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7 Interrogações de Quem Começa a Ver «Game of Thrones» na Season 7, por Em Banho Café

Não, não sou uma alien acabadinha de chegar ao planeta Terra para umas férias relaxantes. Não, também não estive raptada numa cave nos últimos anos. Mas a verdade é que só cheguei a «Game of Thrones» nesta sétima season. E sim, gosto muito de ver séries (e não, não sou uma hater de dragões).

 

Autora Convidada | Por Em Banho Café

 

Primeira pergunta que se impõe: Porquê?

Digo que é a primeira pergunta que se impõe porque sei do que a casa gasta. Perdi as vezes às conversas de «GoT» à minha volta e das tentativas de alguém dizer "tens de começar a ver" ou exprimir um mero "mas porque não vês?". É um pouco difícil explicar o porquê. Tudo começa porque eu sou uma pessoa que adormece facilmente, sobretudo à frente de um ecrã. Não é necessariamente uma crítica ao filme ou à série (precisei de quatro tentativas para terminar aquele que é hoje um dos meus filmes preferidos), mas sim um modo de vida sonolento. Já estão a imaginar (e antevejo os olhares de choque): sim, eu adormeci a ver os primeiros episódios da season 1 de «GoT».

 

 

Mas vá lá… não é o facto de adormecer que me faria desistir de ver uma série. Se fosse assim, nunca teria conseguido acompanhar nenhuma! A somar a isto, muito contribuiu o próprio fenómeno da série. Sendo a série mais "sacada" de todo o sempre, não chegava a segunda-feira que eu não soubesse de todos os pormenores escabrosos do que havia acontecido. Cabeças decepadas, casamentos escabrosos, ressuscitações, o que fosse. Qual a motivação, assim, para pegar na série?

 

Soma-se mais um pormenor: tive um convite para ver o primeiro episódio da season 6 no cinema. Pensei "é desta". E lá fui, disposta a recuperar o tempo perdido. A meio, comecei a ter sintomas de uma intoxicação alimentar e tive de sair a correr… para uma espécie de trono? A mensagem do destino foi clara: ainda não era altura de começar a ver «GoT».

 

… E porquê agora?

Quis o destino (mais uma vez) que fosse dividir casa com alguém que adora «Game of Thrones». Alguém que, quase religiosamente, se senta no sofá à segunda-feira para assistir, com pompa e circunstância a estas odisseias de dragões, lutas de poder e zombies congelados*.

 

E adivinhem quem também gosta de abancar no sofá? Eu mesma, claro.

 

 

Tudo começou com um desinteresse generalizado enquanto começava o episódio. Depois, uma pergunta aqui e ali. Tornei-me a pessoa mais odiada que querem ter enquanto assistem a uma série ou um filme. Sim, essa mesmo. Aquela pessoa que pergunta, de cinco em cinco minutos: mas quem é este? E o que aconteceu a esta que gerou a situação atual? E qual a história daquele outro?

 

A minha colega de casa oscila, por isso, entre o enfado constante de ter de parar o episódio para responder às minhas mil e uma hesitações e o orgulho de ter sido aquela que, finalmente, me conseguiu pôr a ver «Game of Thrones». Muita gente tentou, mas só uma conseguiu. Um pouco, lá está, como alcançar o trono de ferro ou o lugar no dorso espinhoso de um dragão pançudo.

 

O que pensa alguém que começa a ver «GoT» na season 7?

I must be out of my goddamn mind. Basicamente é isto. Uma confusão de cuspir fogo! Sobretudo pela profusão de personagens e linhas narrativas, um território geográfico desconhecido e uma mão-cheia de pessoas que são relativamente parecidas umas com as outras (digam-me que não fui a única a não perceber quem era quem naquele "Snow Patrol", durante a confusão de ursos, zombies congelados e neve). É um misto de familiaridade (afinal, eu acompanhei a série pelos spoilers de segunda-feira) com um "mas quem é este que aparece agora e que pelos vistos é super importante, mas eu nunca o tinha visto mais gordo?". É um conhecer as teorias mais loucas sobre as personagens principais, mas não fazer ideia de quem são os buddies de cada um dos lados. É desgastante e enervante… mas que importa? Há sempre um dragão para salvar (ou estragar) o dia.

 

Posto isto, espero impacientemente pelo fim da temporada 7. E, talvez quando esta acabar, me dedique a uma longa maratona pelos confins passados de Westeros. Afinal, para quê ver uma série seguida da season 1 à 8, se se pode andar a fazer uma gincana da 7 para a 1 e depois para a 8?

 

Contudo, antes de passarmos ao desfecho que se aproxima (e descobrirmos o que raio se vai passar entre a Arya e a Sansa no meio de tanto #TeenageAngst), gostaria de partilhar 7 interrogações que me invadem o cérebro desde que embarquei nesta onda de gelo e fogo. Estão à vontade para responder – afinal, a minha colega de casa já não me pode ouvir.

 

 

7 interrogações de quem começa a ver «Game of Thrones» na season 7

1. O que raio é o Three-Eyed Raven e porque se assemelha tanto a uma bitchy resting face constante?

2. Porque é que há um gosto especial em criar personagens com nomes tão parecidos? É para confundir e não detetarmos plotholes na história? Ou há algures um livro de bolso à venda com todos os nomes de todos os reinos e estão a mungir a vaca do dinheiro?

3. De onde vêm as roupas dos zombies congelados? E o vestido impressionante da Daenerys para o Winter Ball com Jon Snow e sus muchachos? Foi o Varys que o desenhou e o Tyrion costurou? Gostava mesmo de saber o designer – o vestido era um espanto!

4. O pessoal que não é rei, nobre ou bastardo do rei não se cansa de tanta curva e contra-curva (que tal uma revolução francesa em Westeros, people?Rise up!)?

5. Qual a lógica do discurso da Dany de "eu sou diferente, sou uma pessoa fofinha e vou ajudar-vos a serem todos felizes" se depois os começa a cozinhar? Para esta humilde pessoa que acompanha a partir da season 7, ela parece-me bem mais assustadora do que a Cersei.

6. Como é que se monta um dragão, sem cair? A sério! É preciso uma sela? Há um truque qualquer? É preciso ter formação com o filme de animação «Como Treinares o teu Dragão?»?

7. Jon & Dany, winter love, we get it. Mas… 1) é preciso aqueles olhares todos pouco subtis à novela mexicana? 2) Então os dragões não eram os babies dela? E que a miúda está nem aí para o "pequenote" que morreu. Parecia-me bem mais concentrada em ver a peitaça do novo amigo felpudo (trocadilho cheio de piada com a cena dos tapetes IKEA, 'tão a ver?).

 

 

* Sim, eu sei o que são White Walkers e wights – podem respirar fundo, tirar o ar indignado e voltar à leitura deste brilhante texto, com toda a tranquilidade!

Os Defensores: 145 Minutos de Desilusão

Das partes se fez o todo: «Os Defensores» uniram-se para salvar Nova Iorque - e o resto do mundo - da destruição iminente às mãos de uma temível Sigourney Weaver. Ainda assim, a tarefa mais complicada, e ingrata, poderá ser inverter o desequilíbrio que tem minado o percurso da Marvel na Netflix. Numa altura em que os super-heróis sobrevivem à boleia do hype instalado, resta saber quando (e se) a montra se vai desmanchar e revelar os manequins quebrados que esconde.

 

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Foram necessários quatro episódios para me sentir preparada para escrever a review daquela que é a grande aposta da Netflix em 2017. Ou seja, metade da primeira temporada. E porquê? Até aos 145 minutos de «Os Defensores», já perto do final do terceiro episódio, é difícil perceber onde acabam as séries individuais, que já conhecemos, e começa a trama esperada há anos. De seguida, são ainda precisos mais uns 'pózinhos' para ser totalmente perceptível como as peças se vão encaixar. Estranhamente, só a meio da narrativa senti que «Os Defensores» tinham, finalmente, chegado.

 

Os super-heróis coabitam há largas décadas connosco, pelo menos no que à imaginação diz respeito. Assistimos, todavia, a um fenómeno desde 2008, data do primeiro filme do Marvel Cinematic Universe (MCU)«Homem de Ferro» (2008) - e que tem crescido de forma imparável. Todos os anos há uma imensidão de filmes e séries televisivas que abordam mais um super-herói, anti-herói ou vilão. E, por mais que nos tentemos manter a par, há sempre mais uns quantos na gaveta e anunciados amiúde. Como se isso não bastasse, a rival DC Comics foi atrás e também ganha velocidade nas 'suas' adaptações, primeiro na televisão e agora no cinema.

 

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A série «Os Defensores» é a aposta mais antiga da Netflix, no universo Marvel. As restantes, ao estilo do que acontece no MCU, foram pensadas para justificar a formação desta equipa improvável. Embora acerte na receita, a Netflix falha nos ingredientes e apresenta uma espécie de Liga de Honra do MCU. Enquanto Matt Murdock/Demolidor (Charlie Cox) se redime, depois do falhanço no grande ecrã, e Jessica Jones (Krysten Ritter) se destaca pela sua irreverência - e contagia os demais -, Luke Cage (Mike Colter) e Danny Rand/Punho de Ferro (Finn Jones) continuam longe de reunir consensos. Ou de justificarem uma existência solitária.

 

Ironicamente, foi mesmo a persona non grata da equipa, o Punho de Ferro, a abrir as hostilidades e a encetar o conflito da primeira temporada, com um vilão, The Hand, que já vem de trás - mais concretamente da série de Finn Jones e da segunda temporada de «Demolidor». A espaços, Danny assume-se, inclusivamente, como o centro da ação e o motor que a move. Porém, e mais uma vez, a personagem fica aquém: parece transportar a maldição do seu passado bem junto a si e tarda em ultrapassar a fase crucial da metamorfose. Recorde-se que em 1978, quatro anos depois da sua estreia nas comics, Punho de Ferro uniu-se a Cage, na esperança de contornar o seu fracasso anunciado. Mas, entre ressureições e novas tentativas, a verdade é que nunca vingou.

 

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Por outro lado, desenhada com traços de conspiração e mistério, a 'Mão' que tudo toca sem se ver mostrou, finalmente, a sua verdadeira cara. E, quando essa assume os contornos de Sigourney Weaver, aqui na pele da misteriosa Alexandra, a narrativa tem tudo para crescer com isso. No entanto, a atriz, de qualidade inegável, aproxima-se ostensivamente de mais um golpe de marketing. Falar de «Os Defensores» é, aliás, atestar a máquina de 'vender' conteúdos em que a Netflix se tornou, apostando em talentos mais do que confirmados da indústria, para depois falhar na concretização da ideia. Quer isto dizer que, embora o quarteto de anti-heróis seja uma marca cimentada e que terá certamente continuidade, poderia não sobreviver fora da hegemonia de Marvel e companhia.

 

Não estamos perante uma série má. Este encontro de heróis antissociais e renegados até tinha tudo para ser uma aposta bem conseguida, não fosse a insistência em prescindir da ação (mais ou menos imediata) em prol da construção das personagens. Isso é importante, como é evidente, mas torna-se cansativo quando a 'história de origem' é estendida além do desejável. Tratando-se de uma maratona, acaba por não ter o mesmo efeito de desgaste no espectador, que, tal como eu, prossegue, episódio após episódio, em busca de um acontecimento digno desse nome. Com episódios semanais, a crítica seria possivelmente mais feroz: um mês, na peak season constante em que a televisão vive, é demasiado tempo.

 

A Minha Série Favorita Vai Acabar. E Agora?

Ninguém nos prepara para isto: daqui a algumas horas vou despedir-me da minha série favorita. Das pessoas, das histórias e dos espaços que, sem aviso prévio ou autorização, entraram na minha vida e, por minha influência direta, na vida dos meus amigos e familiares. «Orphan Black» chega ao fim, 50 episódios depois. Há um antes e um depois de Tatiana Maslany - para mim e, quando olharmos em retrospetiva daqui a vários anos, para a televisão. Guardem o Globo de Ouro e o Emmy num local confortável, no próximo ano ela vai lá buscá-los. Devemos-lhe isso.

 

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"Tens de ver Orphan Black". Perdi a conta às vezes que repeti esta frase a amigos e familiares. E, apesar da desconfiança inicial, fui vencendo cada um deles pelo cansaço. A Tatiana Maslany fazia o resto. Com mil e uma peles, qual autoridade mágica de um conto de fadas explosivo, a atriz ia-se multiplicando em clones e, no seu truque descarado e à vista desarmada, levava-me a esquecer que era sempre ela por detrás de todas aquelas personagens. Ainda hoje não tenho qualquer dúvida de que, sem ela, «Orphan Black» estava condenada à extinção. Afinal de contas, ela foi o melhor efeito visual da série.

 

De underdog a série de créditos firmados não foi um passo. «Orphan Black» surgiu do humilde BBC America e, com um elenco de desconhecidos, evidenciou-se à custa do suor de Tatiana Maslany. Tudo começou com a nomeação da atriz para os Globos de Ouro - quem era aquela desconhecida entre a elite da televisão? - e a chegada da série à Netflix, o que potenciou a chegada a novos públicos. Já os Emmys ignoraram-na até não conseguirem mais e, depois de campanhas dos fãs (e críticos), a Tatiana acabou por ir buscar o que lhe era devido na cerimónia de 2016. Com a quinta temporada a estrear apenas em junho - só são considerados conteúdos lançados entre 1 de junho de 2016 e 31 de maio de 2017 -, a atriz fica afastada do "bis". Fica a esperança de que a sua brilhante performance não seja esquecida em 12 meses.

 

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Este não é um guia sobre como tornar as despedidas mais fáceis. Por mais que Graeme Manson e John Fawcett, os criadores de «Orphan Black», tenham dito que a série estava pensada para cinco temporadas, eu não estava preparada. Mas também duvido da minha capacidade para resistir a mais sustos relacionados com Sarah Manning ou Cosima Niehaus, ou ver testada a minha confiança  em Rachel Duncan. Para os outros Castor é apenas um animal, mas para nós é bem mais do que isso - se bem que apenas vestirei a camisola das irmãs LEDA. Foi uma longa e extenuante viagem, ao comando de uma protagonista que só pode ser extraterrestre e de argumentistas que são verdadeiros mestres de tortura.

 

Não voltarei a ver televisão da mesma maneira, é um facto. "Ah, a atriz é boa, mas não chega aos calcanhares da Tatiana". Preparem-se para me ouvir repetir isso até à exaustão. Tudo porque não fui ensinada a suportar despedidas. Para os leigos, isto certamente não fará sentido, mas os "seriólicos" sabem que é mais fácil encontrar um novo amigo do que uma série que nos marque - a não ser que o vício já os tenha remetido ao isolamento. Além disso, quando a mãe dos clones aparecer numa série ou filme - «Stronger» está quase aí - vou estar sempre à espera que surja uma irmã gémea afastada (ou um clone).

 

O Último a Rir: Podemo-nos Rir Se o Tema For o Holocausto?

A essência do documentário «O Último a Rir» (2016) reside, de forma sublime, nas palavras da produtora Roz Weinman. A certa altura, desarma-nos completamente (se não o estivéssemos já): se os sobreviventes do Holocausto, e os seus herdeiros, não aproveitarem a vida, será Hitler o último a rir. É, ademais, essa a defesa dos comediantes que habitam a narrativa ilustrada em palavras pela realizadora Ferne Pearlstein.

 

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Mas há limites que nem Mel Brooks, que nos trouxe «Os Produtores», a demanda pelo pior espetáculo do mundo, onde, pelo caminho, se troçava com Hitler e os nazis, está disposto a ultrapassar. A dor do Holocausto é demasiado grande, pelo que quando figuras como Sarah Silverman ou Joan Rivers desafiam o socialmente aceitável, rapidamente se levantam vozes de descontentamento. Há viagens ao passado, há entrevistas na primeira pessoa, mas, em «O Último a Rir» (2016), há sobretudo histórias: tão pesadas com a terrível lembrança da morte de seis milhões de judeus.

 

Apesar da quantidade significativa de caras familiares, no centro está uma anónima, Renee Firestone, que sobreviveu a Auschwitz. Foi a única da sua família a escapar e, na Terra do Tio Sam, teve de encontrar forças para criar uma nova. Embora reconheça que é preciso ter humor – não haverá arma mais forte de vingança –, também ela não está disposta a permitir tudo em prol de uma boa gargalhada. Mas, afinal, podemo-nos rir se o tema for o Holocausto?

 

 

Realizador: Ferne Pearlstein

Origem: Estados Unidos

Duração: '88

Ano:2016

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº48 da Metropolis, de junho de 2017. Texto completo na revista.

American Gods: Os Deuses Devem Estar Loucos

Era a série de que mais precisávamos. Nós é que não sabíamos. Adaptação televisiva do livro publicado por Neil Gaiman em 2001 conta com um elenco de luxo e serve de alegoria a algumas das questões mais pertinentes da atualidade. Dos Vikings à tecnologia de ponta, será que a humanidade está preparada para os deuses que louva?

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No filme «Os Deuses Devem estar Loucos» (1980), com argumento e realização de Jamie Uys, a vida de uma tribo isolada muda irremediavelmente quando um dos seus elementos contacta com 'tecnologia' pela primeira vez, neste caso uma garrafa de Coca-Cola. Julgando tratar-se de uma dádiva divina, partilha-a com a sua tribo, que a usa para diversas tarefas, mas depressa os companheiros começam a lutar por causa da garrafa. É então que ele a tenta devolver aos seus deuses. À boleia de uma boa dose de comédia, há dois 'infernos' que chocam: a modernidade e a dureza do deserto de Kalahari: "Parece um paraíso, mas é, na verdade, o deserto mais traiçoeiro do mundo", diz, a certa altura, o narrador sobre aquele local.

 

Este é apenas um dos exemplos em que o cinema e a televisão arriscaram novas abordagens aos deuses e, mais concretamente, àquilo que o ser humano idolatra no seu quotidiano. Todavia, há muito que a reverência deixou de ser exclusiva aos deuses: a sociedade tem vícios e atitudes que lembram a devoção que se entregava, e entrega, aos deuses das diversas religiões. Na arte, esse contexto é ultrapassado e adaptado às exigências da narrativa, com os autores, da literatura ao grande ecrã, a aproveitarem a liberdade criativa para, ao amplificá-la, se debruçarem sobre a realidade em que vivem. Numa espécie de alegoria dos tempos modernos, onde o homem é, ao mesmo tempo, veículo e intermediário de uma suposta divindade, usa-se o sagrado para criticar a própria humanidade.

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Foi isso que fez – de forma sublime, convém dizê-lo – Neil Gaiman no seu livro Deuses Americanos, publicado pela primeira vez em 2001. Mas o interesse na temática não era novo. Já em Good Omens, de 1990, escrevera, a quatro mãos com Terry Pratchett, o nascimento do diabo como sinal trágico do fim do mundo e a consequente luta entre o Bem e o Mal, o sagrado e o profano. Voltou à inspiração divina dois livros e 11 anos depois, imaginando uma guerra épica entre os deuses antigos e modernos, vivida no campo de batalha mais inesperado de todos: o planeta Terra. E sem recurso, equitativo pelo menos, aos poderes que lhes deram nome e prestígio.

 

Da página para o pequeno ecrã passaram-se 16 anos e, pela mão do canal Starz nos Estados Unidos – e da Amazon em Portugal –, o confronto divino ganhou cor e densidade, mas não perdeu atualidade. A realidade e a utopia passeiam-se no ecrã, revelando (ou escondendo) a crítica e a importância do nosso olhar crítico sobre o mundo e nós mesmos. No presente, com os Estados Unidos de Donald Trump, o terrorismo e o imparável avanço tecnológico, talvez a trama de Deuses Americanos nunca tenha feito tanto sentido como agora. Ao leme estão Bryan Fuller (criador de «Wonderfalls», «Dead Like Me», «Pushing Daisies» e «Hannibal») e Michael Green (criador de «Reis», protagonizada por Ian McShane, que integra «American Gods»). Fuller, aliás, terá abandonado «Star Trek: Discovery» para se dedicar em exclusivo a este projeto.

 

A ESCURIDÃO COMO MEIO DE VER A LUZ

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Em «American Gods», tudo começa quando, ao jeito de um golpe de misericórdia premonitório, Shadow Moon (Ricky Whittle) sai da prisão alguns dias antes do previsto, na sequência da morte da mulher e do melhor amigo num acidente. Quando a vida por que esperou atrás das grades se revela impossível, Shadow não tem nada a perder, mas, ainda assim, esforça-se por esconder a violência que parece querer escapar a qualquer momento – sobretudo quando a funcionária da companhia aérea complica a sua chegada a tempo ao funeral. É então que um homem misterioso, mais velho, consegue – qual truque de magia sem truque – ludibriar a mulher de temperamento difícil, graças à sua idade avançada.

 

Ao encontrá-lo depois na primeira classe do voo, Shadow não sabe se há-de admirá-lo ou descarregar nele todas as frustrações em que está mergulhado. Quando uma conversa, aparentemente inocente, se torna cada vez mais profunda e estranha, Shadow tenta atribuir-lhe um sentido lógico. Sem sucesso. O misterioso Mr. Wednesday (Ian McShane) – que assim se apresenta depois de saber que é quarta-feira (wednesday em inglês) –, sabe mais sobre a vida do ex-presidiário do que seria suposto. No meio do choque, apresenta a Shadow uma oferta de trabalho muito questionável, mas este recusa-a, acreditando que, depois de aterrar, haverá um pouco de normalidade à sua espera. Tal não se verifica, sendo que, pelo caminho, Shadow se vê jogado em dramas humanos e paranormais.

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Conflito humano antes de mostrar ser divino, a série explora a impotência do indivíduo perante o destino, que parece 'troçar' dos pequenos raios de luz que vão surgindo por entre as nuvens. Ao mesmo tempo, a perceção de que tudo é efémero, até as emoções e as certezas do quotidiano, choca com a incapacidade de o ser humano contrariar a sua falta de sorte. Assim, destino ou não, Shadow vê-se 'empurrado' para trabalhar com Wednesday, regressando inevitavelmente à vida do crime. O que ele não sabe é que a questão é bem mais complexa (e ambígua) do que isso.

 

Na verdade, Wednesday é Odin, o deus dos deuses da mitologia nórdica. Ele, tal como os restantes deuses antigos, foi renegado para a 'vulgar' condição humana, enquanto os deuses da modernidade foram ganhando cada vez mais força. A oração, ou adoração, dos homens é o combustível que torna os deuses aquilo que são – pelo que, ao adorarem os novos deuses (tecnologia, media, etc.) e não os antigos, estes ficam mais fracos. Tecnologia e Media, aqui corporizados pelos atores Bruce Langley e Gillian Anderson, surgem como divindades mas apontam, ainda assim, as suas culpas diretamente para nós: estão cada vez mais fortes porque as pessoas as idolatram desenfreadamente. De um lado, dá-se a multiplicação de falsos deuses – como os vícios –, e do outro o poder das entidades divinas retira-o aos homens, provocando a sua desresponsabilização.

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº50 da Metropolis, de junho de 2017. Texto completo na revista.

Gypsy: Quando os Monstros Se Escondem à Superfície

A pergunta, inscrita no poster promocional, persegue-nos em cada minuto do primeiro episódio da nova série de Naomi Watts. Quem és tu quando ninguém está a ver? Jean Holloway é Diane: livre, sonhadora, jornalista. Mas a única coisa que escreve é a sua própria condenação. Eticamente reprovável e narrativamente brilhante, «Gypsy» é uma montanha-russa de emoções e um desafio à nossa (in)consciência.c98db97e24af426c1d3c5e1880ab2a8b.jpg

Sempre nos alertaram para os monstros escondidos debaixo da cama, mas o que acontece quando estes se movem à superfície? Não há nada de especial na psicóloga Jean Holloway (Naomi Watts), para o bem e para o mal. É essa a sensação imediata que «Gypsy» oferece, apresentando-a no meio de um emaranhado de pessoas que sai de um comboio. Temos um déjà vú de rotina que desperta a nossa curiosidade. Não sabemos de onde veio ou para onde vai. Mas quando se trata de Naomi Watts, já sabemos que vamos atrás. A personagem banal ganha, com ela, profundidade a cada diálogo, a cada movimento - mais ou menos seguro - e, sobretudo, a cada silêncio.

Sim, é nos momentos de pausa, ou alheamento da realidade por parte de Jean, que encontramos os primeiros sintomas da sua incoerência. E isso deixa-nos desconfortáveis. Nada nela é natural: os movimentos no Gabinete de Psicologia são erráticos (e eticamente questionáveis) e a existência enquanto Diane transpira uma insegurança constante. No entanto, por esta altura já sabemos para onde vai. A psicóloga está investida na ex-namorada de Sam (Karl Glusman), um paciente que tem dificuldade em superar o fim do relacionamento com a entusiasmante Sidney (Sophie Cookson). Entusiasmo, aquilo que a rotina de Jean não tem. E a de Diane?

gypsy.jpgJean procura na vida dos outros aquilo que não encontra (ou já não é capaz de ver) na sua. Há excitação e, na adrenalina do momento, a psicóloga deixa-se envolver demasiado. Outrora uma aventura inconsequente, a aproximação de Sidney ganha contornos perigosamente reais... e estranhos, no mínimo. A jovem deixou de ser uma figura sem rosto, mas tem, em vez disso, uma personalidade vincada, que desperta cada vez mais o interesse de Jean. Ou melhor, de Diane, uma mulher inexistente e, portanto, sem nada a perder. Como seria de esperar, a situação só pode piorar quando Sam e Sidney apresentam versões diferentes a Jean e Diane. A verdade e a mentira tornam-se, indefinidamente, uma questão meramente interpretativa.

Segue-se a filha de Claire (Brenda Vaccaro), a mãe controladora que claramente não sabe respeitar os limites individuais. Intrigada com o afastamento de Rebecca (Brooke Bloom), Jean cruza-se com ela 'por acaso', sem revelar novamente as suas motivções. Numa sucessão de atos irracionais, torna-se um vício ser outra pessoa. As duas facetas de Jean chocam, e chocam-nos, como dois lados de uma moeda. O certo e o errado. O ético e o reprovável. O consciente e o inconsciente. A personagem de Naomi Watts mergulha numa alegoria sombria, onde é uma gypsy [cigana, em português]. Viaja numa rota quase itinerante, entre a realidade e o submundo que cria para si, anunciando aos que a rodeiam o futuro - ou como devem lidar com ele. Ainda assim, a maneira (supostamente) imparcial de analisar os seus pacientes não tardará a 'embater' com a rede obscura que Diane vai atalhando.

C_kbIUNXoAEmAYe.jpgO ponto de partida de «Gypsy» é uma resposta direta e eficaz às nossas 'preces'. A televisão, outrora feita do reboliço de novas temporadas e do marasmo dos seus interregnos, apresenta-se hoje com mais novidades. Mas quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade, e a Netflix, entre outras produtoras, tem ido à boleia de fórmulas bem-sucedidas no passado. Por seu lado, esta ideia, ambiciosa, marca a estreia de Lisa Rubin a toda a linha - como criadora, produtora executiva e argumentista -, depois de uma tímida curta-metragem, «Yara with the Long Blond Braid» (2011). Já Jonathan Caren, que também assina os episódios da primeira temporada, é praticamente desconhecido.

Além disso, o piloto marca ainda o regresso à realização de Sam Taylor-Johnson, 'desaparecida' desde «As Cinquenta Sombras de Grey» (2015). O seu estilo visual extravagante, que tem marcado uma carreia humilde, assume o protagonismo de The Rabbit Hole [A Toca do Coelho, em português], numa verdadeira descida ao País das Maravilhas. No entanto, este é um mundo muito menos mágico e glamouroso do que o de Alice. Os planos elétricos da realizadora colocam Naomi Watts, o principal trunfo da série, em evidência, tornando perceptíveis para o espectador as mudanças que Jean vai experienciando. «Gypsy» é uma aposta contracorrente e inovadora, nesta altura de mais-do-mesmo e de repetições. É, por isso mesmo, um risco - que tem 10 episódios para provar que valeu a pena.