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Os Defensores: 145 Minutos de Desilusão

Das partes se fez o todo: «Os Defensores» uniram-se para salvar Nova Iorque - e o resto do mundo - da destruição iminente às mãos de uma temível Sigourney Weaver. Ainda assim, a tarefa mais complicada, e ingrata, poderá ser inverter o desequilíbrio que tem minado o percurso da Marvel na Netflix. Numa altura em que os super-heróis sobrevivem à boleia do hype instalado, resta saber quando (e se) a montra se vai desmanchar e revelar os manequins quebrados que esconde.

 

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Foram necessários quatro episódios para me sentir preparada para escrever a review daquela que é a grande aposta da Netflix em 2017. Ou seja, metade da primeira temporada. E porquê? Até aos 145 minutos de «Os Defensores», já perto do final do terceiro episódio, é difícil perceber onde acabam as séries individuais, que já conhecemos, e começa a trama esperada há anos. De seguida, são ainda precisos mais uns 'pózinhos' para ser totalmente perceptível como as peças se vão encaixar. Estranhamente, só a meio da narrativa senti que «Os Defensores» tinham, finalmente, chegado.

 

Os super-heróis coabitam há largas décadas connosco, pelo menos no que à imaginação diz respeito. Assistimos, todavia, a um fenómeno desde 2008, data do primeiro filme do Marvel Cinematic Universe (MCU)«Homem de Ferro» (2008) - e que tem crescido de forma imparável. Todos os anos há uma imensidão de filmes e séries televisivas que abordam mais um super-herói, anti-herói ou vilão. E, por mais que nos tentemos manter a par, há sempre mais uns quantos na gaveta e anunciados amiúde. Como se isso não bastasse, a rival DC Comics foi atrás e também ganha velocidade nas 'suas' adaptações, primeiro na televisão e agora no cinema.

 

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A série «Os Defensores» é a aposta mais antiga da Netflix, no universo Marvel. As restantes, ao estilo do que acontece no MCU, foram pensadas para justificar a formação desta equipa improvável. Embora acerte na receita, a Netflix falha nos ingredientes e apresenta uma espécie de Liga de Honra do MCU. Enquanto Matt Murdock/Demolidor (Charlie Cox) se redime, depois do falhanço no grande ecrã, e Jessica Jones (Krysten Ritter) se destaca pela sua irreverência - e contagia os demais -, Luke Cage (Mike Colter) e Danny Rand/Punho de Ferro (Finn Jones) continuam longe de reunir consensos. Ou de justificarem uma existência solitária.

 

Ironicamente, foi mesmo a persona non grata da equipa, o Punho de Ferro, a abrir as hostilidades e a encetar o conflito da primeira temporada, com um vilão, The Hand, que já vem de trás - mais concretamente da série de Finn Jones e da segunda temporada de «Demolidor». A espaços, Danny assume-se, inclusivamente, como o centro da ação e o motor que a move. Porém, e mais uma vez, a personagem fica aquém: parece transportar a maldição do seu passado bem junto a si e tarda em ultrapassar a fase crucial da metamorfose. Recorde-se que em 1978, quatro anos depois da sua estreia nas comics, Punho de Ferro uniu-se a Cage, na esperança de contornar o seu fracasso anunciado. Mas, entre ressureições e novas tentativas, a verdade é que nunca vingou.

 

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Por outro lado, desenhada com traços de conspiração e mistério, a 'Mão' que tudo toca sem se ver mostrou, finalmente, a sua verdadeira cara. E, quando essa assume os contornos de Sigourney Weaver, aqui na pele da misteriosa Alexandra, a narrativa tem tudo para crescer com isso. No entanto, a atriz, de qualidade inegável, aproxima-se ostensivamente de mais um golpe de marketing. Falar de «Os Defensores» é, aliás, atestar a máquina de 'vender' conteúdos em que a Netflix se tornou, apostando em talentos mais do que confirmados da indústria, para depois falhar na concretização da ideia. Quer isto dizer que, embora o quarteto de anti-heróis seja uma marca cimentada e que terá certamente continuidade, poderia não sobreviver fora da hegemonia de Marvel e companhia.

 

Não estamos perante uma série má. Este encontro de heróis antissociais e renegados até tinha tudo para ser uma aposta bem conseguida, não fosse a insistência em prescindir da ação (mais ou menos imediata) em prol da construção das personagens. Isso é importante, como é evidente, mas torna-se cansativo quando a 'história de origem' é estendida além do desejável. Tratando-se de uma maratona, acaba por não ter o mesmo efeito de desgaste no espectador, que, tal como eu, prossegue, episódio após episódio, em busca de um acontecimento digno desse nome. Com episódios semanais, a crítica seria possivelmente mais feroz: um mês, na peak season constante em que a televisão vive, é demasiado tempo.