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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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Room 104: Antes de Bater à Porta, Pense Duas Vezes

Se for de férias para um hotel, ou tiver de escolher uma casa por algum motivo, o melhor é evitar o número 104. Mais vale prevenir do que remediar. Os irmãos Duplass estão de regresso com uma comédia - depois do cancelamento de «Togetherness» - que traz consigo um twist bem sombrio. O primeiro episódio é uma viagem alucinante, mas à qual é impossível resistir.

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A "roleta russa" ou o "Tinder da televisão". Embora também seja da responsabilidade da HBO, estamos perante o "oposto d'«A Guerra dos Tronos»". Estas foram algumas das expressões inusitadas que os criadores (e irmãos) Jay e Mark Duplass usaram para descrever a nova menina dos seus olhos, «Room 104», que teve estreia mundial na madrugada de sábado, 29. Em Portugal, o canal TV Séries não quis ficar para trás e promoveu uma estreia apenas à altura dos mais resistentes: o episódio piloto, "Ralphie", foi emitido no nosso país às 4h30 da madrugada. Quem respondeu ao desafio, todavia, arriscou-se a ter pesadelos: «Room 104» é uma comédia, sim, mas bem escura: foi por causa disto que nos avisaram, na infância, para não falarmos com estranhos.

 

Como se não bastasse não sabermos ao que vamos a cada novo episódio, ainda somos manipulados pela narrativa. A ficção vai piscando o olho à sociedade em geral, e ao espectador em particular, estimulando leituras precipitadas e estereotipadas, com o discurso e a câmara a esconderem e mostrarem o que querem - e como querem. Apesar de tudo acontecer no Quarto 104, a verdade é que há alturas em que nos sentimos verdadeiramente perdidos. Quem nunca questionou que segredos escondem quatro paredes? A julgar pela amostra, no que diz respeito ao Quarto 104 mais vale não saber

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No primeiro episódio, Meg (Melonie Diaz) é contratada por Bradley (Ross Partridge) para tomar conta do filho, Ralph (Ethan Kent), enquanto tem um encontro romântico. Como espectadores, somos colocados nos 'sapatos' de Meg, que, a certa altura, percebe que não vai ter uma noite tão calma como pensava. Contudo, não estamos a falar de uma série de terror, mas antes de uma comédia mais negra que faz uso de um tipo de humor menos suave, normalmente associado ao britânico. Bastante inteligente, o discurso é cuidado e, em breves diálogos, consegue aprofudar as personagens e deixar isso para trás, partindo rumo ao que realmente interessa: o desenlace de uma premissa aparentemente banal. No entanto, não há nada de banal em «Room 104» e, a uma velocidade estonteante, tudo se cria, transforma e destrói.

 

Tal como em «High Maintenance» ou «Easy» [ler análises aquiaqui], não há qualquer tipo de fio condutor a ligar as histórias, apenas um quarto de motel, o 104. Por acaso do destino, ou genuína falta de sorte, é ali que vão parar as personagens mais improváveis, em tramas que vão do surpreendente ao extraornário. Como uma roleta ou o Tinder, onde não sabemos quem nos vai calhar, cada episódio é uma viagem rumo ao desconhecido. De contornos simples, «Room 104» é mais uma prova de que uma boa série não precisa, necessariamente, de um enredo complexo. Precisa, em vez disso, de marcar a diferença com qualidade. Numa altura em que as novas temporadas se preenchem de remakes, sequelas, prequelas e outras repetições de fórmulas mais do que gastas, os irmãos Duplass voltam a ensinar como se faz.