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TV KILLED THE CINEMA STAR

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Absentia: o Grito do Ipiranga de Stana Katic

A nova série do AXN Portugal promete, e muito. Tanto que se arrisca a não ser capaz de cumprir. Com um argumento sólido e um elenco mais fraco do que «Castle», «Absentia» arrisca-se a depender, em demasia, da sua atriz principal.

 

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É, de certa forma, irónico que a atriz Stana Katic – mais conhecida pelas oito temporadas em «Castle» – diga 'presente' com uma série baseada na ausência da protagonista a que dá corpo, Emily Byrne. Seis anos depois do seu desaparecimento – e da condenação do presumível culpado –, a agente do FBI é resgatada pelo marido Nick Durand (Patrick Heusinger), que refez a sua vida, e a do filho, ao lado de outra mulher, Alice (Cara Theobold). O mote de «Absentia» só fica completo com um ingrediente brutal: Emily não se recorda de nada do que aconteceu enquanto esteve em cativeiro. Eis as peças de um dos puzzles mais apetecíveis da nova temporada televisiva.


A realização sombria e fria de «Absentia» lembra obras entretanto desaparecidas como «Game of Silence», «The Bridge» ou «The Killing», alimentando o mistério com uma forte dose de intriga no argumento. Assim como acontecia nas séries mencionadas, a narrativa é sustentada pelas personalidades fortes que compõem o elenco, ainda que em «Absentia» tal se resuma essencialmente a Stana. Os restantes atores, competentes, são evidentemente menos carismáticos e, a espaços, não conseguem atingir as exigências emocionais da cena. O que, em contrapartida, é compensado pela forma como a sequência é filmada e pela 'banda sonora' crua e direta que a acompanha.

 

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A premissa é complexa e tem a seu favor o facto de conseguir prender o espectador: Emily Byrne pode, afinal, não ser tão vítima quanto parece. Neste momento, a audiência deixa de ser apenas observadora para, do conforto do sofá, criar uma relação com a personagem principal. Assim que se envolve, não há volta a dar – estamos ‘agarrados’ para mais um episódio. Ao contrário do que acontecia em «Castle», Stana não partilha sorrisos nem piadas, algo que era imagem de marca de Kate Beckett, nomeadamente na interação com Richard Castle (Nathan Fillion). Embora não surpreenda no género, uma vez que a atriz se mantém como agente da autoridade, o papel é mais denso e obscuro – e a série não tem qualquer momento de humor.


Contra si, «Absentia» tem-se a si própria. Com uma ideia tão ambiciosa, a maior ameaça ao sucesso da série é não ser capaz de responder às exigências que cria logo no primeiro episódio. Além disso, o facto de o elenco ser genericamente ‘esquecível’, à excepção de Stana e do vilão anunciado Conrad Harlow (Richard Brake) – e de alguma surpresa que surja entretanto –, enfraquece o argumento e as interações entre as personagens. Como tal, «Absentia» arrisca-se a não passar de um golpe de marketing suportado pela atriz que, como se percebeu com o cancelamento de «Castle» na sequência do anúncio da sua saída, tem fãs capazes de influenciar decisões.

 

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Às margens do Ipiranga, a 7 de Setembro de 1822, aquele que viria a ser proclamado Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, defendeu a independência do nosso ‘país irmão’. O momento, preservado pela História, ficaria conhecido como o "Grito do Ipiranga". A história do 'grito' da atriz Stana Katic, que até há pouco tempo dava vida a Kate Beckett em «Castle», é bem menos emblemático, mas igualmente sinal de uma luta pela independência – que pode não ter o mesmo final feliz.


Pouco ou nada se destaca no currículo de Stana além de «Castle». Entre 2009 e 2016, a atriz dedicou-se quase em exclusivo à série coprotagonizada com Nathan Fillion. Ao contrário de Beckett, o desfecho da atriz não foi feliz: depois de uma renovação de contrato complicada, onde exigiu um (merecido) aumento, Stana entrou para a oitava temporada com a sentença de despedimento escrita. Dúvidas houvesse, a produção anunciou perto da finale que, para reduzir custos, iria dispensar Stana e Tamala Jones, que interpretava Lanie; além de limitar os locais de filmagens. A revolta dos fãs da atriz foi tão audível que a ABC não teve outra hipótese senão cancelar a série e avançar com o final alternativo em que Beckett, afinal, não morria. Será que os ‘Stanatics’ vão ter a mesma força para renovar «Absentia»?

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na Metropolis.

Emmys: A Noite em Que as Aias Venceram Androides e Demogorgons

Costuma dizer-se que tudo o que sobe, desce. Que o digam «Stranger Things» e «Westworld», as séries mais populares e as mais nomeadas aos Prémios Emmy, que levaram a melhor apenas em categorias técnicas. Estas histórias, entre a distopia e o terror, foram derrotadas contundentemente por uma outra, mais humana e talvez mais aterrorizante, «The Handmaid's Tale». A HBO perdeu «A Guerra dos Tronos», mas foi o canal mais premiado da noite de 17 de setembro: valeu-lhe «Big Little Lies» e «Veep».

 

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Dando uso ao seu papel de narradora, Elisabeth Moss critica o facto de não chamarem Margaret Atwood para falar 

 

Foi uma das caminhadas vitoriosas mais demoradas de que há memória, e nem foi preciso câmara lenta. Aos 77 anos, Margaret Atwood, que em 1985 publicou o livro O Conto da Aia, subiu ao palco para participar - com toda a justiça - na coroação da 'sua' «The Handmaid's Tale», a grande vencedora da noite, que conseguiu um total de oito estatuetas (cinco delas pelo episódio piloto, Offred). Uma vitória a todos os níveis, se considerarmos que as quatro 'derrotas' foram em duas categorias técnicas e em disputas onde contava com nomeações duplas - Ann Dowd levou a melhor sobre Samira Wiley em Melhor Atriz Secundária, e Reed Morano ultrapassou Kate Dennis, tornando-se a primeira mulher premiada por realização em Série Dramática.

 

Já se sabia que era um ano de mudanças. Para começar, «A Guerra dos Tronos», eleita Melhor Série Dramática em 2015 e 2016, e Tatiana Maslany, recém-saída da series finale de «Orphan Black» e Melhor Atriz em Drama há um ano, estavam fora das contas. A Academia considera apenas conteúdos lançados entre 1 de junho de 2016 e 31 de maio de 2017, pelo que a estreia tardia de ambas as séries 'castigou' o seu eventual sucesso nos Emmys. Além disso, o fim de sucessos como «Downton Abbey»«The Good Wife» abriu também caminho a novas entradas. Das suas cinzas, ressurgiam a omnipotente HBO e a Netflix; esta última com o recorde de nomeações e em busca do primeiro Emmy de Melhor Série para um serviço de streaming. No entanto, ao contrário do que se esperava, não foram a Netflix nem a Amazon Prime, os dois streamings mais populares, a conseguir esse feito histórico: foi o Hulu - uma aposta conjunta da NBC Universal, News Corporation, Providence Equity Partners e The Walt Disney Company. Apenas um dos nomeados correspondeu ao hype em torno de si: o Saturday Night Live, o programa mais vencedor da noite com nove estatuetas (em 22 possíveis).

 

Alec Baldwin sambando na 'cara das inimigas'

 

A ingenuidade em atribuir automaticamente o favoritismo a «Westworld» e «Stranger Things», nomeadas para 22 e 18 categorias, respetivamente, tem uma culpada demais evidente: «A Guerra dos Tronos». Desde que a votação das categorias de Melhor Série foi aberta a todos os votantes que o hype tem reinado: tanto a série baseada na obra de George R.R. Martin como «Veep» têm sido invencíveis. No entanto, há um pormenor que pode ter feito toda a diferença: as duas séries mencionadas acabam, habitualmente, perto do arranque da votação, pelo que chegam à fase decisória no auge da sua popularidade. Como esquecer o domínio do episódio Battle of Bastards, o mais sangrento da sexta temporada, na 68ª edição dos Emmys, em setembro de 2016?

 

Nem «Westworld» nem «Stranger Things» conseguiram qualquer Globo de Ouro na sequência das suas parcas nomeações. Ainda assim, nada que pudesse antecipar um resultado tão desastroso nos prémios do passado fim de semana, até porque «A Guerra dos Tronos» soma apenas uma vitória em seis temporadas: Peter Dinklage levou, em 2012, o Globo de Ator Secundário. «Stranger Things» tinha do seu lado algo que «A Guerra dos Tronos» nunca conseguiu, o Prémio Screen Actors Guild de Melhor Elenco em Drama, mas tinha contra si um factor bem mais corpulento: é feita pela Netflix. O descontentamento da indústria pelo serviço é demais conhecido, e fez-se ouvir bem alto há poucos meses, em Cannes, onde teve pela primeira vez - e talvez última - uma longa-metragem a concurso. «Westworld» é do mesmo canal de «A Guerra dos Tronos», a HBO, mas já era de suspeitar o fracasso: é que a sorte da família Nolan em cerimónias de prémios é nula, e a série tem como criadores Jonathan Nolan, o irmão de Christopher, e a esposa, Lisa Joy.

 

Um androide em particular mostrou-se muito descontente com o resultado

 

Na cerimónia do ano passado, Donald Trump, então apenas candidato à Casa Branca, foi motivo de chacota: "Se não fosse a televisão, será que Donald Trump estaria na corrida para ser Presidente? Não. Estaria agora em casa, a esfregar-se calmamente na sua mulher 'Malaria', enquanto ela fingia que estava a dormir", foi um das piadas do apresentador de 2016, Jimmy Kimmel. No entanto, a mesma audiência que não levou Trump a sério há um ano, e que foi provavelmente a mais crítica - a par com os Globos de Ouro -, foi ainda mais direta desta vez. Tal como já aconteceu noutras cerimónias, os votos foram incontornavelmente políticosAlec Baldwin Kate McKinnon animaram o período de campanha, caricaturizando Donald TrumpHillary Clinton, e o rescaldo da vitória de Trump, assim como Melissa McCarthy na inesquecível interpretação de Sean Spicer, ex-secretário da Imprensa.

 

A crítica da organização subiu de tom e levou ao palco o próprio Spicer, que, assim como após a Inauguração de Trump, defendeu acerrimamente que os Emmys deste ano seriam os mais vistos de sempre - sem que as evidências o sustentassem. Mas será que vale tudo? Sean Spicer foi uma das figuras mais criticadas na Presidência de Trump, desde logo pelos seus "factos alternativos", tratando a informação como algo subjetivo que era modulado consoante lhe convinha (e ao Presidente). De inimigo a amigo foi um passo, já que, com a sua saída pouco amigável da Casa Branca, também ele passou a estar do lado dos descontentes. Só que o seu aparecimento inesperado nos Emmys serviu como uma espécie de retratação pública, que em nada dignificou a Academia. O mesmo momento poderia ter sido protagonizado por Melissa McCarthy, novamente como Spicer, o papel que lhe valeu um Creative Arts Emmy, prémios atribuídos dois dias antes da cerimónia principal. Também se poderá questionar porque Spicer aceitou, uma vez que acabou por ser ridicularizado pessoalmente pelos mesmos que já o tinham feito à distância. O seu aproveitamento mediático da situação revelou parte da resposta.

 

"Eu teria feito melhor". "Sim, e a trabalheira de pôr aquela laca toda outra vez?" 

 

O comentário político mais audível chegou com «The Handmaid's Tale». Trata-se, afinal, de uma sociedade distópica onde a população é totalmente controlada por uma organização ditatorial e opressiva, e onde as mulheres ocupam um lugar completamente insignificante. Vivemos numa realidade hiper-tecnológica, mas que atravessa questões sociais bastante sensíveis. Por um lado, as políticas de Trump perante os imigrantes, o seu histórico de comentários depreciativos ou sexualizados sobre as mulheres e o discurso tradicionalista têm feito eco um pouco por todo o mundo. Entre muros e entradas proibidas, já muita tinta correu - e irá certamente correr - durante a Presidência de Trump. No entanto, há também outros tópicos a 'piscar o olho' à atualidade, que ainda lida com o pós-Impeachment de Dilma Rousseff no Brasil, o regime da Coreia do Norte e a desigualdade social nas diferentes formas que assume.

 

Não se pode, evidentemente, exigir um argumentista, realizador ou ator que seja interventivo na receção de uma estatueta. Muitos americanos (e não só) têm-se vindo a mostrar, aliás, fartos da dose política que as cerimónias de prémios têm adotado, sobretudo depois do discurso de Meryl Streep nos Globos de 2016, que pode não ter resultado num Óscar, mas lhe mereceu uma adjetivação trumpiana: sobrevalorizada. Donald Trump critica o lobby de Hollywood, e há quem defenda o mesmo: as críticas são vistas como amuos injustificados e, em certa parte, perdem, com isso, parte do efeito que poderiam ter. Ainda assim, os comentários políticos e sociais nestes momentos, em que o mundo está atento, ganham superior importância - seja na Presidência de Trump ou na de outro qualquer agente político ou social. Mostram que há figuras, cuja voz se pode ouvir, que estão atentas - e que querem que o público também se faça ouvir.

 

Reese Witherspoon jura que sabe fazer mais do que comédias românticas, mesmo que não tenha um Emmy para prová-lo

 

Posto isto, porque passaram as questões sociais e políticas ao lado dos discursos vitoriosos de «The Handmaid's Tale»? Ao contrário de Nicole Kidman, Melhor Atriz de Minissérie por «Big Little Lies», que frisou a violência doméstica, ou de Donald Glover, de «Atlanta», que 'limpou' dois prémios em Comédia e agradeceu com muita ironia a Trump, o elenco e responsáveis pela série da Hulu evitaram puxar a história para o seu lado político. Que é muito forte e contribuiu certamente na hora da votação. Nem mencionaram o lado social da história imaginada por Margaret Atwood, que alerta ficcionalmente para os perigosos do poder e da desatenção da sociedade, já que o controlo é algo dado como garantido, mas pode ser perdido num instante. Elisabeth Moss, Melhor Atriz em Drama, também não fez qualquer reparo mais crítico: curiosamente, a atriz pertence à Cientologia e tem sofrido várias críticas nesse sentido, nomeadamente perante as semelhanças entre a religião que segue e a República de Gilead.

 

«Black Mirror» não é um elemento externo a esta discussão. Com episódios independentes entre si mas fortemente apoiados em distopias, sociedades humanoides e excessos, a série venceu os dois primeiros Emmys. San Junipero venceu como Melhor Argumento e foi eleito o Melhor Filme para Televisão do ano.

 

Sterling K. Brown bisou, depois da vitória em 2016 por «O Caso de O.J. – American Crime Story». O interpretação de um dos Big 3 em «This is Us» valeu-lhe o Emmy de Melhor Ator em Drama. Ainda não foi desta, Kevin Spacey. Nota negativa para a organização, que além da música alta para cortar o discurso, tirou mesmo o som ao microfone, filmando de seguida um plano bem distante, de forma a tentar disfarçar o ocorrido - e o descontentamento do ator.

 

Ann Dowd foi a única indicada ao Emmy pela temporada final de «The Leftovers», que passou completamente à margem da cerimónia. No entanto, Ann acabou por vencer graças ao seu papel em «The Handmaid's Tale», numa categoria muito disputada, onde se encontravam atrizes de «Westworld», «Stranger Things» e «Orange is the New Black», além de Samira Wiley, colega de elenco. Nem a própria atriz conseguiu esconder a surpresa ao ouvir o seu nome.

 

No prémio menos esperado da noite, uma vez que se sabe à partida quem vai ganhar, Julia Louis-Dreyfus levou mais um Emmy para a sua coleção. Desde o arranque de «Veep» que a atriz só sabe ganhar e não tem dado qualquer hipótese à concorrência - no total, já soma seis estatuetas pela série. Na carreira são oito, venceu um por «Seinfeld» e outro por «The New Adventures of Old Christine».

 

Haveria alguém capaz de fazer frente a Jeffrey Tambor, o Melhor Ator em Série de Comédia por dois anos seguidos? Donald Glover provou que sim e arrasou com a sua «Atlanta», levando a melhor sobre o ator de «Transparent». Não conseguiu foi derrotar «Veep», que tem saído sempre vitoriosa desde que a votação de Melhor Série foi aberta a todos os votantes, em 2015.

 

Alexis Bledel, mais conhecida pelo papel 'fofinho' em «Gilmore Girls», venceu o Emmy de Melhor Atriz Convidada em Drama por um episódio onde não falou. Apenas com recurso às suas expressões, a atriz conseguiu passar todas as emoções da personagem, em bastante sofrimento, e foi premiada com o primeiro prémio de destaque da carreira.

 

Depois dos Globos de Melhor Atriz e Série em Drama, «The Crown» até parecia uma candidata séria aos Emmys. No entanto, nas categorias principais, venceu apenas com John Lithgow em Melhor Ator Secundário, pela sua interpretação de Churchill.

 

Lena Waithe escreveu com Aziz Ansari o argumento do episódio de «Master of None» onde a sua personagem revela que é homossexual. A atriz inspirou-se na própria história para contar a de Denise, pelo que foi com naturalidade que Aziz se afastou no palco e permitiu a Lena saborear o momento.

 

A oposição era de respeito: Benedict Cumberbatch, Robert De Niro, Ewan McGregor, Geoffrey Rush e John Turturro, mas foi  Riz Ahmed a levar a melhor como Melhor Ator em Minissérie, por «The Night Of».

 

O irmão Bill até pode estar em altas pelo sucesso de «It», no qual é o temível palhaço protagonista, mas foi Alexander Skarsgård a fazer a festa no domingo, 17. O ator foi eleito o Melhor Ator Secundário em Minissérie, por «Big Little Lies». E até levou um beijinho da 'esposa' Nicole Kidman.

 

 

 

 

 

Midnight, Texas: Não é 'Bon Temps', Mas Podia Ser

É a melhor cura para a ‘ressaca’ da série «True Blood», que terminou em 2014. Da mesma autora, Charlaine Harris, «Midnight, Texas» apresenta uma premissa sedutora, mas as personagens parecem tiradas a papel químico das anteriores.

 

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A real, mas ficcionada, localidade de Bon Temps, antigo palco de «True Blood», é substituída pela imaginada Midnight que, embora fique no estado do Texas, teve como palco, nas gravações da primeira temporada, o Novo México. Aparentemente banal, Midnight é habitada por um sem-fim de figuras sobrenaturais, que encontram ali o conforto necessário para manterem uma vida minimamente normal (ou assim pensavam). No entanto, é também ali que o Mundo dos Mortos está mais próximo do Mundo Real, separado por uma barreira perigosamente ténue. E, quando um dos habitantes é assassinado, nada voltará a ser como antes.

 

Com réstias do humor que nos conquistou em «True Blood», «Midnight, Texas» tem a clara vantagem de ter um protagonista, Manfred Bernardo (François Arnaud), bem mais carismático do que Sookie Stackhouse (Anna Paquin). Além disso, ao contrário do que acontecia com a estrela maior da série desenvolvida pela HBO, os azares sofridos por Manfred não se apresentam por acaso, já que estão intimamente ligados aos seus poderes de medium, que o deixam mais susceptível ao universo sobrenatural que habita Midnight. Ainda assim, o seu interesse amoroso, Creek (Sarah Ramos), parece um ‘clone’ de Sookie (e também trabalha num restaurante!).

 

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Para quem tem saudades de Pam (Kristin Bauer van Straten) e Eric (Alexander Skarsgård), há Olivia (Arielle Kebbel) e Lemuel (Peter Mensah). Para quem não esquece Sam Merlotte (Sam Trammell), os dotes de transformação surgem reiventados no reverendo Emilio Sheehan (Yul Vazquez). E, sem grande esforço, poder-se-ia nomear outros atributos ou traços de personalidade que parecem ‘clonados’ de «True Blood». Embora isso não seja necessariamente uma crítica, ganha contornos negativos quando força uma comparação entre as duas séries, com «Midnight, Texas» a revelar-se bem mais simples, com um elenco menos emblemático – ninguém é capaz de esquecer atores como Nelson Ellis, que faleceu recentemente, ou Carrie Preston – e com um humor menos feroz.

 

Em contrapartida, há mais equilíbrio para os lados do Texas, com as narrativas bem encaixadas e doses de mistério fortes o suficiente para manter o espectador ‘agarrado’ episódio após episódio. Sem grande alarido, «Midnight, Texas» cumpre o seu papel enquanto série de entretenimento, doseando os momentos de desenvolvimento das personagens e o lado predominante, o paranormal. Ainda assim, as profecias podem tramar o sucesso da série, com o (teimoso) anúncio de um ‘salvador’ que poderá mudar a sorte de Midnight. Desta forma, o místico volta a afectar o real para nos convencer da presença de um destino pensado desde o início, arriscando perigosamente uma revelação final abaixo das expetativas – depois de um hype alimentado durante vários episódios – como aconteceu, aliás, com Sookie Stackhouse em «True Blood».

 

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Apesar das imprecisões e da multiplicação de ‘clones’ no argumento, resta saber o que Monica Breen e companhia vão ser capazes de fazer com o universo de Charlaine Harris. Após o sucesso de «True Blood», que conquistou o seu lugar próprio fora dos estereótipos literários da autora, «Midnight, Texas» tem de provar que é capaz do mesmo. Não obstante, a nova série da NBC é uma boa opção para ocupar as segunda-feiras, que mais não seja como ‘guilty pleasure’.

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na Metropolis. Texto completo no link.

Desajustados: A Ironia de Cumprir o Que Promete

Das poucas certezas que tenho na vida, há duas incontornáveis: não é fácil replicar (com sucesso) na atualidade aquilo que se conseguiu com «Erva», protagonizada por Mary-Louise Parker, e nenhum ator de topo está livre de 'cair' num projeto sem interesse. Como tal, longe vai o tempo em que ter Kathy Bates no elenco era garantia de qualidade. «Desajustados» resume-se numa palavra, e ela vem logo no título.

 

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É como seguir a receita que aprendemos com a nossa avó. Acertamos nos ingredientes mas, na hora da verdade, o sabor não é o mesmo. Não há metáfora que ilustre melhor a tentativa falhada, por parte da Netflix, de conquistar os fãs perdidos de «Erva», que terminou em 2012 após oito temporadas. Comédia, marijuana e uma protagonista feminina de peso: os ingredientes estão todos lá, mas é mais o que separa as duas séries do que aquilo que as aproxima. Além disso, não há nada mais irónico, diga-se, do que apelidar de «Desajustados» uma série onde tudo parece estar... desajustado - e não no bom sentido.

 

No papel, juntar Kathy BatesChuck Lorre («Dharma & Greg»«Dois Homens e Meio», «A Teoria do Big Bang», «Vida de Mãe») e David Javerbaum («The Daily Show»«The Late Late Show With James Corden») tem tudo para dar certo. Só que depois de assistir ao resultado final, já não tenho tanta certeza. Não fosse a audiência presente, que vai soltando demasiadas gargalhadas, e, a espaços, facilmente me esqueceria que se trata de uma comédia. Isto porque, por diversas vezes, o  que é dito não tem... piada. Mas eis que surge, de rajada, um conjunto coordenado de risos que me tenta convencer do contrário. Será que estava a ter um mau dia, ou esta é realmente uma má comédia?

 

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A premissa de «Desajustados» é interessante. Se em «High Maintenance» tínhamos um vendedor que apostava na tradicional venda porta a porta, aqui temos uma loja a querer integrar-se nas novas tecnologias, nomeadamente com a aposta na divulgação via YouTube. O 'culpado' é o filho de Ruth (Kathy Bates), Travis (Aaron Moten), que quer ajudar a mãe a relançar o espaço e a atrair novos clientes. Por outro lado, pretende também lançar uma rede concessionada de novas lojas, acreditando que há por onde crescer. No entanto, tal não agrada de imediato à mãe que, para sua defesa, está, na maioria das vezes, sob o efeito do produto que vende.

 

Desta forma, como pode uma narrativa tão promissora esfumar-se logo no arranque? Porque está desajustada. Todas as personagens, de forte interesse individual, se anulam quando têm de interagir umas com as outras. Por sua vez, insistir num discurso cómico, que não tem piada - mas é sufocado com as gargalhadas do público presente-, torna a situação ainda mais desconfortável. Quer isto dizer que, além de o momento narrativo não ter o devido - e merecido desenvolvimento - cai sobre ele uma manta de retalhos (na forma de risos), que limita a já pouca profundidade inerente aos diálogos. E não, não se 'desculpa' tudo às comédias - ou, pelo menos, não se devia desculpar.

 

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Se «Desajustados» fosse um jogo de futebol, dir-se-ia que era "Kathy Bates mais 10". E, embora não duvide da capacidade da popular atriz levar uma série às costas, a verdade é que isso parece castigo quando os esforços se anunciam, à partida, como inglórios. O elenco jovem, onde se destaca Aaron Moten, que já passou por «Mozart in the Jungle»«The Night Of», é, na generalidade, bastante desconhecido e a sua inexperiência não passa despercebida. Chuck Lorre pode até já ter dado provas de que não é preciso 'comprar' uma estrela consagrada para ter uma aposta bem-sucedida mas, neste caso, a poupança nos atores pode ter um custo demasiado alto.

 

Ao contrário do que tem sido imagem de marca da Netflix, a primeira temporada de «Desajustados» não foi lançada na sua totalidade, pelo que a segunda parte das aventuras de Ruth e companhia chegará apenas em 2018. Esta estratégia pode ser interessante a curto-médio prazo, mas não para comédias como esta. Já para o espectador, a inovação pode até parecer aborrecida, mas implica uma presença mais constante das séries nas suas vidas, encurtando os hiatus de 12 meses. No entanto, se essa pausa se fizer com um cliffhanger à mistura, será que o nosso coração aguenta?

 

Narcos: Escobar morreu, mas a série continua bem viva (e recomenda-se)

Pêpê Rapazote é um dos alvos a abater por Pedro Pascal, o único protagonista que 'sobreviveu' à renovação após o fim do arco de Pablo Escobar.

 

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O inimigo do meu inimigo é meu amigo, até voltar a ser meu inimigo outra vez. A premissa da terceira temporada de «Narcos» que estreia hoje, 1, na Netflix, resume-se numa das primeiras frases ditas por Javier Peña (Pedro Pascal), que substitui Steve Murphy (Boyd Holbrook) nas funções de narrador. O cartel de Cali já marcava presença na série, mas regressa agora reforçado – quer na dimensão do elenco, quer na sua influência no negócio da cocaína na Colômbia e nos Estados Unidos. Entre os 'maus da fita', destaque para o ator português Pêpê Rapazote, que surge confiante na pele de um dos 'padrinhos' de Cali, Chepe SantaCruz Londoño.

A Netflix nunca se quis ficar por Pablo Escobar, interpretado durante duas temporadas pelo brasileiro Wagner Moura. Isso tornou-se claro quando, ao contrário do que acontece com outras biografias, optou por um título abrangente, «Narcos», ao invés do nome do famoso rei da droga colombiano, assassinado em 1993. Como tal, sempre se soube que havia muitas histórias para contar para além da de Escobar, pelo que a renovação da série para a terceira e quarta temporadas não foi propriamente uma surpresa. Fazendo jus à história, segue-se o cartel de Cali, que aproveitou a queda de Escobar para crescer.

 

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Mais do que o negócio da cocaína, este é um negócio de poder – e de quem se consegue aguentar no topo. Dos derrotados não reza a história, pelo que a substituição de Escobar é rápida e até natural. Apesar das mudanças profundas no elenco, os criadores Carlo Bernard, Chris Brancato e Doug Miro não mostram quebras na qualidade e, depois da promessa, confirmam que há mesmo mais para além de Pablo Escobar. Como pano de fundo, uma das intrigas mais interessantes no pós-Escobar, ofuscada na cultura geral pela monstruosidade que foi a vida do criminoso, mas que tem aqui a oportunidade de se fazer ouvir, à boleia da ficção.

Damián Alcázar, que continua a dar vida a Gilberto Orejuela, ganha maior destaque logo no genérico de «Narcos», surgindo em segundo lugar, a solo e após Pedro Pascal. Segue-se, assim como na hierarquia que pauta a temporada, o restante trio de reis de Cali: Alberto Ammann – Pacho Herrera, Francisco Denis – Miguel Rodriguez e Pêpê Rapazote. São estes os principais inimigos a enfrentar por Javier Peña e (nova) companhia, onde se evidenciam Chris Feistl (Michael Stahl-David) e Daniel Van Ness (Matt Whelan). No entanto, fatores como a corrupção e a conspiração voltam para atormentar a DEA (Drug Enforcement Agency), que não terá novamente a tarefa facilitada.

 

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"Como era Escobar?", "Nunca o conheci". A irrisória troca de palavras entre Peña e Stoddard (Raymond Ablack) é uma espécie de homenagem à trajetória que «Narcos» – e os espectadores – fizeram até aqui. E, se Murphy ainda testemunhou o semblante apagado do outrora grandioso Escobar, a verdade é que Peña sempre enfrentou um inimigo sem rosto. Ao contrário que acontece com o cartel de Cali que, embora tenha crescido com a atenção toda direcionada para Escobar, não se esconde, uma vez que ganha a segurança necessária na corrupção. Não obstante, e como já aprendemos nesta série, não há nada mais forte do que a sede de vingança. Nem a omnipresente realeza de Cali.


Entre as surpresas agradáveis na terceira temporada de «Narcos», destaque para os praticamente desconhecidos Arturo Castro e Andrea Londo. É difícil reconhecer o primeiro: não porque esteja diferente, mas porque está bem longe do papel simpático que lhe conhecemos das comédias. Arturo interpreta o filho mais velho de Miguel Rodriguez, que faz lembrar o mimado e prepotente Joffrey Baratheon, interpretado por Jack Gleeson em «A Guerra dos Tronos». Já Andrea Londo apresenta um currículo bem humilde no IMDb, mas surpreende na pele de Maria Salazar, a mulher de um dos vassalos do cartel. Edward James Olmos, que vem à Comic Con Portugal em dezembro, estreia-se também na série, como pai de Peña.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na Metropolis.