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TV KILLED THE CINEMA STAR

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Especial Black Mirror S4: Black Museum (6 de 6)

Há algo de muito macabro em "Black Museum", o episódio que fecha a quarta temporada de «Black Mirror» e que une pontas que nem sequer tínhamos dado conta que estavam soltas. Tal como acontece em "White Christmas", o episódio vive da dependência saudável de micro-histórias que, qual truque de magia revelado depois de nos ter enganado, se desmancham como ilusões de um mesmo puzzle. Enquanto a generalidade dos fãs desespera por novidades, e se queixa da reciclagem tecnológica das 'novas' narrativas, Charlie Brooker deixa bem vincado que ainda não fechou as 'velhas'. Calma, o jogo não muda - está só (ainda) mais complexo.

 

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A ligação de «Black Mirror» com o mundo do crime, e sobretudo com a crueldade humana, é perigosamente próxima. Ao longo de quatro temporadas, fomos convidados e testemunhas de crimes brutais e atitudes reveladoras do pior que o ser humano tem para oferecer, mas, em "Black Museum", essa atitude voyeurista é tomada como literal e inerente ao argumento. E até a organização da narrativa é cruel: seguimos à mercê das personagens e das suas decisões, nomeadamente de discurso, que nos levam aqui e ali, consoante lhes apetece - ou são levadas no jogo de perguntas e respostas.

 

Mais do que uma visita guiada a um museu de artefactos relacionados com tortura, morte e sofrimento, "Black Museum" é um passeio pela nossa mente e pela forma como, manipulados pela ficção, reagimos às novas informações que vão surgindo no ecrã. Mas também as personagens são manipuladas pelo argumentista e realizador, certo? Já parece Inception, ainda que a premissa seja bem menos complexa (à partida): Nish (Latita Wright) deixa o carro a recarregar e, com cerca de três horas para gastar, acaba por dirigir-se a um grande armazém nas imediações, denominado "Rolo Haynes' Black Museum". Ali, tal como o nome poderia levar a suspeitar, encontra-se muito do passado de «Black Mirror».

 

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 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio Black Museum)

 

Criticado por uns e elogiado por outros, "Black Museum" concentra em si tópicos que ilustram a grande discussão que se tem gerado em torno da quarta temporada de «Black Mirror». Por um lado, dá consistência às diferentes narrativas que se têm multiplicado na série da Netflix, frisando que não se tratam de abordagens soltas da tecnologia e da humanidade, mas antes de vários acontecimento presentes no mesmo mundo (em tempos diferentes). O facto de "Black Museum" ter tantos artefactos presentes em episódios do passado da série - que vamos enumerar no final - estabelece-o como um dos episódios mais distantes no futuro, já que engloba objetos de outros e os coloca no seu passado. Por outro lado, repete várias tecnologias já utilizadas e até o próprio desenvolvimento e conclusão da narrativa se baseiam numa fórmula bem conhecida.

 

Tudo começa com a ida de Nish (Latita Wright) ao "Rolo Haynes' Black Museum". Com uma aparência de espaço abandonado, somos levados rumo ao desconhecido com Nish (ou por Nish), movida aparentemente pelo mesmo que nós: curiosidade. O dono do espaço, Rolo Haynes (Douglas Hodge), assume uma estranha postura de superioridade, que destoa perante aquele museu que claramente fracassou. Desde que atravessamos a porta que parecemos embarcar num "Regresso ao Futuro" bem sangrento: o "Black Museum" está repleto de rostos e objetos que conhecemos bem demais, e que parecem agora elevados ao estatuto de obra-prima ou de interesse particular.

 

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Pela primeira vez, a maldade proveniente da tecnologia, e que a promove, tem um rosto. Se até aqui sempre a víamos como algo disforme, sem responsabilidade direta mas sim um instrumento das atitudes humanas, em "Black Museum" parte da culpa recai diretamente sobre Rolo. Assim como vimos em "White Christmas", a personagem vai contando momentos do seu passado que, apesar da naturalidade e frieza com que os recria, o pintam como o vilão da sua própria história. Com o entusiasmo típico de quem gosta de História, por mais obscura que possa ser, somos confrontados pela likeability do personagem e, ao mesmo tempo, pela violência dos seus atos. E percebemos como a sua faceta extrovertida o ajudou a ser bem-sucedido no passado.

 

Primeiro com uma incursão narrativa inspirada por Pain Addict, de Penn Jillette, e depois com uma transferência da consciência humana para objetos inanimados, "Black Museum" levanta questões éticas muito importantes. Já sabemos que é frequente ver a individualidade ser 'engolida' pelo coletivo, mas aqui a discussão prende-se sobretudo com a incapacidade de escolha de quem não tem controlo sobre a tecnologia: os doentes que passam as suas sensações físicas a Dawson (Daniel Lapaine) e Carrie (Alexandra Roach), a mulher de Jack (Aldis Hodge), que cede a sua autonomia na ilusão de que a pode ganhar e fintar a morte. Com a promessa de que a tecnologia vai beneficiar o indivíduo, ele acaba, em vez disso, por ser anulado por ela - atribuindo poder aos outros; mais uma vez, a vilania está no ser humano e, especificamente, em Rolo.

 

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Há dois desconfortos simultâneos em tela que fortalecem o do espectador: Rolo dá por si a suar imenso, com um discurso cada vez mais atabalhoado, e Nish parece cada vez mais incomodada com aquilo que ouve. A relação, outrora meramente de circunstância e que evoluiu com o desenvolvimento da ação, vai ganhando os contornos de uma vingança anunciada: que se confirma quando chegamos à última porta. A atração principal do museu é a memória virtual de um condenado à morte, que vendeu a Rolo a sua cópia remanescente, com a promessa de que este iria ajudar a respeitva família. Apesar de digital, Clayton (Babs Olusanmokun) sente como um humano e está totalmente destruído depois de várias passagens pela cadeira elétrica. Por um preço, e antes de o espaço cair em desgraça, qualquer visitante o podia 'matar'. Seria, afinal, inocente? Ninguém quer realmente saber. A não ser a filha, Nish, e a mãe (Amanda Warren), que está instalada na sua cabeça e vê através dos seus olhos, tal como Carrie.

 

A tecnologia recebe o castigo possível, mas, assim como acontecia em "White Bear", as atitudes reprováveis de Rolo Haynes recebem um castigo, no mínimo, questionável. Qual o limite? O crime é justificado se for o resultado de um outro? Podemos falar em corrupção tecnológica? As perguntas não param em «Black Mirror», mas desta vez temos algumas respostas. Apesar de "Black Museum" ressoar memórias antigas da própria série, a verdade é que o argumento não pode ser resumido, tal como o museu, aos artefactos que possui: é muito mais complexo. Como tudo em «Black Mirror».

 

Easter eggs presentes em "Black Museum":

 

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- Mal entramos no espaço, vemos um rosto familiar num dos ecrãs, Victoria Skillane (Lenora Crichlow), de "White Bear". As headlines ao lado, "Double Suicide" e "Cloning without Consent", correspondem, respetivamente, à primeira história de "White Christmas" e a "USS Callister".

- Aparece uma abelha robótica do episódio "Hated in the Nation".

- O tablet destruído em "Arkangel", depois de Sara (Brenna Harding) atacar violentamente a mãe (Rosemarie DeWitt) com ele.

- A banheira de "Crocodile", onde Anan (Anthony Welsh) se encontrava quando foi assassinado por Mia (Andrea Riseborough).

- Em pano de fundo, surge um homem/boneco enforcado, numa referência a Carlton Bloom, que se suicidou no episódio piloto "The National Anthem", após ter raptado e libertado a princesa.

- A máscara usada por quem perseguia Victoria em "White Bear", bem como o casaco vermelho e a arma.

- O chupa-chupa do filho de Walton (Jimmi Simpson), de "USS Callister", que Robert Daly (Jesse Plemons) usa para o clonar e colocar na sua "Space Fleet".

- Noutro local, também na parte detrás, podem ver-se os 'ovos' que continham cookies em "White Christmas".

- Rolo Haynes trabalhou no Hospital St. Juniper's, onde decorre a ação da sua primeira história. Uma referência clara ao episódio "San Junipero", que volta a ser recordado com a menção das pessoas importadas para a cloud. Também nessa história, os ratos testados chamam-se Kenny e Hector, como as personagens de "Shut Up and Dance".

- Jack surge a ler uma comic chamada "15 Million Merits", tal como o segundo episódio de «Black Mirror». O seu interior ilustra um dos momentos do episódio.