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Especial Black Mirror S4: Crocodile (5 de 6)

Embora seja um dos episódios menos memoráveis da quarta temporada de «Black Mirror», "Crocodile" contém um dos easter eggs mais épicos da história da série, apenas ao alcance dos espectadores mais curiosos. Desenhado com os traços de um drama humano e gélido, a tecnologia parece habitar a ação apenas superficialmente... antes de a absorver por completo, claro. Este é mais um passo em frente para a coexistência de todos os episódios de «Black Mirror» no mesmo universo, mas um passo atrás na exigência a que Charlie Brooker nos habituou.

 

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"'Of course the real question is why anyone would pause what they're watching just to read a sentence in a printed out newspaper article', says a voice in your head – before advising you to go and share this finding on Reddit". Parece anedota, mas é isto que se lê num pedaço de jornal que passa, de forma rápida, pelo nosso ecrã. Desengane-se quem acha que «Black Mirror» é meramente um conjunto de filmes independentes, e também quem acredita que nada temos a ver, enquanto espectadores, com esse universo. A série nunca foi sobre os outros, mas sobre nós. Afinal, que rosto vemos quando desligamos os aparelhos eletrónicos, como o computador ou o telemóvel, e confrontamos o seu fundo escuro? Este 'espelho negro' não perdoa, só que os fãs de «Black Mirror» também não. Mas já lá vamos.

 

Quando no seu habitat, os crocodilos são animais vorazes e rápidos: atuam muitas vezes às 'escondidas' e, sem dó nem piedade, são capazes de engolir o que os rodeia. Por seu lado, se pensarmos na sua simbologia, representam a inevitabilidade de a noite se seguir ao dia, num ciclo contínuo onde não somos mais do que espectadores impotentes. Já na mitologia, como é o caso da egípcia, o crocodilo está relacionado com a morte e as trevas. Sim, já sabemos, em «Black Mirror» nada acontece por acaso. E este drama, menos tecnológico do que o habitual, mas 'vítima' desse universo na mesma, é uma lembrança (literalmente) fria disso mesmo: na natureza selvagem, é cada crocodilo por si - e quem decide ser 'peixe' não se safa.

 

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 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio Crocodile)

 

O conceito de "Crocodile" é um dos mais perturbadores de «Black Mirror» até à data, mas tarda a evoluir para além disso. Na sequência de um homicídio acidental, o então casal Mia (Andrea Riseborough) e Rob (Andrew Gower) esconde o corpo para não sofrer as consequências do deslize. Embora Mia não concorde totalmente com a decisão, Rob mostra-se irredutível e a jovem pouco mais consegue fazer a não ser ajudá-lo a mascarar o crime. Como seria de esperar, os dois seguem caminhos diferentes e de jovens passam a adultos, com outra maturidade e responsabilidade.Também as paisagens gélidas da Escandinávia são trocadas pela vida citadina de Mia, agora uma profissional bem-sucedida e mãe de família. Tudo parece ter acabado bem para ela, mas a verdade é que a vida, por mais tranquila que possa parecer, tem sempre um twist pronto a acontecer: Rob regressa, arrependido do passado e com vontade de se redimir para com a família do homem que atropelou.

 

No entanto, Mia tornou-se um crocodilo. Deixou de ser uma jovem irresponsável para aceitar as exigências da vida adulta e, assim que se sente ameaçada, atua como qualquer animal em perigo - defende-se. Mas o crocodilo não é apenas ferocidade, é também equilíbrio e, acima de tudo, a inevitabilidade de cumprir um ciclo, mesmo que este seja feito de acasos. Na mesma noite em que Mia mata Rob, um pedestre é atropelado por uma carrinha que transporta pizzas sem condutor - da Fences Pizza, a mesma de "USS Callister" - e a investigadora Shazia (Kiran Sonia Sawar) está determinada a apontar responsabilidades. Para tal, vai somando testemunhos e recorre à sua tecnologia, muito parecida com aquela que encontramos em "The Entire History of You", da primeira temporada, e não só. Ela acede às memórias das pessoas e, numa espécie de hipnose 2.0, que incentiva o ambiente em que os indivíduos se encontravam, consegue observar as ocorrências. E é isto que estraga tudo.

 

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Perturbada com os crimes que amealhou, Mia não é capaz de evitar pensar na culpa que a atormenta - sobretudo no medo estrondoso de ser apanhada, pelo que, incapaz de assumir o controlo, mostra o seu passado, antigo e recente, a Shazia. É uma necessidade de sobrevivência que, tal como acontece na selva, coloca os mais frágeis à mercê dos mais fortes. Mia não sente prazer naquilo que faz, mas antes uma obrigação de assegurar que nada do que ganhou ao longo da vida vai ser destruído. E é aí que entra a ironia, sempre ela: não é a tecnologia de Shazia que a trama, mas antes a capacidade de extrair memórias também dos animais. Depois de assassinar a mulher, Mia segue no seu carro para casa dela, a fim de eliminar a única ponta solta: o marido dela. Ninguém escapa à fúria instintiva de Mia, nem mesmo o pequeno filho de Shazia e Anan (Anthony Welsh)... que era cego de nascença, e não poderia testemunhar a morte do pai. Já o hamster da família, no quarto do miúdo, acaba por ser a derradeira prova a pôr fim à série de homicídios de Mia.

 

"Crocodile" tem muitos aspetos positivos, dos atores (especialmente Andrea Riseborough)  às paisagens, passando ainda pelo cuidado com o ritmo da narrativa - que facilmente se tornaria aborrecido. O problema é que este não é um episódio livre de expetativas: está incluído em «Black Mirror», e isso traz bastantes exigências. A qualidade de "Crocodile" fica aquém de outros episódios que abordaram temas próximos, sendo incapaz de se afirmar como uma incursão narrativa relevante por conta própria. A ironia da tecnologia, e da própria sucessão de acontecimentos, é uma expressão cruel da realidade - seja em tela ou no dia a dia -, mas a parte perde-se assim que começamos a analisar o todo. Falta força ao episódio, não só por destoar em termos de tecnologia, mas também no próprio drama das personagens. Este chegou a ser anunciado como o primeiro da quarta temporada, mas caiu para terceiro e será facilmente esquecível.

 

 

Nota: Um dos filmes porno disponíveis no catálogo do hotel onde Mia se instala é "Best of Wraith Babes", uma referência ao programa no qual Abi (Jessica Brown Findlay) participa em "Fifteen Million Merits" (segundo episódio da primeira temporada.