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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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13 Séries Para 'Maratonar' no Halloween

A lista de afazeres do Halloween não é só composta por festas e disfarces. Assim como a generalidade das coisas que compõem o lado fantástico da vida - e os outros lados também-, o Halloween é uma boa desculpa para fazer uma maratona a 'sério' de séries. De modo a evitarem tropeçar em abóboras, ser caçados por bruxas ou encurralados por um gangue de fantasmas, o ideal é ficarem à frente do ecrã. No entanto, procedam por vossa conta e risco: há um Upside Down que provoca calafrios, um caçador ainda longe do seu «Silêncio dos Inocentes» e cidades repletas de segredos tenebrosos. O melhor mesmo é levarem um amigo.

 

Hannibal

 

 

Em terra de remakes e prequelas, quem tem criatividade é rei. O criador Bryan Fuller reinventa o passado de um dos vilões mais assombrosos da história da literatura e do cinema, Hannibal Lecter. Com três temporadas, esta é uma série que bebe muito do estilo de «Pushing Daisies», do mesmo criador, mas com um toque retorcido e macabro de malvadez.

 

Stranger Things

 

 

Uma das séries mais populares de 2016 regressou na sexta-feira, 27, com nove episódios de cortar a respiração. A alta velocidade, a nada pacata localidade ficcional de Hawkins mal tem tempo de assinalar o Halloween: não há tempo para monstros a fingir, porque os reais estão à espreita. Assim como, claro está, os míticos anos 80 e o imaginário que estes transportam.

 

American Horror Story: Cult

 

 

Qualquer uma das temporadas de «American Horror Story» pode ser o cenário ideal de uma noite recheada de suspense e terror. Na sétima, atualmente no ar, a ambiente de Brookfield Height desenha-se com o traços obscuros de fobias, intensificadas pela eleição de Donald Trump, manipulação e um culto. E muito mais que se vai revelando pelo caminho...

 

Mindhunter

 

 

Lançada numa sexta-feira 13 pela Netflix, provou ser um sinal de sorte - a nossa - num dia atormentado historicamente pelo azar. Com uma narrativa inspirada pelos procedurais que marcam a rotina televisiva, «Mindhunter» viaja ao passado para mostrar a mudança aguçada de paradigma que permitiu ao FBI estar à altura dos serial killers. Uma viagem imprópria para cardíacos.

 

Wayward Pines

 

 

Quando um agente dos Serviços Secretos é incumbido de investigar um caso misterioso nesta localidade aparentemente banal, não adivinha onde se vai meter. Com contornos de um mistério sórdido, que se esconde mais do que se revela, Wayward Pines é o palco arrasador de uma luta inesperada - e de vida ou morte.

 

Twin Peaks

 

 

Sejam as temporadas dos anos 90 ou o regresso assinado (novamente) por David Lynch e Mark Frost este ano, «Twin Peaks» é sempre uma boa série para fazer maratona. Cenário de um dos enigmas que mais tem assombrado os seriólicos, a localidade representa um desafio constante à forma como encaramos a ficção, a realidade, e tudo o que se encontra, e fica, pelo caminho.

 

Penny Dreadful

 

 

Quase que bastava o elenco galáctico para nos convencer a ver «Penny Dreadful», mas as suas personagens e narrativa também são do outro mundo. Um reavivar dos pesadelos, com raízes profundas no folclore e no terror, ambientado na Londres Vitoriana e no confronto intemporal entre os caçadores e os fantasmas que tentam travar.

 

Witches of East End

 

 

Uma das sugestões mais soft desta lista, é uma fantasia composta por muita magia, comédia e... falta de jeito. Apesar de o ciclo não ter sido completamente fechado - a série foi cancelada após duas temporadas -, esta é uma narrativa fácil de ver e com a dose certa de terror para quem foge a 'sete pés' do género.

 

Hemlock Grove

 

 

Um homicídio brutal que dá início a uma perseguição sem igual. Uma narrativa que joga com os géneros de terror, crime e drama para 'pintar' uma realidade alternativa medonha. Não há mistério sem senão, pelo que a resposta vai ser tudo menos rápida ou fácil. Os monstros saem à rua, mas nem todos usam um disfarce: há um bem real e nenhum dos habitantes está a salvo.

 

Slasher

 

 

Falar em localidades suspeitas conduz diretamente a «Slasher». Sara regressa à pequena povoação onde cresceu e onde os seus pais foram assassinados de forma terrível. O tempo passou, mas o terror continua bem presente e uma nova série de homicídios, idênticos, escancara as portas, nunca fechadas completamente, de um trauma inimaginável.

 

Carnivàle

 

 

Em 2003, a HBO lançou uma série que ameaçou a ténue fronteira entre o Céu e o Inferno. Aproxima-se uma guerra extraterrestre e, de forma inexplicável, duas pessoas aparentemente banais revelam-se elementos-chave deste confronto. O ambiente é o da Grande Depressão, que marca o reencontro - e convívio 'amigável' - entre os fantasmas da ficção e da História.

 

Lore

 

 

O que acontece quando se junta um produtor-executivo de «The Walking Dead» a um produtor-executivo de «Ficheiros Secretos»? A resposta é dada em «Lore», a (re)imaginação do universo criado pelo podcast de Aaron Mahnke, que analisa acontecimentos suspeitos que construíram e alimentaram alguns dos nossos maiores pesadelos. Todas as lendas têm a sua parte de verdade...

 

Dark Shadows

 

 

Tim Burton levou para os cinemas, em 2012, «Sombras da Escuridão» (Dark Shadows, título original), um filme inspirado numa série com o mesmo nome dos anos 60 - que, por sua vez, já tinha merecido um remake em 1991. Integra esta lista a série estreada em 1966 - e terminada em 1971 -, que conta as aventuras tenebrosas da abastada família Collins. No centro, como sempre, está Barnabas.

 

 

Boa maratona!!

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Aluga-se Blog #2 - Peaky Blinders, por Filipa

Sou a Filipa, super feliz por ter encontrado um espaço para alugar. Os arrendamentos estão pela hora da morte. Tenho Netflix Premium. Não dou a password. Façam o favor de entrar.

 

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Não vou mentir. Já me tinham falado desta série mas nunca prestei a mínima atenção. Não me orgulho de admitir que só o fiz quando soube que o Tom Hardy entrava na segunda temporada. Lá fui directamente ao início dessa temporada (atentem no pormenor de nem sequer ter começado pela primeira), para ver se o Hardy ficava bem vestido de judeu de início de século XX.

 

Lá começa com um funeral. De quem? Não sei. Surge o protagonista de olhos azuis. "Olha o Agostinho falta de ar daquele filme no avião. Só me faltava este". A meio do terceiro episódio, pus em pausa e pensei: "Ok. Isto é bom. Isto é muito bom. Se calhar é melhor ver desde o piloto". E foi a última vez que alguém me pôs a vista em cima durante um par de dias.

 

Enquanto os Estados Unidos se debatiam com a Lei Seca, a Inglaterra está a sair da Primeira Grande Guerra. O palco é Birmingham. Esqueçam Londres. É em Birmingham, na classe operária, por entre um cenário industrial, que se sente o verdadeiro peso desse ano de 1919 onde uns morreram e outros regressaram. E não há melhor época para o surgimento de gangues. O bom de Peaky Blinders é que se baseia na vida real. Estes tipos existiram mesmo. A série é uma versão muito superficial do bando. O nome vem das lâminas que usavam na pala das boinas. Uma cabeçada no adversário e os olhos destes ficavam cobertos de sangue. Pelo menos, é esta versão que o produtor, Steven Knight, seguiu.

 

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Cillian Murphy passa do "Gajo com cara esquisita do coiso do avião…Como é que se chamava o filme? Red?" a "actor genial" num curto espaço de tempo. Arrisco-me a dizer que será o melhor papel dele até à data. A rodear o cabecilha da família cigana, está um elenco de luxo onde constam nomes como Sam Neill, Helen McCrory e Paul Anderson. Basta lembrar que os filmes de Agatha Christie são a versão britânica dos Morangos com Açúcar, onde muitos actores iniciam a carreira televisiva. Isto são actores habituados a palcos e nota-se.

 

"Ciganos? Mas são tão brancos". Primeiro, isto é Inglaterra. Segundo, vão à Wikipedia que eu não dou aulas de História. Terceiro, Brad Pitt no filme Snatch. Não é só a convulsão social do pós-guerra e a criminalidade que são retratados. A xenofobia está presente. A questão da Irlanda já é pertinente. O papel da mulher na sociedade é transmitido de forma exímia pelas personagens femininas da família Shelby. Se como eu, acordaram esta semana para descobrir que a violência doméstica pode ser justificada nos tribunais portugueses, vão adorar a Tia Polly, a Ada e a Esme. De copo na mão, aí vão elas para o fórum lutar pelo voto.

 

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A BBC sempre nos habituou a excelência nas séries de época. Peaky Blinders não é excepção. Chega a exceder o patamar elevado. Da fotografia ao argumento, do guarda-roupa aos sotaques, está tudo pensado ao pormenor. Não é fácil retratar violência, crime, sexo, sem cair em algum tipo de vulgaridade. A série está recheada de tudo isso mas nunca ultrapassa uma certa elegância decadente.

 

Todas as temporadas de Peaky Blinders estão disponíveis na Netflix. Se não possuem o serviço, roubem a password a alguém. Levem boina.

 

Não quero ser "aquela pessoa" que vos manda ver a série x ou y porque é fenomenal. É meio caminhado andando para perderem a vontade. Mas… Vejam a série.

 

 

 

Conviction: Hayley Atwell merecia melhor

Se Shonda Rhimes desenvolvesse uma série sobre uma filha de Bill e Hillary Clinton, seria provavelmente parecida com «Conviction», talvez com um pouco mais de factor-choque e menos previsibilidade. Mas, apesar de ser uma série da ABC – e nos lembrar constantemente o universo de «Scandal» e «Como Defender um Assassino» –, não estamos em "Shondaland". A série, lançada em 2016 e (re)exibida pela FOX Life a partir de segunda-feira, 30, foi cancelada após um 'afastamento' progressivo e nada subtil. [Texto escrito aquando da estreia em Portugal]

 

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Hayes Morrison, interpretada pela brilhante Hayley Atwell, vem juntar-se ao leque de protagonistas femininas do canal norte-americano e, numa versão ficcional e hercúlea na linha de «Making a Murderer», tentará tirar os inocentes da prisão. A jovem advogada, filha de um ex-Presidente dos EUA e de uma candidata ao Senado – a lembrar os Clinton –, passa a encabeçar a unidade Conviction e, já se sabe, irritar todos aqueles que foram responsáveis pela condenação dos presos cujos casos voltam a estar em análise. Para castigar ainda mais a falta de originalidade da série, soube-se entretanto que, na terceira temporada de «Como Defender um Assassino», Annalise Keating (Viola Davis), terá uma equipa a defender pro bono quem não teria ajuda de outra forma.

 

Contudo, Hayes não assume as novas funções por vontade própria, mas sim porque Conner Wallace (Eddie Cahill), o procurador público, a usa como derradeiro golpe de marketing da sua unidade. Tudo porque ela começa a série atrás das grades, após ser detida por posse de cocaína, e Wallace, ameaçando um escândalo público, aproveita para desenhar um acordo que o favoreça. Mais conhecido pelo seu papel como Don Flack em «CSI: Nova Iorque», Cahill estava desaparecido desde «Under the Dome», sendo uma das agradáveis surpresas de um elenco muito promissor. Destaque também para o regresso de Emily Kinney, a eterna Beth de «The Walking Dead», Shawn Ashmore, de «Os Seguidores», e Merrin Dungey, de «A Vingadora». Já Manny Montana e Daniel Franzese, que conquistaram o público em «Graceland» e «Looking», respetivamente, também marcam presença entre as personagens principais.

 

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A ABC está claramente interessada em manter a londrina Hayley Atwell [que em breve será uma das estrelas da minissérie «Howards End», da BBC] – que apresenta aqui um sotaque americano perfeito –, apesar de ter cancelado «Agent Carter» ao fim de duas temporadas, mas a nova aposta do canal oferece-lhe um papel tão aumentado (e exagerado) que, na prática, acaba por ser redutor perante as suas capacidades. No primeiro episódio de «Conviction», Hayes consegue deambular por todas as variações da sua personalidade: apresentada de uma forma sexy atrás das grades, ela é uma pessoa revoltada e bastante calculista, mas depressa percebemos que tudo não passa de uma defesa e ela, afinal, até tem um bom fundo.

 

Não obstante, é profundamente irónico criticar a construção da protagonista quando Liz Friedman, uma das criadoras e argumentistas de «Conviction», já integrou a lista de produtores e escreveu para séries com personagens femininas muito fortes, como é o caso de «Xena – A Princesa Guerreira», «Orange is the New Black» ou «Jessica Jones». Mas a verdade é que a advogada Hayes Morrison se perde na falsa complexidade de ser uma "bad girl" com um bom fundo, que não revela a ninguém. O truque é antigo e, neste caso em concreto, está longe de resultar.

 

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A fórmula do "bad boy”/“bag girl" é das mais usadas em cinema e televisão e, se ainda ponderássemos dar o benefício da dúvida, temos a confirmação que é mesmo o caso quando, depois de uma conversa emocionante com a mãe Harper (Bess Armstrong), Hayes mostra o seu lado de filha amargurada e deixa escapar algumas lágrimas. Este é, aliás, um momento decisivo para a personagem, que deixa de ver a história de Odell (Maurice Williams), o condenado que tentava inocentar, como o caso de "apenas" mais um jovem negro e interessa-se por conhecê-lo melhor. A revelação é de tal forma profunda que, no final do episódio piloto, Hayes garante a Wallace que não a tem na mão como pensava e que usará a unidade Conviction para fazer justiça – indo, inclusivamente, atrás dos casos do procurador. Na prática, a hipérbole emocional, que revoluciona a um ritmo rápido a narrativa, reduz a redenção da protagonista a 40 minutos.

 

O piloto tem claramente o propósito de nos apresentar as personagens, criando expectativas perante o que se avizinha, mas isso acontece a um nível demasiado amplo. Cada elemento da sua equipa, que Hayes não pôde escolher, é um estereótipo de uma profissão ou de uma situação que, mais cedo ou mais tarde, trará consequências para a narrativa. Por exemplo, Maxine Bohen (Merrin Dungey), uma brilhante ex-detetive da NYPD, filha de um membro exemplar da polícia, começa por defender a profissão a todo o custo, mas acaba por se render às evidências quando um ex-protegido do pai, Jim McNally (John Kapelos), revela o seu passado corrupto. Mais uma storyline com algum potencial que se decifrou logo no primeiro episódio...

 

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Por outro lado, não demorou muito a acontecer a sexualização da personagem. Sendo expectável, e até natural, numa série como esta, o constante uso do corpo de Hayley Atwell, seja através do choque ou de fatos provocadores, parece demasiado forçado. Além disso, a tensão sexual com Wallace, com quem a protagonista até poderá ter-se envolvido no passado, deixa desde logo adivinhar o que «Conviction» nos poderá reservar no futuro. Perante o elenco que temos, é uma pena. Hayley Atwell já provou a sua versatilidade e potencial, mas, olhando para a série que ocupará a sua agenda nos próximos tempos, e caso o argumento não melhore ou se afaste dos traços de “novela”, será [e foi mesmo] um desperdício de talento.

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

Stranger Things: Um Novo (E Igualmente Assustador) '1984'

Monstros, 'putos' com talento e uma carta de amor exacerbante aos anos 80. E aos filmes dessa década mágica que alimentaram a nossa imaginação. «Stranger Things» é isto, e muito mais. Uma das melhores séries de 2016 regressa (finalmente!) esta sexta-feira, 27, à Netflix.

 

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"Darkness falls across the land/The midnight hour is close at hand/Creatures crawl in search of blood/To terrorize y'all's neighborhood" [Thriller, Michael Jackson, 1982 – usada no primeiro trailer da segunda temporada de «Stranger Things»].

 

Os anos 80 carregam consigo uma dose absurda de fascínio e melancolia. Foi a década em que regressámos ao futuro, caçámos fantasmas, Elliott encontrou o extraterrestre, Harrison Ford consolidou o estatuto de durão (e sex symbol) – eternizado como Deckard, Indiana Jones e Han Solo – e se lançaram filmes de culto como «Shining» (1980), «Pesadelo em Elm Street» (1984), «O Clube» (1985) e «A Princesa Prometida» (1987). Foi também a época em que testemunhámos o nascimento das sagas Die Hard, Exterminador Implacável e Karaté Kid, e vimos Michael Jackson chamar o 'moonwalk' de seu em palco e na televisão. Totalmente enfeitiçados por esta década, os irmãos Duffer escreveram-lhe uma carta de amor épica em «Stranger Things» e nós – os 'geeks', os bebés dos anos 80, os saudosistas, os 'papa-maratonas', ou os (apenas) curiosos – fomos atrás.

 

Os gémeos e criadores Matt e Ross Duffer revisitam, na segunda temporada de «Stranger Things», que estreia a 27 de outubro, o ano em que nasceram, 1984. No entanto, pelo menos no mundo da ficção, é crónico que a viagem a este ano nunca é fácil: foi ele que inspirou a distopia – controlada pelo 'Big Brother' – 1984, que George Orwell escreveu em 1949; e foi nesse ano que Margaret Atwood, assombrada pela Berlim destruída pela guerra e separada pelo muro, escreveu O Conto da Aia, que seria publicado em 1985 – e que deu origem à série «The Handmaid’s Tale», a mais premiada nos Emmys de setembro. A julgar pelo final da temporada passada de «Stranger Things» e pelos trailers já divulgados, não se adivinha melhor sorte para os habitantes da ficcionalizada Hawkins, no estado da Geórgia.

 

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Renovada já para uma terceira temporada, a série da Netflix deverá terminar, segundo os próprios criadores, na quarta. Mas o conforto de não terem de lutar pela renovação não deu, ainda assim, descanso às personagens. Sabemos o que fizeram no verão passado, mas, com o Halloween – e o desconhecido – à porta, ninguém está a salvo do Demogorgon e companhia – e os dois trailers divulgados só abriram ainda mais o apetite. Do tabuleiro para o 'Dragon's Lair', de 1983, das incontornáveis máquinas de jogos arcade, Will (Noah Schnapp), Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) têm pela frente um novo monstro, com Will a manter uma indesejável ligação direta ao 'Upside Down'. Assim, tal como aconteceu em 2016, mal as personagens de «Stranger Things» se aproximam do pequeno ecrã, o hype trata do resto.

 

O artigo poderá ser lido, na sua totalidade, na edição número 54 da Metropolis.

 

The Good Doctor: Preservar o Legado de Dr. House

O drama médico mais promissor dos últimos anos marca o regresso de David Shore, o criador de «Dr. House», ao género que o consagrou. O piloto convence e «The Good Doctor» até já bateu «A Teoria do Big Bang» em termos de audiência, nos Estados Unidos. Estreou dia 25, quarta-feira, no AXN, às 23h10.

 

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Ainda não chegou a Portugal e já faz estragos lá fora. No passado dia 9 de outubro, o terceiro episódio de «The Good Doctor», da ABC, entitulado "Oliver", surpreendeu tudo e todos ao bater a titularíssima de audiências «A Teoria do Big Bang», da CBS. A história conta-se em poucas palavras: com 18.2 milhões de espectadores contra 17.9, «The Good Doctor» conseguiu, em semanas, aquilo que pouquíssimos conseguiram ao longo dos últimos 10 anos – destronar a popular comédia em confronto direto. A dar os primeiros passos no pequeno ecrã, a série criada por David Shore, o responsável pelo incontornável «Dr. House», encheu o peito e está pronta a enfrentar (e conquistar) até aos seriólicos mais céticos.

 

Mas desenganem-se, este não é o típico confronto de David contra Golias. A qualidade de «The Good Doctor», inspirada na homónima coreana de 2013, é inegável. Sobretudo se tivermos em conta que os dramas médicos são uma constante a cada nova temporada, mas a quantidade, pelo menos nos últimos anos, não tem encontrado correspondência na qualidade. Embora os bastidores dos hospitais continuem a habitar o horário nobre de muitos canais, apenas «Anatomia de Grey» e a britânica «Doctors» têm, na história recente da televisão, mantido a sua popularidade – «General Hospital» é um fenómeno à parte, já vai em 55 temporadas. No entanto, no rescaldo da saída de Shonda Rhimes da ABC para a Netflix, o destino de «Anatomia de Grey», estreada em 2005, pode assumir contornos trágicos… como acontece à generalidade das suas personagens.

 

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Passemos à premissa – arriscada e promissora – de «The Good Doctor». Se achava que o final de «Bates Motel» ia ditar o afastamento de Freddie Highmore, ou o seu regresso mais assíduo ao grande ecrã, surpresa: o miúdo maravilha que fez da prequela de «Psico» (1960) – «Bates Motel» – um sucesso está de regresso. Freddie interpreta o protagonista Dr. Shaun Murphy que, tal como acontecia com House (Hugh Laurie), promete ser uma verdadeira dor de cabeça para os colegas. Isto porque, apesar da sua reconhecida genealidade, Shaun transporta consigo os fantasmas de um passado traumático, e o risco de afetar irremediavelmente o futuro. Tempos opostos que se atraem como um íman, e que puxam Shaun de forma igualmente poderosa, deixando-o num limbo chamado presente.

 

E que presente é esse? Shaun é um cirurgião jovem em vias de ser contratado pelo Hospital St. Bonaventure – isto se o Dr. Aaron Glassman (Richard Schiff), o diretor, vencer a batalha hercúlea que tem pela frente: convencer os seus pares. Autista e com savantismo (síndrome do sábio), Shaun tem uma inaptidão crónica para interagir socialmente e, como seria de esperar, para trabalhar da maneira expectável. A lembrar uma utopia onde o Anjo Bom tem de coexistir com o Anjo Mau, Shaun tem de lidar com dificuldades aparentemente banais que, para ele, se vão revelar tão ou mais exigentes que o golpe preciso de um bisturi. No entanto, já vimos pela amostra em «Dr. House», de onde «The Good Doctor» retira muito do seu espírito, que nem sempre a normalidade oferece os melhores resultados.

 

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Em "Burnt Food", o primeiro episódio da série, o (pontual) realizador Seth Gordon empresta ao drama médico a suavidade que aplicou já em sete episódios de «Os Goldberg» e até em «Baywatch: Marés Vivas» (2017). Focado em cada um dos intervenientes como uma individualidade complexa, Gordon usa a câmara como um mero espectador, invasivo – ainda que colocado num ponto privilegiado, o que intensifica ainda mais a presença das personagens. Esta visão, saudavelmente manipuladora, acaba por beneficiar o argumento, acelerando os processos e a nossa perceção das personagens e do que podemos esperar delas. Por vezes são apenas questões pormenor mas, quando recebemos informações novas em catadupa, a determinação de Gordon é uma reconhecida mais-valia para o piloto. Além disso, o facto de se optar pela ilustração gráfica do pensamento de Shaun – tornando-a visível para nós – desmistifica o seu raciocínio e retira a magia da narrativa, pelo que, em contrapartida, a sustenta na lógica. E nós agradecemos.

 

«The Good Doctor» é uma lufada de ar fresco nas séries de temática médica e, também, numa rentrée televisiva recheada de ideias recicladas e super-heróis. Como extra, a série traz para a linha da frente, entre outros, um trio portentoso: a talentosa Antonia Thomas («Misfits», «Lovesick»), Nicholas Gonzalez («Sleepy Hollow», «Pequenas Mentirosas») e Hill Harper, que conta no currículo com passagens duradouras por séries como «CSI: Nova Iorque» (197 episódios), «Agente Dupla» e «Sem Limites». Sem grandes truques ou alarido, «The Good Doctor» quer reclamar o lugar que antes pertencia a «Dr. House», terminada em 2012, e que séries como «Chicago Med», «Code Black» e «O Turno da Noite» foram incapazes de ocupar.

 

Texto originalmente publicado na Metropolis.

 

Aluga-se Blog #1 - Star Trek: Voyager, por Samafs

Aye, o meu nome é Samafs e sou a Capitã da U.S.S. Trekflix, quem é como quem diz: tenho uma nave onde exploro séries e filmes neste universo e a partir da qual vos escrevo sobre o que podem encontrar em cada mundo televisivo ou cinematográfico que visito.

 

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Perder-se pelo espaço nunca foi tão divertido (e desafiante!).

Durante 7 temporadas, de 1995 a 2001, Star Trek: Voyager viajou pelo quadrante delta, cerca de 70,000 anos luz (75 anos), de regresso a casa. É uma longa viagem, principalmente não sendo intencional – durante uma missão em busca de uma nave Maquis (organização paramilitar e grupo terrorista nos termos da Federação), a nave Voyager entra numa perigosa zona do espaço e, durante essa altura, é transportada juntamente com a nave Maquis para a zona da via láctea menos explorada pela Frota Estrelar, a uma vida de distância de casa e sem saber o que irá encontrar pelo caminho. Mas a Frota Estrelar não seria a Frota Estrelar se apenas quisesse regressar sem explorar, finalmente, o quadrante delta, certo? E é aqui que a viagem começa a ficar interessante.

 

Inimizades tornam-se companheiras de viagem e, eventualmente, amizades. Para regressar a casa, tanto a U.S.S. Voyager como a nave Maquis terão que trabalhar em conjunto – e é isso que acaba por acontecer. Mas até aqui nada de extraordinário, não é? Então vamos falar no que diferencia Star Trek: Voyager de toda a franquia Star Trek e de outras séries do género.

 

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Primeiro, e isto é importante, lembrem-se que a série existiu na segunda metade dos anos 90 até 2001. É importante reiterar isto porque é importante dizer: A Capitã da U.S.S. Voyager é uma mulher. Não apenas é a primeira mulher ao comando de uma nave na franquia Star Trek como é uma mulher a liderar um elenco nos anos 90. O nome é Kathryn Janeway e é interpretada por Kate Mulgrew (sim, a Red de Orange is The New Black!). A sua liderança jamais é questionada, as decisões são difíceis mas são tomadas e as suas características, enquanto capitã e enquanto pessoa, não são masculinizadas para ter de ser levada a sério.

 

E não, não foi nenhum favor de representatividade que o universo nos fez, porque a importante e interessante presença feminina não se fica pela Capitã: há mulheres em cargos de comando, tanto na nave como no universo, e personagens que são mulheres muito interessantes ao longo da viagem e que nos ajudam a explorar os mais variados assuntos através de um ponto de vista totalmente novo e completamente válido (e especialmente se mentalmente regressarmos aos anos 90). E por "variados assuntos" quero dizer mesmo tudo o que se pode querer ou se deve reflectir e debater em termos sociais, mentais, emocionais e até espirituais. Ao estilo dos procedurais – um episódio, uma história – a série explora, metafórica ou literalmente, assuntos como a escolha de ter ou não ter filhos, a violência na infância, crenças, sexualidade (feminina, até. E sem vergonha!), manipulação genética, questões psicológicas, (pós-)morte, crimes de guerra, direitos humanos, dualidade no que somos e no que fazemos e tudo o que a vida tem para reflectir se soubermos ver mais além de nós e do imediato. Não é apenas ficção científica, é filosofia acima de tudo.

 

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Star Trek: Voyager é, sem dúvida, a mais feminista de todas as séries da franquia e uma das mais feministas da altura (qualquer dia falaremos de Buffy e de Xena). E, por isso mesmo, é também a mais odiada. Mas enganem-se se acham que isso dita a qualidade da série. Pelo contrário e é por isso que a recomendo (mesmo para quem nunca viu Star Trek noutra vertente). Mesmo num universo como este onde a utopia está na inclusão de toda a gente, é difícil pedir que se aceite várias mulheres no comando sem questionar a sua liderança (pelo menos sem o fazer por motivos de género). E é por isso que ninguém pediu nada, a U.S.S. Voyager chegou, explorou e continuou durante 7 anos num universo de críticas para se tornar um clássico televisivo que merece ser explorado.

 

 

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