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Especial Black Mirror S4: USS Callister (2 de 6)

Viagem 2 em 1: venham pela ficção científica, fiquem pela história de terror. Há décadas que «Star Trek» e outras franquias passeiam Galáxia fora, mas a USS Callister percorre locais nunca antes explorados. O que não é necessariamente bom. Naquele que é o episódio mais tecnológico da quarta temporada de «Black Mirror», com um twist logo no arranque que nos troca as voltas, Charlie Brooker mostra-nos um dos recantos mais assombrosos do Universo: a nossa imaginação. Embarcam nesta aventura?

 

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 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio USS Callister)

 

O primeiro episódio da quarta temporada de «Black Mirror» mistura duas coisas que o geek comum adora: «Star Trek» e "San Junipero" - da terceira temporada e premiado com o Emmy em setembro -, que é como quem diz naves, aventuras, planetas desconhecidos e pessoas importadas para a cloud. Embora muitos tenham imaginado a sua própria aventura interespacial, ninguém foi tão longe como Robert Daly (Jesse Plemons), o génio por detrás do sucesso da empresa co-detida com o arrogante Walton (Jimmi Simpson). Daly é, aparentemente, a vítima de mais uma incursão tecnológica da série criada por Charlie Brooker que, como é seu apanágio, volta a vilanizar o ser humano. Mas não se deixem levar pelas aparências.

 

Um dos truques mais 'maldosos' da ficção não está relacionado com qualquer efeito visual, mas antes com a manipulação da empatia do espectador e, por conseguinte, das suas expetativas. Para quem está à espera de uma homenagem a «Star Trek», a ideia inicial não sai gorada: Robert Daly e companhia são colocados numa nave em plena aventura espacial, e até a opção de fotografia/edição de imagem acende as nossas memórias das séries e filmes (mais antigos) do género. No entanto, apertem bem os cintos: Charlie Brooker e William Bridges - que já tinham feito dupla em "Shut Up and Dance" - vão levar-nos ainda mais longe.

 

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Robert Daly é o herói anunciado que se transforma em vilão numa questão de minutos. Depois da sua aventura bem-sucedida no Espaço, o protagonista volta a misturar-se com os comuns mortais e, estranhamente, encontramos os comparsas da nave USS Callister no seu local de trabalho. Embora Daly seja tratado marcadamente com desprezo, até pelo próprio Walton, com quem criou o software Infinity, a verdade é que o puzzle se vai desconstruindo à nossa frente e as peças deixam de encaixar, uma após a outra. Além disso, apesar de o capitão Daly ecoar os contornos de um sonho, os elementos comuns ao Infinity deixam-nos imediatamente desconfiados - afinal, estamos em «Black Mirror», e aqui não há acasos.

 

Mas Charlie Brooker e William Bridges não estão aqui para nos facilitar a vida. À medida que o mistério se adensa e as primeiras teorias se desenham na nossa mente, entra em jogo a doce Nanette Cole (Cristin Milioti). Ironicamente, Nanette surge como o mais que provável interesse amoroso de Daly mas, numa sucessão de ações, serve em vez disso para desmanchar qualquer benesse que pudéssemos atribuir ao protagonista. Se antes podíamos considerar que Daly tinha criado um universo virtual para fazer justiça à realidade - e até podíamos dar-lhe algum crédito para isso, já que os diversos elementos da tripulação o tratavam, num momento ou outro, com indiferença ou desprestígio -, Nanette anula tudo isso. Não há na personagem qualquer atitude negativa para com Daly, muito pelo contrário e, mesmo assim (ou também por isso), ele leva-a para a USS Callister.

 

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Marginalizado no mundo real, Daly prendeu-se desde cedo ao imaginário da «Space Fleet», como qualquer geek faz com «Star Trek», «Star Wars»... ou até «Black Mirror», certo? Na vida adulta levou isso para um nível estratosférico: a partir do ADN de uma pessoa, era capaz de criar uma cópia digital na cloud - com personalidade, conhecimentos e físico equivalente ao do presente (menos os órgãos sexuais, o que veicula a proibição de qualquer tipo de prazer). Assim, enquanto Walton, Nanette, Shania (Michaela Coel) ou Nate (Osy Ikhile) seguiam com as suas vidas, uma versão consciente mas desconhecida para eles sofria em silêncio na cloud. E se na abertura do episódio as personagens aparentaram o bem-estar possível, a verdade é que todos estão lá obrigados e infelizes, sem qualquer hipótese de escape ou morte.

 

A desumanização que habita a quarta temporada de «Black Mirror», e não só, assume aqui um contexto literal: por um lado, Daly desumaniza os colegas e, por outro, a narrativa desumaniza o único humano a transportar-se para a USS Callister. O terror instalado na sua nave é impossível de combater, até porque Daly é o único, supostamente, a ter acesso ao exterior. Se no arranque é fácil criar alguma empatia com ele, ou ter pena, com a continuação da ação torna-se cada vez mais difícil defender aquilo que o protagonista faz. A certa altura, a própria narrativa desiste de o fazer. O que não deixa de ser irónico, uma vez que acabamos a torcer por figuras que, na sua essência, não são reais. Só que o facto de mostrarem mais humanidade do que a personagem humana, troca as voltas de uma paródia/homenagem que parecia transparente à partida.

 

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Se fosse óbvio, não era «Black Mirror». Ainda que "USS Callister" desmanche o seu twist numa sucessão rápida de acontecimentos, é o episódio da quarta temporada, a par de "Hang the DJ", que mais coincide com a ideia firmada de que «Black Mirror» tem de começar ou acabar com um BANG. Além de ser aquele que está mais apoiado na vertente tecnológica, mesmo sem a justificar completamente - transformar automaticamente um pedaço de ADN num clone (físico, psicológico e emocional) do ser humano parece algo rebuscado. No entanto, apesar de falhas e questões resolvidas apenas superficialmente, há em "USS Callister" uma importante componente humana, que desmistifica a ideia socialmente estabelecida de pessoas boas e más. Atendendo à dupla versão de cada uma das personagens, encontramos diferentes variações em cada uma delas, devidamente contextualizada e explorada (pelo menos na cloud).

 

«Star Trek» até pode significar a procura de um mundo melhor, mas não há nada disso nesta «Space Fleet». Ou em «Black Mirror». O futuro é algo assombroso, de forma persistente, mas os seus contornos de malvadez assentam no ser humano, ou na sensação de poder que este almeja com os avanços da tecnologia. Embora os finais felizes sejam possíveis, muitas vezes eles são anulados como consequência da ação humana: caso Daly não tivesse criado um Infinity demasiado literal, talvez pudesse ser feliz com Nanette, ou com outras pessoas que se cruzassem no seu caminho. Em «Black Mirror», como na vida, as contas finais fazem-se a partir da soma das nossas escolhas.

 

Nota: Para os mais distraídos, cameos de Kirsten Dunst, noiva do protagonista Jesse Plemons, que a meio do episódio surge no local de trabalho dele, e de Aaron Paul, que dá voz ao jogador da cena final.