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Especial Black Mirror S4: Arkangel (1 de 6)

Em Arkangel, Black Mirror volta às suas raízes, com louvor. Por Marisa

Devemos sempre voltar ao sítio onde fomos felizes, dizem. Ou, no caso de Black Mirror, talvez a expressão certa seja "infelizes", ou seja, o sítio onde descobrimos o pior do ser humano. Arkangel volta a explorar territórios familiares em Black Mirror, desta feita com a realização de Jodie Foster. E, com isso, torna a colocar-nos a dúvida existencial de sempre: e se fôssemos nós?

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 (O texto que se segue contém SPOILERS do episódio Arkangel)


A premissa do episódio é simples: depois de um susto (perder a filha de vista durante umas horas), uma mãe (Marie) resolve implementar-lhe um chip de "controlo parental", aproveitando uma tecnologia experimental em testes. A partir dessa altura, e através de um tablet, a mãe consegue ver tudo o que a pequena Sara vê e receber alertas de perigo, mesmo à distância. Mas não só: existe também a opção de filtrar a realidade, tornando-a "kid friendly", sem sangue, violência ou sexo. Útil ou assustador? A linha é ténue, como sempre na série de Charlie Brooker.

 

Em Black Mirror, as narrativas caminham tradicionalmente por um de dois caminhos: um arrojado twist final que permite explicar todo o episódio (como em White Bear, por exemplo) ou um cenário conhecido à partida e que percebemos, desde o início, que vai descambar – embora não saibamos bem a que nível. Arkangel segue, claramente, este último fio narrativo. A partir do momento em que somos apresentados à tecnologia, instintivamente tememos as consequências. Até porque Black Mirror já quebrou qualquer resto de inocência em relação a nós próprios: finais felizes, só em San Junipero.

 

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Portanto, Arkangel acaba por prosseguir num trilho facilmente previsível, entre o controlo obsessivo de uma mãe que, tragicamente, só quer o melhor para a filha, e uma criança-tornada-adolescente que exige a sua necessária liberdade. A previsibilidade não é, no entanto, um ponto negativo, mas sim a base para a desgraça anunciada. E Jodie Foster, ao leme da realização, traz à superfície todas as complicadas nuances e camadas de uma relação familiar, para o bem e para o mal.

 

Sara cresce e o controlo excessivo começa a fazer os seus danos. Multiplicam-se as dúvidas: onde deverá começar a autonomia e até que nível devemos proteger os mais novos? Em que patamar é que o controlo apenas dá origem a novos perigos, sem a necessária preparação para o mundo real?

 

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Sem possibilidade de retirar o chip (a tecnologia foi descontinuada por razões éticas), cabe a Marie decidir parar de usar o tablet e arrumá-lo num canto esquecido. Contudo, o apelo tecnológico (ou, mais certeiramente, o apelo do controlo) permanece, à espera de um novo susto como justificação moral.

 

No final, a revolta da filha controlada em segredo tem consequências trágicas. Confrontada com o facto de que Marie voltou a usar o tablet, desta feita às escondidas, para controlar todos os seus passos, Sara reage violentamente e agride a mãe com o tablet "big brother". O dispositivo tecnológico parte-se e Sara segue viagem para uma vida off-grid.

 

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Arkangel explora, de forma exímia, a necessidade de controlo dos pais, a infantilização cada vez maior das crianças e os dilemas face à sua autonomia. Como pais, é difícil largar as crianças de vista, permitindo-lhes crescer e expor-se ao mundo real. Nada é mais natural do que a proteção aos indefesos e, nesse sentido, um filtro contra a realidade mais violenta parece o sonho (nunca proferido) de qualquer pai. Até que ponto empenharíamos a liberdade dos nossos filhos perante a tecnologia que nos desse o controlo?

 

O grande trunfo de Black Mirror foi sempre este: uma sucessão de contos urbanos sobre o ser humano e a sociedade mediatizada em que vivemos. A tecnologia é o "artifício", o mote à ação, mas o âmago sempre foi o que existe em nós. É este o ingrediente que faz de Arkangel um dos melhores episódios que esta season tem para oferecer: o medo de nós próprios – e a dúvida sobre se, com a tecnologia certa, não faríamos exatamente o mesmo. Black Mirror volta a comprovar, sem necessidade sequer de twists ou purpurinas, que é a série que mais releva sobre nós. Infelizmente.