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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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The Gifted: É um Arroz de Marisco Sem Sal Para a Mesa 5

A vida de seriólico tem a sua dose de risco: séries canceladas, desilusões agudas e tempo perdido são alguns dos perigos já identificados. No meio das certezas, há uma cada vez mais inquestionável. Rentrée que é rentrée tem de ter, pelo menos, cinco estreias diretamente relacionadas com a Marvel e a DC. Depois de «Legion», eis que chega a segunda incursão no universo dos X-Men... sem X-Men. O que basicamente equivale a cozinhar sem sal: pode fazer-se? Pode, mas não vai ter o mesmo sabor.

 

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Desde 2008 que a Marvel, nomeadamente graças ao Marvel Cinematic Universe (MCU), tem criado uma linha narrativa consistente que, em paralelo, tem contribuído para um hype completamente incontrolável; e uma replicação cíclica de séries e filmes dentro do género. Embora tenha apostado no fenómeno televisivo depois da DC Comics, a verdade é que a Marvel depressa acelerou e tem sido praticamente impossível acompanhar o ritmo de lançamento de conteúdos novos. Muitos, aliás, somam ainda o ingrediente extra de estarem ligados, narrativamente, à principal saga da franquia, os Vingadores. À margem, todavia, continuavam os mutantes.

 

Já no corrente ano de 2017, Noah Hawley, que tem brilhando ao leme de «Fargo», arregaçou as mangas e criou uma série teoricamente utópica: «Legion». Sem vícios ou personagens reconhecidas dos X-Men, conquistou o público com uma aposta visualmente brilhante e esteticamente arriscada. O seu sucesso, ainda assim, está longe de ser um bom (ou mau) augúrio para «The Gifted», que estreou no passado dia 3 na FOX Portugal. Demasiado específica dentro do universo latente dos X-Men, com o qual partilha o conceito mas não as personagens mais populares, «Legion» é, efetivamente, um produto feito à medida dos fãs de Hawley - que não são, necessariamente, fãs de mutantes. E, além disso, o estilo peculiar do criador pode não agradar aos seguidores fiéis das comics e dos filmes.

 

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«The Gifted» é uma série de que não precisávamos - pelo menos da forma como nos é apresentada. 'Vendida' como mais uma incursão (falaciosa) no mundo X-Men, a série criada por Matt Nix não coabita sequer, à partida, com o mítico grupo. Ele surge como background, mais por hábito do que por necessidade da ficção, com a narrativa a ser moldada em torno de uma contemporaneidade onde eles desapareceram. Como tal, há em seu lugar uma espécie de Liga de Honra, com pouco brilho e interesse. Salva-se o elenco genericamente promissor, no qual se destacam os 'mutantes' Sean Teale, recém-saído da cancelada «Incorporated», e Jamie Chung, desaproveitada como Mulan em «Era Uma Vez». Não se salva é a fraca campanha de marketing, que se esfuma com a mesma velocidade com que Stephen Moyer se funde com a sua personagem mais conhecida, o Bill Compton de «Sangue Fresco».

 

Tudo em Reed, o bastião da família Stucker, lembra o vampiro por quem se apaixonou Sookie em «Sangue Fresco» - na vida real, Moyer e Anna Paquin acabaram, curiosamente, por casar-se. Desde o primeiro momento que Stephen Moyer surge no pequeno ecrã que serve de reminiscência - a cada passo, esgar ou até tom frásico - ao seu passado ficcional. É desafiante descolar as duas personagens, pelo que, a certa altura, se agradece o facto de ele não aparecer tanto quanto se esperaria de um protagonista. Poupa-nos a confusão e lá nos concentramos na trama novamente. Por sua vez, Amy Acker tem a ajuda da mudança de visual - face a «Sob Suspeita» -, mas é também ela castigada por uma série que, de natureza sombria, não almeja qualquer raio de luz. E nem os momentos de ação disfarçam o excesso e desequílibro de «The Gifted».

 

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A premissa de «The Gifted» não tem, para já, nada de especial. Ao mudar-se os envolvidos, temos uma das fórmulas base (e reclicláveis) da ficção: a vida de um dos 'heróis' muda irremediavelmente por ação de alguém próximo, forçando uma mudança. Em «Dexter», Debra Morgan (Jennifer Carpenter) andava atrás de um assassino em série que, afinal, era o próprio irmão Dexter (Michael C. Hall). Em séries como «Diários do Vampiro» ou «Arrow», as dinâmicas familiares servem constantemente de combustível à narrativa, enquanto em «Como Defender um Assassino» a teia de segredos faz o núcleo central funcionar da mesma forma. Não há, portanto, nada de bombástico no facto do procurador Reed Strucker, um pilar fundamental no combate anti-mutante, mudar radicalmente quando os próprios filhos revelam as suas capacidades sobrenaturais.

 

A velocidade com que tudo acontece no primeiro episódio, para colocar a narrativa de «The Gifted» onde os produtores querem, torna-se cansativa e prejudica não apenas o interesse do espectador, como também a consolidação individual das personagens. Vamos assimilando todas as informações a uma velocidade estonteante, ao mesmo tempo que estas pecam pela carência de profundidade e, quase à martelada, só abranda num cliffhanger que é consequência de uma série de acasos nada convincentes. Ou aquele grupo tem muito azar - o que, a julgar pelo ritmo com que isso acontece nos primeiros 43 minutos, deve, felizmente, ser impossível de manter até ao fim - ou é só falta de jeito. Matt Nix quer provar que não é criador de um one hit wonder só - apenas a sua «Espião Fora de Jogo» teve mais do que uma temporada -, ainda que o histórico não o favoreça. Mas, pelo menos, já deu para Stan Lee somar mais um cameo e tem o 'descanso' de não ser a pior série da Marvel da temporada - aí Inhumans não deverá ter concorrência.