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TV KILLED THE CINEMA STAR

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Especial Black Mirror S4: Hang the DJ (4 de 6)

Por Sofia

 

Num mundo em que as redes sociais se tornam fáceis substitutos ao café entre amigos e o facetime estreita relações, em que o íntimo passa a público e todos sabemos onde foi o réveillon do João, em que esperamos que um simples swipe, baseado numa biografia de 200 caracteres e num bom Photoshop, se converta numa relação com significado, não é difícil perceber como a tecnologia influencia as nossas relações.

 

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Em "Hang the DJ", Black Mirror atira a matar para o Tinder e apps de dating, e faz surgir um sistema que está para os relacionamentos modernos como a fada madrinha está para a Cinderela. Com uma taxa de sucesso de 99,8% promete-nos o príncipe encantado, o match perfeito que durará uma vida. E numa história de boy meets girl torcemos uma vez mais para que o destino, ou melhor, o sistema, não troque as voltas aos protagonistas.

 

 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio Hang the DJ)

 

Frank e Amy foram "emparelhados" pela derradeira dating app, "the coach" ou simplesmente "the system", uma tecnologia ditatorial que gere todos os relacionamentos amorosos na sua realidade distópica. No entanto, o mesmo device que os juntou dita que o seu tempo juntos será efémero, destinando-os a novos relacionamentos logo de seguida. Os dois jovens vão-se desgastando numa sucessão de relações pré-datadas, fruto de um algoritmo ininteligível. Cada experiência dissimulada como uma recolha de dados para o sistema, o mesmo sistema que lhes repete continuamente que tudo acontece por uma razão. Nenhum dos dois parece encontrar uma conexão como a que conseguiram entre ambos, e quando a segunda oportunidade de se reverem surge, tentam evitar o inevitável – a data de validade deste novo encontro.

 

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Contrariamente aos que os rodeiam, quase autómatos num sistema orwelliano (como ilustra a cena da discussão nas escadas rolantes), Amy e Frank questionam o sistema. E se houver uma escolha para lá da que lhes é imposta? O final (que não revelo) é aparentemente o melhor que Charlie Brooker consegue fazer no espectro dos finais felizes.

 

"Hang the DJ" é certamente Black Mirror-ish, mas traz o toque adocicado do bem-amado "San Junipero", sem descurar uma boa reflexão sobre os relacionamentos atuais, tão importante quanto a de "Nosedive". Há química suficiente entre Georgina Campbell e Joe Cole, os dois atores principais, para por momentos nos fazerem esquecer que este não é o mundo da tecnologia perversa a que a série Neflix já nos habituou. Mas desengane-se quem pensa que a quarta temporada perde o folgo neste (também) ternurento quarto episódio: está lá o twist final que nos vai ficar na cabeça.

 

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Num mundo de rápido consumo, o romantismo e o charme dissolvem-se na ideia de entregar o controlo desta difícil tarefa que são os relacionamentos interpessoais a um pequeno disco branco, ou quiçá a uma simples aplicação. Um escape fácil a todo o género de situações desconfortáveis, a segurança de que temos 99,8% de hipóteses de acertar com a nossa cara-metade. Mas o que dificilmente nos apercebemos sem o distanciamento necessário, é o que se perde por entre os algoritmos decisores que processam os dados com que continuamente os alimentamos.

 

Morrissey cantava: "Burn down the disco/ Hang the blessed DJ/ Because the music that they constantly play / It says nothing to me about my life". No entanto, somos nós que continuamos a pôr play no facilitismo das apps que transformam as relações modernas. Que culpa tem o DJ se apenas toca o que o público pede?