o ser humano tem para oferecer, mas, em "Black Museum", essa atitude voyeurista é tomada como literal e inerente ao argumento. E até a organização da narrativa é cruel: seguimos à mercê das personagens e das suas decisões, nomeadamente de discurso, que nos levam aqui e ali, consoante lhes apetece - ou são levadas no jogo de perguntas e respostas.

 

Mais do que uma visita guiada a um museu de artefactos relacionados com tortura, morte e sofrimento, "Black Museum" é um passeio pela nossa mente e pela forma como, manipulados pela ficção, reagimos às novas informações que vão surgindo no ecrã. Mas também as personagens são manipuladas pelo argumentista e realizador, certo? Já parece Inception, ainda que a premissa seja bem menos complexa (à partida): Nish (Latita Wright) deixa o carro a recarregar e, com cerca de três horas para gastar, acaba por dirigir-se a um grande armazém nas imediações, denominado "Rolo Haynes' Black Museum". Ali, tal como o nome poderia levar a suspeitar, encontra-se muito do passado de «Black Mirror».

 

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 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio Black Museum)

 

Criticado por uns e elogiado por outros, "Black Museum" concentra em si tópicos que ilustram a grande discussão que se tem gerado em torno da quarta temporada de «Black Mirror». Por um lado, dá consistência às diferentes narrativas que se têm multiplicado na série da Netflix, frisando que não se tratam de abordagens soltas da tecnologia e da humanidade, mas antes de vários acontecimento presentes no mesmo mundo (em tempos diferentes). O facto de "Black Museum" ter tantos artefactos presentes em episódios do passado da série - que vamos enumerar no final - estabelece-o como um dos episódios mais distantes no futuro, já que engloba objetos de outros e os coloca no seu passado. Por outro lado, repete várias tecnologias já utilizadas e até o próprio desenvolvimento e conclusão da narrativa se baseiam numa fórmula bem conhecida.

 

Tudo começa com a ida de Nish (Latita Wright) ao "Rolo Haynes' Black Museum". Com uma aparência de espaço abandonado, somos levados rumo ao desconhecido com Nish (ou por Nish), movida aparentemente pelo mesmo que nós: curiosidade. O dono do espaço, Rolo Haynes (Douglas Hodge), assume uma estranha postura de superioridade, que destoa perante aquele museu que claramente fracassou. Desde que atravessamos a porta que parecemos embarcar num "Regresso ao Futuro" bem sangrento: o "Black Museum" está repleto de rostos e objetos que conhecemos bem demais, e que parecem agora elevados ao estatuto de obra-prima ou de interesse particular.

 

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Pela primeira vez, a maldade proveniente da tecnologia, e que a promove, tem um rosto. Se até aqui sempre a víamos como algo disforme, sem responsabilidade direta mas sim um instrumento das atitudes humanas, em "Black Museum" parte da culpa recai diretamente sobre Rolo. Assim como vimos em "White Christmas", a personagem vai contando momentos do seu passado que, apesar da naturalidade e frieza com que os recria, o pintam como o vilão da sua própria história. Com o entusiasmo típico de quem gosta de História, por mais obscura que possa ser, somos confrontados pela likeability do personagem e, ao mesmo tempo, pela violência dos seus atos. E percebemos como a sua faceta extrovertida o ajudou a ser bem-sucedido no passado.

 

Primeiro com uma incursão narrativa inspirada por Pain Addict, de Penn Jillette, e depois com uma transferência da consciência humana para objetos inanimados, "Black Museum" levanta questões éticas muito importantes. Já sabemos que é frequente ver a individualidade ser 'engolida' pelo coletivo, mas aqui a discussão prende-se sobretudo com a incapacidade de escolha de quem não tem controlo sobre a tecnologia: os doentes que passam as suas sensações físicas a Dawson (Daniel Lapaine) e Carrie (Alexandra Roach), a mulher de Jack (Aldis Hodge), que cede a sua autonomia na ilusão de que a pode ganhar e fintar a morte. Com a promessa de que a tecnologia vai beneficiar o indivíduo, ele acaba, em vez disso, por ser anulado por ela - atribuindo poder aos outros; mais uma vez, a vilania está no ser humano e, especificamente, em Rolo.

 

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Há dois desconfortos simultâneos em tela que fortalecem o do espectador: Rolo dá por si a suar imenso, com um discurso cada vez mais atabalhoado, e Nish parece cada vez mais incomodada com aquilo que ouve. A relação, outrora meramente de circunstância e que evoluiu com o desenvolvimento da ação, vai ganhando os contornos de uma vingança anunciada: que se confirma quando chegamos à última porta. A atração principal do museu é a memória virtual de um condenado à morte, que vendeu a Rolo a sua cópia remanescente, com a promessa de que este iria ajudar a respeitva família. Apesar de digital, Clayton (Babs Olusanmokun) sente como um humano e está totalmente destruído depois de várias passagens pela cadeira elétrica. Por um preço, e antes de o espaço cair em desgraça, qualquer visitante o podia 'matar'. Seria, afinal, inocente? Ninguém quer realmente saber. A não ser a filha, Nish, e a mãe (Amanda Warren), que está instalada na sua cabeça e vê através dos seus olhos, tal como Carrie.

 

A tecnologia recebe o castigo possível, mas, assim como acontecia em "White Bear", as atitudes reprováveis de Rolo Haynes recebem um castigo, no mínimo, questionável. Qual o limite? O crime é justificado se for o resultado de um outro? Podemos falar em corrupção tecnológica? As perguntas não param em «Black Mirror», mas desta vez temos algumas respostas. Apesar de "Black Museum" ressoar memórias antigas da própria série, a verdade é que o argumento não pode ser resumido, tal como o museu, aos artefactos que possui: é muito mais complexo. Como tudo em «Black Mirror».

 

Easter eggs presentes em "Black Museum":

 

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- Mal entramos no espaço, vemos um rosto familiar num dos ecrãs, Victoria Skillane (Lenora Crichlow), de "White Bear". As headlines ao lado, "Double Suicide" e "Cloning without Consent", correspondem, respetivamente, à primeira história de "White Christmas" e a "USS Callister".

- Aparece uma abelha robótica do episódio "Hated in the Nation".

- O tablet destruído em "Arkangel", depois de Sara (Brenna Harding) atacar violentamente a mãe (Rosemarie DeWitt) com ele.

- A banheira de "Crocodile", onde Anan (Anthony Welsh) se encontrava quando foi assassinado por Mia (Andrea Riseborough).

- Em pano de fundo, surge um homem/boneco enforcado, numa referência a Carlton Bloom, que se suicidou no episódio piloto "The National Anthem", após ter raptado e libertado a princesa.

- A máscara usada por quem perseguia Victoria em "White Bear", bem como o casaco vermelho e a arma.

- O chupa-chupa do filho de Walton (Jimmi Simpson), de "USS Callister", que Robert Daly (Jesse Plemons) usa para o clonar e colocar na sua "Space Fleet".

- Noutro local, também na parte detrás, podem ver-se os 'ovos' que continham cookies em "White Christmas".

- Rolo Haynes trabalhou no Hospital St. Juniper's, onde decorre a ação da sua primeira história. Uma referência clara ao episódio "San Junipero", que volta a ser recordado com a menção das pessoas importadas para a cloud. Também nessa história, os ratos testados chamam-se Kenny e Hector, como as personagens de "Shut Up and Dance".

- Jack surge a ler uma comic chamada "15 Million Merits", tal como o segundo episódio de «Black Mirror». O seu interior ilustra um dos momentos do episódio.

 

 

Especial Black Mirror S4: Crocodile (5 de 6)

Embora seja um dos episódios menos memoráveis da quarta temporada de «Black Mirror», "Crocodile" contém um dos easter eggs mais épicos da história da série, apenas ao alcance dos espectadores mais curiosos. Desenhado com os traços de um drama humano e gélido, a tecnologia parece habitar a ação apenas superficialmente... antes de a absorver por completo, claro. Este é mais um passo em frente para a coexistência de todos os episódios de «Black Mirror» no mesmo universo, mas um passo atrás na exigência a que Charlie Brooker nos habituou.

 

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"'Of course the real question is why anyone would pause what they're watching just to read a sentence in a printed out newspaper article', says a voice in your head – before advising you to go and share this finding on Reddit". Parece anedota, mas é isto que se lê num pedaço de jornal que passa, de forma rápida, pelo nosso ecrã. Desengane-se quem acha que «Black Mirror» é meramente um conjunto de filmes independentes, e também quem acredita que nada temos a ver, enquanto espectadores, com esse universo. A série nunca foi sobre os outros, mas sobre nós. Afinal, que rosto vemos quando desligamos os aparelhos eletrónicos, como o computador ou o telemóvel, e confrontamos o seu fundo escuro? Este 'espelho negro' não perdoa, só que os fãs de «Black Mirror» também não. Mas já lá vamos.

 

Quando no seu habitat, os crocodilos são animais vorazes e rápidos: atuam muitas vezes às 'escondidas' e, sem dó nem piedade, são capazes de engolir o que os rodeia. Por seu lado, se pensarmos na sua simbologia, representam a inevitabilidade de a noite se seguir ao dia, num ciclo contínuo onde não somos mais do que espectadores impotentes. Já na mitologia, como é o caso da egípcia, o crocodilo está relacionado com a morte e as trevas. Sim, já sabemos, em «Black Mirror» nada acontece por acaso. E este drama, menos tecnológico do que o habitual, mas 'vítima' desse universo na mesma, é uma lembrança (literalmente) fria disso mesmo: na natureza selvagem, é cada crocodilo por si - e quem decide ser 'peixe' não se safa.

 

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 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio Crocodile)

 

O conceito de "Crocodile" é um dos mais perturbadores de «Black Mirror» até à data, mas tarda a evoluir para além disso. Na sequência de um homicídio acidental, o então casal Mia (Andrea Riseborough) e Rob (Andrew Gower) esconde o corpo para não sofrer as consequências do deslize. Embora Mia não concorde totalmente com a decisão, Rob mostra-se irredutível e a jovem pouco mais consegue fazer a não ser ajudá-lo a mascarar o crime. Como seria de esperar, os dois seguem caminhos diferentes e de jovens passam a adultos, com outra maturidade e responsabilidade.Também as paisagens gélidas da Escandinávia são trocadas pela vida citadina de Mia, agora uma profissional bem-sucedida e mãe de família. Tudo parece ter acabado bem para ela, mas a verdade é que a vida, por mais tranquila que possa parecer, tem sempre um twist pronto a acontecer: Rob regressa, arrependido do passado e com vontade de se redimir para com a família do homem que atropelou.

 

No entanto, Mia tornou-se um crocodilo. Deixou de ser uma jovem irresponsável para aceitar as exigências da vida adulta e, assim que se sente ameaçada, atua como qualquer animal em perigo - defende-se. Mas o crocodilo não é apenas ferocidade, é também equilíbrio e, acima de tudo, a inevitabilidade de cumprir um ciclo, mesmo que este seja feito de acasos. Na mesma noite em que Mia mata Rob, um pedestre é atropelado por uma carrinha que transporta pizzas sem condutor - da Fences Pizza, a mesma de "USS Callister" - e a investigadora Shazia (Kiran Sonia Sawar) está determinada a apontar responsabilidades. Para tal, vai somando testemunhos e recorre à sua tecnologia, muito parecida com aquela que encontramos em "The Entire History of You", da primeira temporada, e não só. Ela acede às memórias das pessoas e, numa espécie de hipnose 2.0, que incentiva o ambiente em que os indivíduos se encontravam, consegue observar as ocorrências. E é isto que estraga tudo.

 

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Perturbada com os crimes que amealhou, Mia não é capaz de evitar pensar na culpa que a atormenta - sobretudo no medo estrondoso de ser apanhada, pelo que, incapaz de assumir o controlo, mostra o seu passado, antigo e recente, a Shazia. É uma necessidade de sobrevivência que, tal como acontece na selva, coloca os mais frágeis à mercê dos mais fortes. Mia não sente prazer naquilo que faz, mas antes uma obrigação de assegurar que nada do que ganhou ao longo da vida vai ser destruído. E é aí que entra a ironia, sempre ela: não é a tecnologia de Shazia que a trama, mas antes a capacidade de extrair memórias também dos animais. Depois de assassinar a mulher, Mia segue no seu carro para casa dela, a fim de eliminar a única ponta solta: o marido dela. Ninguém escapa à fúria instintiva de Mia, nem mesmo o pequeno filho de Shazia e Anan (Anthony Welsh)... que era cego de nascença, e não poderia testemunhar a morte do pai. Já o hamster da família, no quarto do miúdo, acaba por ser a derradeira prova a pôr fim à série de homicídios de Mia.

 

"Crocodile" tem muitos aspetos positivos, dos atores (especialmente Andrea Riseborough)  às paisagens, passando ainda pelo cuidado com o ritmo da narrativa - que facilmente se tornaria aborrecido. O problema é que este não é um episódio livre de expetativas: está incluído em «Black Mirror», e isso traz bastantes exigências. A qualidade de "Crocodile" fica aquém de outros episódios que abordaram temas próximos, sendo incapaz de se afirmar como uma incursão narrativa relevante por conta própria. A ironia da tecnologia, e da própria sucessão de acontecimentos, é uma expressão cruel da realidade - seja em tela ou no dia a dia -, mas a parte perde-se assim que começamos a analisar o todo. Falta força ao episódio, não só por destoar em termos de tecnologia, mas também no próprio drama das personagens. Este chegou a ser anunciado como o primeiro da quarta temporada, mas caiu para terceiro e será facilmente esquecível.

 

 

Nota: Um dos filmes porno disponíveis no catálogo do hotel onde Mia se instala é "Best of Wraith Babes", uma referência ao programa no qual Abi (Jessica Brown Findlay) participa em "Fifteen Million Merits" (segundo episódio da primeira temporada.

 

 

 

 

Especial Black Mirror S4: Hang the DJ (4 de 6)

Por Sofia

 

Num mundo em que as redes sociais se tornam fáceis substitutos ao café entre amigos e o facetime estreita relações, em que o íntimo passa a público e todos sabemos onde foi o réveillon do João, em que esperamos que um simples swipe, baseado numa biografia de 200 caracteres e num bom Photoshop, se converta numa relação com significado, não é difícil perceber como a tecnologia influencia as nossas relações.

 

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Em "Hang the DJ", Black Mirror atira a matar para o Tinder e apps de dating, e faz surgir um sistema que está para os relacionamentos modernos como a fada madrinha está para a Cinderela. Com uma taxa de sucesso de 99,8% promete-nos o príncipe encantado, o match perfeito que durará uma vida. E numa história de boy meets girl torcemos uma vez mais para que o destino, ou melhor, o sistema, não troque as voltas aos protagonistas.

 

 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio Hang the DJ)

 

Frank e Amy foram "emparelhados" pela derradeira dating app, "the coach" ou simplesmente "the system", uma tecnologia ditatorial que gere todos os relacionamentos amorosos na sua realidade distópica. No entanto, o mesmo device que os juntou dita que o seu tempo juntos será efémero, destinando-os a novos relacionamentos logo de seguida. Os dois jovens vão-se desgastando numa sucessão de relações pré-datadas, fruto de um algoritmo ininteligível. Cada experiência dissimulada como uma recolha de dados para o sistema, o mesmo sistema que lhes repete continuamente que tudo acontece por uma razão. Nenhum dos dois parece encontrar uma conexão como a que conseguiram entre ambos, e quando a segunda oportunidade de se reverem surge, tentam evitar o inevitável – a data de validade deste novo encontro.

 

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Contrariamente aos que os rodeiam, quase autómatos num sistema orwelliano (como ilustra a cena da discussão nas escadas rolantes), Amy e Frank questionam o sistema. E se houver uma escolha para lá da que lhes é imposta? O final (que não revelo) é aparentemente o melhor que Charlie Brooker consegue fazer no espectro dos finais felizes.

 

"Hang the DJ" é certamente Black Mirror-ish, mas traz o toque adocicado do bem-amado "San Junipero", sem descurar uma boa reflexão sobre os relacionamentos atuais, tão importante quanto a de "Nosedive". Há química suficiente entre Georgina Campbell e Joe Cole, os dois atores principais, para por momentos nos fazerem esquecer que este não é o mundo da tecnologia perversa a que a série Neflix já nos habituou. Mas desengane-se quem pensa que a quarta temporada perde o folgo neste (também) ternurento quarto episódio: está lá o twist final que nos vai ficar na cabeça.

 

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Num mundo de rápido consumo, o romantismo e o charme dissolvem-se na ideia de entregar o controlo desta difícil tarefa que são os relacionamentos interpessoais a um pequeno disco branco, ou quiçá a uma simples aplicação. Um escape fácil a todo o género de situações desconfortáveis, a segurança de que temos 99,8% de hipóteses de acertar com a nossa cara-metade. Mas o que dificilmente nos apercebemos sem o distanciamento necessário, é o que se perde por entre os algoritmos decisores que processam os dados com que continuamente os alimentamos.

 

Morrissey cantava: "Burn down the disco/ Hang the blessed DJ/ Because the music that they constantly play / It says nothing to me about my life". No entanto, somos nós que continuamos a pôr play no facilitismo das apps que transformam as relações modernas. Que culpa tem o DJ se apenas toca o que o público pede?

 

 

Especial Black Mirror S4: Metalhead (3 de 6)

Por Filipa

 

Este é dedicado a todos aqueles entre nós que, bem lá no fundo, mas mesmo no fundo, desejam que chegue o fim do mundo. Os que anseiam pelo dia em que iremos andar com mochilas às costas, de canivete na mão, com as últimas roupas compradas na secção de campismo de uma grande superfície qualquer. Para todos os que olham para o carro enquanto vão para o trabalho de manhã e se perguntam "Como é que isto se comportava se estivesse a ser perseguido por [inserir praga/animal/criatura sobrenatural favorita]?". Mesmo sabendo que iremos morrer nos primeiros dias - ainda o stock do Pingo Doce não esgotou e já comemos uma baga venenosa qualquer no pinhal mais próximo -, queremos que esse dia chegue. Não queremos saber se é porque afinal o juízo final da Bíblia existe, se são aliens, se é um vírus, se é o aquecimento global, se as máquinas se revoltaram ou se os EUA finalmente estragaram tudo. E ainda bem que não queremos, porque Metalhead não nos dá nenhum motivo para o que iremos encontrar ao longo de 40 minutos.

 

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40 minutos. Que bom. A preto e branco, que cá o fim do mundo não vai ser transmitido a cores. Rápido, sem grandes falas e conciso. Sem explicações. 40 minutos de sobrevivência pura. 40 minutos para alguém encontrar algo num armazém, que será precioso para outro alguém mas que é interrompido por um cão robot – a tecnologia de ponta, o único elemento neste mundo pós-apocalíptico que nos mostra que, apesar de ainda existirem árvores e a paisagem como a conhecemos, algo correu mal. O cão que consegue ligar-se a qualquer sistema electrónico, que detecta movimento humano e cujo único objectivo é localizar e exterminar os mesmos. Para quem? Não sabemos. Há imagens de drone e apenas isso.

 

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Não precisei de ver todos os outros desta temporada de Black Mirror para perceber que este não será o melhor ou dos melhores. Dos preferidos, vá. Nada de novo aqui. Mas gosto da maneira despretensiosa como é filmado, da performance da actriz (Maxine Peake), de como tudo está conjugado. Seria de esperar que a ausência de cor e falas tornasse tudo chato mas os silêncios são facilmente preenchidos por tudo o resto que está no ecrã.

 

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É um pós-Apocalipse viável. Não há cá roupas da colecção Fim do Mundo da Zara, os carros não estão equipados para a guerra – não há nada de glamouroso numa Skoda Octavia -, não existem heróis, apenas existe o ser humano. Metalhead vai além da questão da sobrevivência, aqui já está mais do que instalada como um traço humano e não como algo que se aprende. Metalhead é sobre o que somos capazes de fazer para manter uma réstia de humanidade.

 

 

 

Especial Black Mirror S4: USS Callister (2 de 6)

Viagem 2 em 1: venham pela ficção científica, fiquem pela história de terror. Há décadas que «Star Trek» e outras franquias passeiam Galáxia fora, mas a USS Callister percorre locais nunca antes explorados. O que não é necessariamente bom. Naquele que é o episódio mais tecnológico da quarta temporada de «Black Mirror», com um twist logo no arranque que nos troca as voltas, Charlie Brooker mostra-nos um dos recantos mais assombrosos do Universo: a nossa imaginação. Embarcam nesta aventura?

 

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 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio USS Callister)

 

O primeiro episódio da quarta temporada de «Black Mirror» mistura duas coisas que o geek comum adora: «Star Trek» e "San Junipero" - da terceira temporada e premiado com o Emmy em setembro -, que é como quem diz naves, aventuras, planetas desconhecidos e pessoas importadas para a cloud. Embora muitos tenham imaginado a sua própria aventura interespacial, ninguém foi tão longe como Robert Daly (Jesse Plemons), o génio por detrás do sucesso da empresa co-detida com o arrogante Walton (Jimmi Simpson). Daly é, aparentemente, a vítima de mais uma incursão tecnológica da série criada por Charlie Brooker que, como é seu apanágio, volta a vilanizar o ser humano. Mas não se deixem levar pelas aparências.

 

Um dos truques mais 'maldosos' da ficção não está relacionado com qualquer efeito visual, mas antes com a manipulação da empatia do espectador e, por conseguinte, das suas expetativas. Para quem está à espera de uma homenagem a «Star Trek», a ideia inicial não sai gorada: Robert Daly e companhia são colocados numa nave em plena aventura espacial, e até a opção de fotografia/edição de imagem acende as nossas memórias das séries e filmes (mais antigos) do género. No entanto, apertem bem os cintos: Charlie Brooker e William Bridges - que já tinham feito dupla em "Shut Up and Dance" - vão levar-nos ainda mais longe.

 

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Robert Daly é o herói anunciado que se transforma em vilão numa questão de minutos. Depois da sua aventura bem-sucedida no Espaço, o protagonista volta a misturar-se com os comuns mortais e, estranhamente, encontramos os comparsas da nave USS Callister no seu local de trabalho. Embora Daly seja tratado marcadamente com desprezo, até pelo próprio Walton, com quem criou o software Infinity, a verdade é que o puzzle se vai desconstruindo à nossa frente e as peças deixam de encaixar, uma após a outra. Além disso, apesar de o capitão Daly ecoar os contornos de um sonho, os elementos comuns ao Infinity deixam-nos imediatamente desconfiados - afinal, estamos em «Black Mirror», e aqui não há acasos.

 

Mas Charlie Brooker e William Bridges não estão aqui para nos facilitar a vida. À medida que o mistério se adensa e as primeiras teorias se desenham na nossa mente, entra em jogo a doce Nanette Cole (Cristin Milioti). Ironicamente, Nanette surge como o mais que provável interesse amoroso de Daly mas, numa sucessão de ações, serve em vez disso para desmanchar qualquer benesse que pudéssemos atribuir ao protagonista. Se antes podíamos considerar que Daly tinha criado um universo virtual para fazer justiça à realidade - e até podíamos dar-lhe algum crédito para isso, já que os diversos elementos da tripulação o tratavam, num momento ou outro, com indiferença ou desprestígio -, Nanette anula tudo isso. Não há na personagem qualquer atitude negativa para com Daly, muito pelo contrário e, mesmo assim (ou também por isso), ele leva-a para a USS Callister.

 

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Marginalizado no mundo real, Daly prendeu-se desde cedo ao imaginário da «Space Fleet», como qualquer geek faz com «Star Trek», «Star Wars»... ou até «Black Mirror», certo? Na vida adulta levou isso para um nível estratosférico: a partir do ADN de uma pessoa, era capaz de criar uma cópia digital na cloud - com personalidade, conhecimentos e físico equivalente ao do presente (menos os órgãos sexuais, o que veicula a proibição de qualquer tipo de prazer). Assim, enquanto Walton, Nanette, Shania (Michaela Coel) ou Nate (Osy Ikhile) seguiam com as suas vidas, uma versão consciente mas desconhecida para eles sofria em silêncio na cloud. E se na abertura do episódio as personagens aparentaram o bem-estar possível, a verdade é que todos estão lá obrigados e infelizes, sem qualquer hipótese de escape ou morte.

 

A desumanização que habita a quarta temporada de «Black Mirror», e não só, assume aqui um contexto literal: por um lado, Daly desumaniza os colegas e, por outro, a narrativa desumaniza o único humano a transportar-se para a USS Callister. O terror instalado na sua nave é impossível de combater, até porque Daly é o único, supostamente, a ter acesso ao exterior. Se no arranque é fácil criar alguma empatia com ele, ou ter pena, com a continuação da ação torna-se cada vez mais difícil defender aquilo que o protagonista faz. A certa altura, a própria narrativa desiste de o fazer. O que não deixa de ser irónico, uma vez que acabamos a torcer por figuras que, na sua essência, não são reais. Só que o facto de mostrarem mais humanidade do que a personagem humana, troca as voltas de uma paródia/homenagem que parecia transparente à partida.

 

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Se fosse óbvio, não era «Black Mirror». Ainda que "USS Callister" desmanche o seu twist numa sucessão rápida de acontecimentos, é o episódio da quarta temporada, a par de "Hang the DJ", que mais coincide com a ideia firmada de que «Black Mirror» tem de começar ou acabar com um BANG. Além de ser aquele que está mais apoiado na vertente tecnológica, mesmo sem a justificar completamente - transformar automaticamente um pedaço de ADN num clone (físico, psicológico e emocional) do ser humano parece algo rebuscado. No entanto, apesar de falhas e questões resolvidas apenas superficialmente, há em "USS Callister" uma importante componente humana, que desmistifica a ideia socialmente estabelecida de pessoas boas e más. Atendendo à dupla versão de cada uma das personagens, encontramos diferentes variações em cada uma delas, devidamente contextualizada e explorada (pelo menos na cloud).

 

«Star Trek» até pode significar a procura de um mundo melhor, mas não há nada disso nesta «Space Fleet». Ou em «Black Mirror». O futuro é algo assombroso, de forma persistente, mas os seus contornos de malvadez assentam no ser humano, ou na sensação de poder que este almeja com os avanços da tecnologia. Embora os finais felizes sejam possíveis, muitas vezes eles são anulados como consequência da ação humana: caso Daly não tivesse criado um Infinity demasiado literal, talvez pudesse ser feliz com Nanette, ou com outras pessoas que se cruzassem no seu caminho. Em «Black Mirror», como na vida, as contas finais fazem-se a partir da soma das nossas escolhas.

 

Nota: Para os mais distraídos, cameos de Kirsten Dunst, noiva do protagonista Jesse Plemons, que a meio do episódio surge no local de trabalho dele, e de Aaron Paul, que dá voz ao jogador da cena final.

 

 

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