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Caçador de Mentes: A História de Origem de «Mentes Criminosas» e Cia.

"Se não os consegues vencer, junta-te a eles". Embora atualmente sejam um dado incontornável na realidade e na ficção, os perfis nem sempre foram tão consensuais na investigação policial. A mudança de paradigma é revivida na série «Caçador de Mentes», criada por Joe Penhall para a Netflix, que 'reclama' para si os créditos de John E. Douglas e da sua geração, que arriscaram entrar na mente dos assassinos em série para os compreenderem melhor. A escolha sóbria do elenco dá ainda mais brilho a uma série que desafia a forma como vemos as séries e, por conseguinte, o mundo.

 

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Todos nós temos um pouco de detetives. Se a isso juntarmos a curiosidade inata do seriólico, ainda o episódio não vai a meio e já atiramos o primeiro bitaite em relação a quem julgamos ser o culpado. Por vezes contamos, em séries como «Mentes Criminosas» e «Profiler», com a ajuda dos célebres perfis, nos quais os profilers desmontam o estereótipo do suspeito: se é homem ou mulher, a faixa etária, se ainda mora com os pais... Apesar de não ser um método infalível, contribui - às vezes até por tentativa/erro - para desmontar o crime e limitar a lista de possíveis suspeitos. No entanto, este uso da Psicologia nem sempre foi aceite: o FBI (e não só) era, até há poucas décadas, um meio construído apenas a pulso e sem espaço para a subjetividade.

 

É este o passado revisitado por «Caçador de Mentes», a série lançada na totalidade pela Netflix a 13 de outubro. A narrativa tem por base o incontornável livro Mindhunter: Inside the FBI's Elite Serial Crime Unit, assinado por John E. Douglas e Mark Olshaker, e publicado em 1995. Uma verdadeira 'bíblia' no que à análise criminal diz respeito, a obra sustenta a base factual sobre a qual se movem os fictícios Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany): partindo de um paradigma aparentemente indestrutível, que baseava a caça ao crime numa relação causa-efeito, perpetrada por pessoas desequilibradas e propensas a matar, e não a problematizava.

 

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Os primeiros episódios de «Caçador de Mentes» não são fáceis, sobretudo porque a premissa anunciada tarda a revelar-se.  A dupla não desata logo a entrevistar assassinos em série, ou a tentar resolver crimes aparentemente impossíveis de decifrar: Holden começa na sua pacata rotina, desmotivado pela incapacidade de, no seu entender, o FBI dar resposta às exigências que se lançam sobre a sua atualidade - e o seu futuro (hoje o nosso presente). Os discursos são, no arranque, os atores principais da trama e, embora continuem a brilhar com o avançar da ação, vão perdendo espaço para deixar crescer as personagens de Groff e McCallany. Todavia, isto só acontece depois de o contexto ser consolidado e os passos arriscados da dupla serem dados num piso sólido e essencial para que o drama (nos) faça sentido. A lentidão inicial é, ainda assim, tornada mais 'suportável' pela brilhante realização de David Fincher.

 

Vencer uma batalha, até então desleal, é o motor de «Caçador de Mentes» e da ação de Holden, que encontra na Psicologia parte da resposta que tanto ambiciona. Se for capaz de perceber antecipadamente como funciona a mente do criminoso, poderá resolver mais crimes e mais rapidamente, e, de certa forma, revolucionar a forma como as autoridades encaram a morfologia do homicídio. A teoria é interessante e, atendendo à importância que os profilers assumem atualmente no FBI, é curioso perceber como a sua ausência fortalece ainda mais a sua pertinência. No entanto, a vontade ousada de Holden, que encontra suporte em Bill Tench, é o primeiro passo de uma história horrível com um final feliz. Ou tão feliz quanto possível.

 

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Embora estejamos perante uma série genericamente ficcional, a trama apoia-se em assassinos em série bem reais, analisados pelos verdadeiros percursores das teorias de análise comportamental aplicada ao mundo do crime. Edmund Kemper (Cameron Britton) é um deles, sendo que a interpretação de Cameron já foi bastante elogiada, nomeadamente pelas semelhanças entre a série e as gravações com o homicida, que vão da caraterização à forma de andar, passando até pelos seus silêncios. Apesar deste ser o núcleo principal de «Caçador de Mentes», e também o principal elo identificador do que a série ambicionar fazer, há  linhas narrativas paralelas que contribuem para intensificar, progressivamente, a tensão. O desenvolvimento de ambos os protagonistas, a par de crimes 'secundários' e das novas personagens que se cruzam com eles pelo caminho, é o tempero extra que deixa a intriga no 'ponto' certo.

 

Peça após peça, a narrativa vai seguindo o seu rumo e as mentes criminosas vão revelando as suas intenções - assim como aquilo que estas podem, com a devida análise, significar. Mas Holden é o elemento mais frágil deste 'puzzle', e o facto de ser uma personagem não verídica abre caminho a uma possível passagem para o "outro lado". Por sua vez, Wendy Carr (Anna Torv) vem contrariar a tendência inicial, que apresenta e desenvolve as mulheres um mero enfeite. Debbie Mitford (Hannah Gross), por exemplo, é introduzida como o interesse amoroso de Holden e, sucessivamente, surge para dar resposta às necessidades dele - sejam sexuais ou de diálogo. Podemos até estar num mundo de homens, o que seria incontornável pois é uma viagem aos anos 70, mas exige-se mais no que à construção das personagens femininas diz respeito.

 

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