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TV KILLED THE CINEMA STAR

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Mosaic: A Alegoria de Steven Soderbergh Sobre a Solidão

«Mosaic», a série realizada por Soderbergh e estrelada por Sharon Stone, estreia no TVSéries esta madrugada, à 1h. A METROPOLIS teve acesso em primeira mão à nova aposta da HBO e diz-lhe o que pode esperar.

 

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"A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. (…) Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar", escreveu o uruguaio Eduardo Galeano. O seu motto sintetiza parte da ambição narrativa de «Mosaic», a nova aposta do TVSéries, que obriga as suas personagens a movimentarem-se sempre para algum lado, em busca de algo nem sempre percetível. Esta não é uma série sobre um crime, é um thriller sufocante que inclui e 'rodeia' um crime, mas que vai muito para além dele. E que nos força também, enquanto espectadores, a acompanhar esta viagem. No final, percebemos que tudo não passou de uma distração (e das boas!).

 

Todos os envolvidos deixam parte de si na 'tela', a fim de construir este "Mosaico", onde as cores e as formas vão encaixando episódio após episódio, até surgir uma imagem nítida. Com uma realização cinematográfica, e dentro do estilo sombrio a que Steven Soderbergh nos habituou, a minissérie marca ainda o regresso do argumentista Ed Solomon («MIB – Homens de Negro», «Os Anjos de Charlie», «Mestres da Ilusão») à televisão, onde já não parava desde 1992. Sharon Stone surge em força e dá ao ar da sua graça com uma personagem que acaba por ser uma caricatura de si própria: uma mulher perto dos 60 anos, bem-sucedida, mas sem estabilidade (pública) na vida pessoal. (Ironicamente, foi noticiado há dias que a atriz teria um relacionamento com um jovem desconhecido…)

 

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Quanto à história, Olivia Lake (Sharon Stone) é uma autora apostada em causas humanitárias, nomeadamente no apoio a crianças por via da arte. Mas quando caminha nas sombras, quase impercetível, é uma figura solitária que procura ser correspondida. Como tal, é vulgar interessar-se e desinteressar-se pelos homens que passam na sua vida, indo facilmente do 8 ao 80, mas também do 80 para o 8. A intensidade que emprega à sua vida social é acompanhada por diálogos bem estruturados, consolidação de personalidades e, sobretudo, por ações/reações (até silenciosas) fitadas pela câmara. Como um "Mosaico", os acontecimentos vão-se sucedendo e, com isso, também os problemas: Michael O'Connor (James Ransone) quer comprar o terreno onde Olivia está, o artista em dificuldades Joel Hurley (Garrett Hedlund) não corresponde ao interesse e Eric Neill (Frederick Weller) é uma fraude. A narrativa aproxima-se do seu auge logo no segundo episódio, quando Olivia desaparece (provavelmente assassinada). Quem foi o/a responsável?

 

A banda sonora é o ingrediente extra que liga tudo o resto, num constante ambiente de tensão e mistério, habitado pelas personagens que, tendencialmente, até exageram as suas reações. É uma montagem quase teatral, onde a câmara viaja, sem pudor, nas costas das personagens, ou com perspetivas que contrariam o estilo dito padrão. No entanto, é incontestável que o ingrediente-chave deste enredo é Soderbergh e a sua lente, pelo que é uma série que dá resposta a um nicho e não necessariamente ao público em geral. Sobretudo pelo desaparecimento progressivo do mistério, que passa várias vezes para segundo plano, permitindo assim o crescimento das personagens. Quem está à procura de uma série quase policial, pura e dura, vai ter, provavelmente, as suas expetativas goradas. A verdade é que «Mosaic» tem todos os ingredientes de uma série do género, mas raramente recorre a eles sem um objetivo próprio.

 

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Assim como a utopia para a qual se caminha na batalha da (auto)concretização, também a narrativa de «Mosaic» explora os contornos dúbios da vitória sobre a solidão. É um diálogo humano de Soderbergh e Solomon com o seu público, feito numa sucessão de imagens escuras, tons agudos e frases capazes de nos derrotarem. No fundo, é uma análise diferente ao modo como as nossas escolhas, e depois as nossas ações, têm sérias implicações no futuro e ganham, assim, a capacidade de construir ou destruir o "Mosaico" que é a vida. Destaque ainda para o elenco de luxo, que conta com nomes como Jennifer Ferrin, Beau Bridges, Paul Reubens, Allison Tolman e Michael Cerveris. No entanto, a estrela é sem dúvida Sharon Stone, poderosa e segura de si, que é capaz de 'roubar' todas as cenas em que entra.

 

«Mosaic» surpreende ainda com a aposta numa aplicação, disponível para IOS e Android, que permite ao espectador escolher o seu caminho ao longo da história. Além disso, também é possível optar por perspetivas diferentes, das diversas personagens, e detetar novas pistas, a fim de criar a própria versão do mistério.

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

 

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