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The Crown: o Regresso Feliz a um Mundo Não Tão Feliz

Só há uma Família Real capaz de ofuscar o mediatismo em torno da britânica e do casamento do Príncipe Harry com a atriz Meghan Markle: a britânica… que habita o pequeno ecrã em «The Crown». A METROPOLIS teve acesso antecipado à segunda temporada que estreia sexta-feira, 8, e diz-lhe o que pode esperar.

 

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Há, em «The Crown», uma pergunta que constantemente se impõe acima de todas as outras: onde mora o amor? Ao contrário de outros monarcas, Isabel II não nasceu com a responsabilidade de, um dia, usar a coroa: o seu pai, George, era o segundo na linha de sucessão ao trono, atrás do irmão David. No entanto, ao abdicar do trono por amor, o tio colocou-a imediatamente como a sucessora do pai, à frente de Margaret – tinha somente 10 anos. Aos 25, Isabel seria coroada rainha, lugar que ocupa ainda hoje, 65 anos depois. Com os olhares constantemente sobre si, a Rainha evitou rumores e escândalos, desafiou costumes, cruzou barreiras e, acima de tudo, entregou o coração aos deveres da Coroa. É também de amor que se fala quando pensamos nas histórias da irmã e Princesa Margaret, do tio David e, mais recentemente e ainda fora da tela de «The Crown», do seu filho Charles e netos William e Harry.

 

Separados por décadas, o Príncipe Harry e a sua tia-avó Princesa Margaret partilham o amor por alguém divorciado que, no caso da segunda, não teve um final feliz. Também David decidiu abdicar dos seus direitos à Coroa para casar com Wallis Simpson. Chega a ser irónico que, depois da conclusão destroçante da primeira temporada de «The Crown», com a separação da Princesa Margaret (Vanessa Kirby) e Peter Townsend (Ben Miles), tenha sido anunciado recentemente o casamento do Príncipe Harry com a atriz Meghan Markle, também já divorciada. Contudo, o desfecho promete ser mais risonho do que em 1955, altura em que Margaret e Peter seguiram caminhos opostos. Ainda assim, e afinando aquilo que foi veiculado pela série da Netflix, uma carta revelada mais tarde aponta a responsabilidade diretamente para a Princesa, que terá hesitado e declarado isso mesmo numa carta ao então primeiro-ministro, Anthony Eden. Tal aliviaria as culpas da Rainha, do Governo e da Igreja.

 

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Embora o feito alcançado por «The Crown» não seja único, é inevitável destacar a coerência apresentada pela série mais cara da Netflix ao longo da segunda temporada. Além do lado público da Família Real, «The Crown» explora o lado privado, nomeadamente a evolução de Isabel II (Claire Foy) enquanto Rainha na viragem da primeira década de reinado. Mais do que uma biografia ou uma recuperação dramática, há uma preocupação forte com a humanidade das diferentes personagens, ainda que o cerne da ação (e da complexidade) recaia sobre Isabel II. A nova incursão na história da Rainha funciona como uma espécie de puzzle que se vai construindo ao longo do tempo, onde o Governo não tem o mesmo protagonismo que teve em 2016 com Winston Churchill (John Lithgow), mas continua a assumir um papel determinante na influência na Coroa. Quer isto dizer, ainda, que Isabel II é, como dita o tempo, uma figura mais adulta, mais proativa e, sobretudo, mais presente na vida dos que a rodeiam. O que também se aplica à relação com o povo britânico e o uso dos novos media.

 

Mas, como já assinalámos, esta não é apenas uma viagem histórica, mas também emocional. E, nesse sentido, «The Crown» tem desafiado o entendimento do passado de uma maneira surpreendente: não por via do choque ou do inesperado, mas da desconstrução dos mitos e das verdades para, caídas as aparências, ficar o que realmente importa – e nos humaniza. Sendo este lado obrigatoriamente inalcansável, e por isso menos óbvio na narrativa, o espectador tem aqui um papel ativo e é chamado a inferir novas leituras relativamente a diversas personagens históricas; como, por exemplo, John F. Kennedy (Michael C. Hall) e Jackie Kennedy (Jodi Balfour). As duas carismáticas figuras históricas são recuperadas na perspetiva da Rainha, que tinha alguns ciúmes da primeira-dama dos EUA e, atendendo ao que está registado, Jackie terá falado mal de Isabel II e do Palácio de Buckingham num evento social.

 

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Desde o final de «Dexter», em 2013, que Michael C. Hall não participava numa série. As expetativas estavam em alta e, tendo em conta isso mesmo, poderá dizer-se que a montanha pariu um rato. Em contrapartida, é Jodi Balfour a brilhar, numa recriação histórica que assenta não apenas na visita europeia do casal Kennedy, mas também no homicídio do Presidente dos EUA. Apesar disto, a introdução do casal em «The Crown», pelas portas monstruosas do Palácio, é um dos momentos mais bem conseguidos não apenas da nova temporada, mas também da série no seu todo. Para quem está à espera de formalismos e rigidez naquele que é, provavelmente, o arco mais esperado da temporada, está reservada uma surpresa que prima pela sua audácia e, acima de tudo, pela simplicidade (bem conseguida). Ainda que fique uma teimosa sensação de 'copo' meio cheio…

 

Por sua vez, aos portugueses está reservado um 'mimo' subtil, mas inescapável: a passagem, ainda que breve e superficial, por terras lusas. Contudo, ouvir-se português na série mais cara da Netflix será sempre uma vitória. É por Portugal que passa, aliás, parte da storyline de Isabel e Philip (Matt Smith), que volta a assumir-se como uma figura dificilmente consensual. Ainda assim, a balança não tende em demasia para este conflito, permitindo o fortalecimento e permanência dos novos focos de ação vindos de África. Mais uma vez, «The Crown» procura reescrever a história de maneira subtil mas, ao mesmo tempo, certeira, repescando segredos que, apesar de terem deixado de o ser, continuam a ser pouco conhecidos – nomeadamente um que está relacionado com o antigo herdeiro ao trono, David (Alex Jennings). Mas não só.

 

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A imagem fotográfica de «The Crown» arrasa-nos com o seu rigor. Em primeiro lugar, pelo cuidado em recriar momentos emblemáticos, como a viagem da Rainha ao Gana em 1961 ou a imagem de Jackie após o assassinato do marido, com o mítico conjunto rosa coberto de sangue. De igual forma, há uma sobriedade assumida no som e na montagem da ação, com o ritmo a ser tendencialmente fluído. As personagens, como já acontecera na primeira temporada, são o principal efeito a que recorre o argumento e a realização, e a série ganha muito com essa escolha. Algo que é potenciado por um elenco verdadeiramente de estrelas, que se estende até ao mais secundário, nomeadamente Anton Lesser, Matthew Goode e Chloe Pirrie.

 

 

 

 

O artigo foi originalmente publicado na Metropolis.