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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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Room 104: Antes de Bater à Porta, Pense Duas Vezes

Se for de férias para um hotel, ou tiver de escolher uma casa por algum motivo, o melhor é evitar o número 104. Mais vale prevenir do que remediar. Os irmãos Duplass estão de regresso com uma comédia - depois do cancelamento de «Togetherness» - que traz consigo um twist bem sombrio. O primeiro episódio é uma viagem alucinante, mas à qual é impossível resistir.

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A "roleta russa" ou o "Tinder da televisão". Embora também seja da responsabilidade da HBO, estamos perante o "oposto d'«A Guerra dos Tronos»". Estas foram algumas das expressões inusitadas que os criadores (e irmãos) Jay e Mark Duplass usaram para descrever a nova menina dos seus olhos, «Room 104», que teve estreia mundial na madrugada de sábado, 29. Em Portugal, o canal TV Séries não quis ficar para trás e promoveu uma estreia apenas à altura dos mais resistentes: o episódio piloto, "Ralphie", foi emitido no nosso país às 4h30 da madrugada. Quem respondeu ao desafio, todavia, arriscou-se a ter pesadelos: «Room 104» é uma comédia, sim, mas bem escura: foi por causa disto que nos avisaram, na infância, para não falarmos com estranhos.

 

Como se não bastasse não sabermos ao que vamos a cada novo episódio, ainda somos manipulados pela narrativa. A ficção vai piscando o olho à sociedade em geral, e ao espectador em particular, estimulando leituras precipitadas e estereotipadas, com o discurso e a câmara a esconderem e mostrarem o que querem - e como querem. Apesar de tudo acontecer no Quarto 104, a verdade é que há alturas em que nos sentimos verdadeiramente perdidos. Quem nunca questionou que segredos escondem quatro paredes? A julgar pela amostra, no que diz respeito ao Quarto 104 mais vale não saber

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No primeiro episódio, Meg (Melonie Diaz) é contratada por Bradley (Ross Partridge) para tomar conta do filho, Ralph (Ethan Kent), enquanto tem um encontro romântico. Como espectadores, somos colocados nos 'sapatos' de Meg, que, a certa altura, percebe que não vai ter uma noite tão calma como pensava. Contudo, não estamos a falar de uma série de terror, mas antes de uma comédia mais negra que faz uso de um tipo de humor menos suave, normalmente associado ao britânico. Bastante inteligente, o discurso é cuidado e, em breves diálogos, consegue aprofudar as personagens e deixar isso para trás, partindo rumo ao que realmente interessa: o desenlace de uma premissa aparentemente banal. No entanto, não há nada de banal em «Room 104» e, a uma velocidade estonteante, tudo se cria, transforma e destrói.

 

Tal como em «High Maintenance» ou «Easy» [ler análises aqui], não há qualquer tipo de fio condutor a ligar as histórias, apenas um quarto de motel, o 104. Por acaso do destino, ou genuína falta de sorte, é ali que vão parar as personagens mais improváveis, em tramas que vão do surpreendente ao extraornário. Como uma roleta ou o Tinder, onde não sabemos quem nos vai calhar, cada episódio é uma viagem rumo ao desconhecido. De contornos simples, «Room 104» é mais uma prova de que uma boa série não precisa, necessariamente, de um enredo complexo. Precisa, em vez disso, de marcar a diferença com qualidade. Numa altura em que as novas temporadas se preenchem de remakes, sequelas, prequelas e outras repetições de fórmulas mais do que gastas, os irmãos Duplass voltam a ensinar como se faz.

 

Ozark: Nem Só de Algoritmos Vive o Seriólico

Será «Ozark» uma espécie de «Breaking Bad: Ruptura Total» da classe alta? Não só, mas também. Jason Bateman tenta um 'número' à Bryan Cranston e, tal como o mítico ator que brilhou como Walter White, quer provar que nem tudo é risos com ele. A nova série da Netflix, lançada na totalidade no passado dia 21, é um drama obscuro e cruel, onde não há certo ou errado - há apenas escolhas. E o final nem sempre é feliz: ironicamente, isso também se aplica à própria série.

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«Ozark» mostra-nos logo ao que vem. O discurso de abertura, numa voz-off arrebatadora de Martin Byrde (Jason Bateman), um contabilista que faz lavagem de dinheiro nas horas vagas, é um murro no estômago da sociedade consumista em que vivemos. O dinheiro não é paz de espírito. O dinheiro não é felicidade. O dinheiro é, na sua essência, a medida das escolhas de um homem. Ao mesmo tempo, e enquanto a imagem vai acompanhando as palavras, em ritmo acelerado, somos confrontados com a aparente normalidade do protagonista. Assim como acontecia com o inesquecível Walter White de «Breaking Bad: Ruptura Total», ou os Rayburn de «Bloodline», não há em Martin, à partida, nada de especial. É, essencialmente, o pilar em torno do qual a narrativa se vai fixar e desenvolver.

 

E é exatamente aí que começa o problema. «Ozark» é demasiado familiar: não porque nos provoque particular empatia com as personagens ou com os seus problemas, mas sim porque nos lembra algo que já vimos antes. Além das séries já referidas, poderíamos lembrar «Narcos», também da Netflix, «Mad Men» ou «Ray Donovan». Não é preciso pensarmos muito para encontrarmos referências a velhas conhecidas, nomeadamente séries que têm uma personagem principal masculina (e branca) e que, de alguma forma, a desenham como um improvável anti-herói. Bill Dubuque e Mark Williams, os criadores da série, até podem ter ido ao encontro do algoritmo e dos estudos de audiências da Netflix - e, concretamente, do público-alvo de «Breaking Bad: Ruptura Total» -, mas falharam o essencial: criar uma identidade própria para lá da amálgama de (boas) influências.

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Não obstante, nem só de droga e dinheiro sujo vive a série. Ainda antes de a sua rotina mudar incontornavelmente, com o cabecilha de um cartel de droga mexicano, Del (Esai Morales), a disparar a torto e a direito, Martin é confrontado com a traição da mulher, Wendy (Laura Linney). Incapaz de lidar com a situação, reage de forma amorfa e deixa-se conduzir apaticamente pelo que tem, talvez na ilusão efémera de que, pelo menos, a vida profissional lhe corre bem. As Ozarks, na Califórnia, apresentam-se assim como a alegoria prometida, um escape da destruição eminente. Como já sabemos o nome da série, a única dúvida é o que vai acontecer para justificar uma mudança tão significativa para esse destino de sonho.

 

Ter duas situações de quase-morte no episódio piloto, com figuras cruciais da trama, funciona como um anti-clímax da narrativa, uma vez que é evidente que vão escapar. Ainda assim, é inevitável que tal aconteça, para dar o balanço que faltava à ação - este efeito é, todavia, perturbado por uma banda-sonora demasiado literal. Tal como num filme de terror, nem sempre precisamos de música assustadora para antecipar o que vem a seguir. Por outro lado, o facto de a família ter conhecimento do 'berbicacho' em que Martin está envolvido adiciona um novo nível de interesse a «Ozark», desde logo porque implica um subnível de profundidade das personagens, desprendidas do estereótipo dos subúrbios. Mais uma vez, a série evidencia a relação íntima entre as escolhas e as consequências, apontando as culpas (e os elogios) diretamente para os indivíduos e não para a sua falta de sorte.

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Além do papel principal, Bateman assumiu as rédeas de produtor executivo e de realizador - por falta de tempo, acabou por dirigir apenas quatro episódios e não a totalidade, como pretendia. Apesar de cumprir, denota um olhar de intérprete e não de realizador - ou seja, o universo visual dos episódios filmados por si carece de densidade imagética, que, por seu lado, é compensada por um maior destaque do discurso. A escolha técnica (e legítima) de Bateman é, em teoria, uma mais-valia para o argumento, mas, ao mesmo tempo, funciona também como um handicap da tal escuridão que «Ozark» transporta consigo. Embora a fotografia nos ofereça isso de forma imediata, com tons mais escuros, a obscuridade tarda em ser explorada além da superfície.

 

Li recentemente, numa crítica encontrada por aí, que Jason Bateman não tem qualidade para ter os holofotes focados em si, isto é, para encabeçar um elenco. A bem da verdade, e tal como também era referido lá, o maior castigo acaba por cair sobre os atores secundários que, na interação com o protagonista, parecem ficar sempre aquém. É como se o clímax anunciado de cada cena desacelerasse sempre que a fala calha a Bateman. Competente nos papéis secundários que vai amealhando, o ator poderá não ter carisma suficiente para suportar a responsabilidade de levar a história às costas. Ainda assim, esta será sempre um opinião não consensual. Em contrapartida, o hype que Julia Garner, de 23 anos, tem conquistado recentemente, sobretudo depois de participações bem conseguidas em «Grandma» (2015) e «The Americans», transformou-a num inesperado atrativo para a série.

 

Amigos de Faculdade: Não Devemos Voltar aos Locais Onde Já Fomos Felizes

Há um conselho, passado de geração em geração, que se usa amiúde e se apresenta de forma muito simples: não devemos voltar aos locais onde já fomos felizes. No entanto, é difícil falar de «Amigos de Faculdade», a nova série de Cobie Smulders, sem lembrarmos o seu maior sucesso, «Foi Assim Que Aconteceu», que terminou há três anos. Mesmo que quiséssemos evitar a comparação cliché, a verdade é que isso rapidamente se afiguraria uma missão impossível. À primeira vista, «Amigos de Faculdade» aparenta ser uma versão mais adulta da história de Carter Bays e Craig Thomas. Depois de vermos o primeiro episódio (e os seguintes) temos a certeza.

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«Seinfeld», «Friends», «Foi Assim Que Aconteceu» e «A Teoria do Big Bang». Estes são apenas alguns exemplos de séries de comédia moldadas em torno de um grupo de amigos e que, à sua maneira, nos acompanharam em diferentes alturas das nossas vidas. A fórmula está longe de ser nova e, a bem da verdade, também estamos - para já - longe de nos fartarmos dela. [Quem nunca parou numa (ou várias) destas séries quando estava a fazer zapping?] Ainda assim, não falamos de uma relação 'gratuita': por mais simples que possa ser a sua estrutura narrativa, sem grandes complexos de continuidade, a comédia tem de nos dar algo em troca, nomeadamente através das suas personagens. É aqui que falha «Amigos de Faculdade», uma das mais recentes apostas da Netflix, cuja primeira temporada foi lançada na sua totalidade no passado dia 14.

 

A atração principal de «Amigos de Faculdade» era ter Cobie Smulders no elenco. Ponto. Tal foi usado (além do necessário) desde o primeiro momento, de forma a promover a série perto do seu público-alvo: quem assistia a «Foi Assim Que Aconteceu». A estratégia não passou daí e, como resultado, a sinopse foi guardada no segredo dos deuses - apenas sabíamos que se tratava de um grupo de amigos, na casa dos quarenta, em que todos se conheciam desde a Universidade de Harvard. A um núcleo, muito específico, talvez interessasse o regresso de Fred Savage, que não tinha conseguido voltar à ribalta depois do fim de «The Wonder Years», em 1993. Já as comparações à antiga série de Cobie, que decorreu entre 2005 e 2014, foram inevitáveis - mas não era isso que a Netflix pretendia? Tudo em prol das audiências. O pior é quando carregamos no play.

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Se antes Ted Mosby contava a história de como conheceu a mãe dos filhos, agora estamos perante uma massa mais homogénea, e adulta, ainda que sustentada por uma storyline principal. Logo na abertura de «Amigos de Faculdade», ficamos a saber que Ethan (Keegan-Michael Key) e Sam (Annie Parisse) mantêm um caso amoroso há 20 anos. Tudo normal, não fosse Ethan Turner casado com Lisa (Cobie Smulders). A situação, por si só já bastante complicada, tem tudo para piorar quando o casal Turner decide mudar-se para Nova Iorque, com o grupo de amigos a ficar novamente completo. Também por isso, a dupla de amantes provoca algumas das maiores gargalhadas dos primeiros episódios, que mais não seja pela sua falta de sorte crónica. Ainda assim, os dois são apresentados sem qualquer profundidade, demasiado presos à sua relação, que é explorada até ao tutano e em torno da qual tudo acontece. Fica sempre a faltar algo e, por mais que se prometam respostas, a rotina cíclica dos episódios pode levar a que o riso seja substituído pela impaciência.

 

No entanto, a falta de densidade das personagens é uma falha geral. Os homens são tendencialmente machistas e egocêntricos e, pelo meio, as mulheres são elementos acessórios e surgem frequentemente em situações de stress. No fundo, a ação avança à boleia de Ethan, que transporta Sam a reboque e, a espaços, traz os restantes elementos para a 'discussão'. Embora se possa considerar um mal necessário para o arranque e contextualização da narrativa, partindo do básico para o mais complexo, esse é um dos motores da rotina previsível em que se transforma «Amigos de Faculdade»; à qual continuamos a assistir pela qualidade do elenco. E, mais uma vez, pela promessa de que os pontos levianos vão ser ligados no final da viagem.

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Não se trata de apontar à nova série da Netflix os erros que desculpámos no passado a outras. Da mesma forma, não se pode perdoar que, com um manancial tão grande (e tão rico) de comédias, se recaia numa narrativa simplista e perigosamente estereotipada. As personagens e os espaços vão-se encaixando, como um puzzle demasiado fácil, mas demoramos a perceber que imagem vai surgir do encontro das peças. Na verdade, «Amigos de Faculdade» resume-se numa frase só: trata-se de uma história com potencial, mas feita de personagens desinteressantes e sem carisma. Não chega ter um bom elenco, assim como ter uma estratégia de marketing bem direcionada pode funcionar como uma armadilha em si mesma. Os fãs de Cobie, tal como eu, até podem ter ido à boleia do hype, mas há uma pergunta inevitável: será que ficam?

 

Once Upon a Time: My (Not So Happy) Ending

Um dia, quando já ninguém se lembrar deles, Adam Horowitz e Edward Kitsis, os criadores de «Era Uma Vez» [Once Upon a Time no seu título original], vão-nos contar como venderam a alma ao 'Diabo' há alguns anos. E nós vamos perceber como, também por causa deles, tivemos noção do impacto que as redes sociais podem ter na era moderna da televisão. Mas só quando, temporalmente distantes, não forem ameaçados pela omnipresença dos ABC Studios e da montanha de marketing que se estabeleceu e proliferou em torno daquela que, há quase duas décadas, parecia uma ideia impossível: pegar nos contos de fadas da nossa infância e moldá-los à imagem de uma narrativa ousada. Conta a lenda que a primeira temporada demorou dez anos a ficar pronta - já a sua premissa foi destruída muito mais rapidamente.

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Não sou a típica fã da Disney. Cresci bem longe da euforia dos filmes e, ainda hoje, os que vi não preenchem os dedos de duas mãos. Apesar disso, acabei por assistir à primeira temporada de «Era Uma Vez», motivada pela curiosidade que esta ia despertando por aí. Sem grande paciência para filmes românticos onde a princesa, indefesa, depende de um herói para escapar à sua falta de sorte, desde cedo fui atraída pela irreverência do universo de Horowitz e Kitsis. Por essa razão, entre outras, é irónico perceber que, atualmente, não precisamos de ver mais de cinco minutos da série para encontrar uma realidade bem diferente. Ao falar com pessoas que continuam a acompanhar a trama assiduamente, é fácil perceber que fiz bem em desistir de «Era Uma Vez» no início da quinta temporada. A bem da verdade, aguentei mais tempo do que Horowitz e Kitsis, que se renderam algures na terceira.

 

Ainda sou do tempo em que para se conseguir mudar de reino se demorava, pelo menos, 10 episódios. Ou que esse feito, ou desafio, era um momento de tamanha densidade narrativa que se prolongava numa sucessão de discussões, trocas de ideias e uns quantos impossíveis. Seis temporadas depois, viajar no tempo ou no espaço é, em «Era Uma Vez», um dia normal na vida dos outrora pacatos habitantes de Storybrooke. E algumas fugas parecem tão fáceis que se torna ridículo o tempo perdido nas primeiras temporadas. Por outro lado, a história, anteriormente bem estruturada, é agora uma manta de retalhos, onde os acontecimentos se contradizem e algumas storylines - como o 'detetor de mentiras' de Emma (Jennifer Morrison) ou o medo de Snow (Ginnifer Goodwin) aquando do segundo filho - só são lembradas quando dá jeito.

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Na terceira temporada, a narrativa foi levada para a Terra do Nunca e nunca mais voltou. Embora muitos não tardem a centrar as atenções em Neal (Michael Raymond James), o problema não pode ser reduzido ao 'triângulo amoroso' em torno de Emma, uma vez que foi inflamando tudo em redor. Mas isso não quer dizer que deva ser desvalorizado. O ator não foi bem recebido por uma parte da fandom, que se apressou a torcer por Hook (Colin O'Donoghue), algo que, por si só, é tão antigo e natural quanto o mundo da ficção. No entanto, a morte apressada e descaraterizada de Neal, com vários acessos out of character pelo meio, veio contrariar tudo aquilo que, até então, tinha sido prática em «Era Uma Vez». Os twists e obstáculos, que antes encaixavam como um puzzle narrativo perfeito, começavam, pela primeira vez, a ser colados a 'cuspo'. Mas, com o crédito que Horowitz e Kitsis tinham feito por merecer, confiei. Foi esse o meu primeiro erro.

 

Certamente com a ajuda de muitos estudos de audiências, a tendência de agradar a uma massa amorfa continuou. Com «Frozen: O Reino do Gelo» (2013) em hype máximo, a quarta temporada, de 2014, foi dedicada ao filme: as mesmas personagens, sim, mas com o pressuposto de não alterar o contexto em que o filme tinha terminado - isto porque esta 'galinha dos ovos de ouro' não era deles. Foi também por esta altura que se passou a explorar mais a amizade entre Emma e a antiga Rainha Má, Regina Mills (Lana Parrilla), e não apenas no pequeno ecrã. As próprias atrizes, sem grande ligação até essa altura, publicaram no Twitter duas fotografias com uma camisola de Swan Queen (o nome dado ao casal, ou ship, Emma e Regina pelos fãs). Algo irónico, visto que Jennifer já se opusera publicamente ao ship. fan service, numa vontade insaciável de agradar a uma suposta maioria (e às minoras tanto quanto possível) era cada vez mais difícil de ignorar.

once_upon_a_time_quiet_minds.jpgmerchandising é uma parte crucial para a sobrevivência de «Era Uma Vez» que, apesar da quebra de audiências, segue lançada para uma sétima temporada; embora atores fundamentais, como Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin ou Josh Dallas tenham optado por dizer adeus. Fecha-se um ciclo, tenta-se espremer o que resta. Novo tempo, novas personagens, e mais umas quantas convenções com fãs. Sim, há muito que as conferências para fãs e as Comic Cons se tornaram fundamentais para a ABC Studios e companhia. Ao ponto de Rebecca Mader, uma favorita dos fãs, ter voltado a entrar na narrativa depois de uma torrente de críticas à presença de Marian (Christie Laing). [Ah, afinal tratava-se de um plot twist, tudo está bem outra vez!] Entre conferências, momentos exclusivos com atores e outras tantas atividades com preços exorbitantes, a série parece ter-se tornado um mero acessório de algo bem maior.

 

«Era Uma Vez» não é caso único, ou a Bruxa Má do mundo televisivo. Além disso, Portugal é também prova de que conferências com figuras das séries e cinema são uma aposta ganha - a ínfima probabilidade de nos cruzarmos com um ídolo foi trocada por umas dezenas de euros. A mutação da narrativa não é inédita, veja-se «Arrow» ou «Os Diários do Vampiro», que foram cedendo aos casalinhos pedidos pelas audiências. A série da ABC, que é agora emitida pela Netflix no nosso país, não é o problema, mas antes parte de um bem maior. Há já algum tempo. Adam Horowitz fazia-se ouvir no Twitter, indignado com as críticas e negando constantemente o fan service cada vez mais evidente. Já os atores iam fintando o que conseguiam, a reboque de storylines que desafiavam a razão - e a qualidade apresentada nas primeiras duas temporadas. Até nem eles aguentarem mais, ou serem afastados em prol da vontade sem rosto que se mostra nas redes sociais...

 

 

Nota: este artigo foi escrito depois de os meus amigos escolherem, no Facebook, o tema do texto de lançamento do blogue.

 

The Handmaid’s Tale: Falar Verdade a Mentir

Vivemos na sociedade mais mediatizada de sempre. As ferramentas ao nosso dispor são imensas, assim como são imensos os perigos que representam. No entanto, as ameaças não começam (nem acabam) aí: por diversas vezes, o principal inimigo do ser humano é ele mesmo. É por estes motivos, entre outros, que livros como «1984» e «The Handmaid’s Tale», publicados em 1949 e 1985, respetivamente, continuam a ser urgentes e atuais.

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«The Handmaid’s Tale», lançada pelo Hulu em abril, é uma distopia que, na sua mentira, nos obriga a encarar a verdade dos nossos dias. E aquela que, em 1984, a escritora Margaret Atwood espreitava em Berlim Ocidental, ainda cercada pelo Muro. Foi nesse ano que o livro The Handmaid’s Tale [publicado em Portugal com o título O Conto da Aia] começou a ganhar a sua forma final, dando corpo à narrativa com que Atwood sonhava há já alguns anos. Em parte, as linhas que ia escrevendo exorcizavam os demónios dos conflitos de que fora testemunha, e que a acompanhavam desde que nasceu, em 1939, dois meses após o início da Segunda Guerra Mundial. Mas também lembravam os resultados fantasmagóricos que a autora testemunhara em locais como a Checoslováquia ou a Alemanha de Leste, do outro lado da Cortina de Ferro.


Chegados a 2017, é incontornável que a crítica de «The Handmaid’s Tale» – ou, melhor dizendo, aquela que a série procura passar – se mantém assustadoramente atual. Terá Margaret Atwood previsto o futuro, ou foi a sociedade que não evoluiu o que devia ao longo de três décadas? Não é, ainda assim, caso único. O melhor exemplo será a obra 1984, publicada em 1949 por George Orwell, que ascendeu ao topo das vendas da Amazon em janeiro, na sequência da tomada de posse de Donald Trump e dos “factos alternativos”. Há, nas mentiras que Orwell e Atwood nos contam, pintadas de entretenimento, uma crítica feroz à realidade que os autores habitam – mas também àquelas que estão por vir, e que correm o risco de cair nos mesmos erros.

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«The Handmaid’s Tale», a série, foi anunciada em abril de 2016, com Elizabeth Moss («Mad Men», «Vida Interrompida») a ser logo apresentada como a grande protagonista, a narradora ‘Offred’. O contexto frenético que se vive a nível social e político prometia o enquadramento perfeito para a recuperação da história de Atwood, mas nos meses seguintes, com a confirmação do impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Trump, esta pareceu ainda mais pertinente. Como se o hype não bastasse, o elenco é verdadeiramente de luxo, destacando-se nomes como Yvonne Strahovski («Chuck», «Dexter»), Joseph Fiennes («A Paixão de Shakespeare», «Elizabeth»), Alexis Bledel («Gilmore Girls»), Samira Wiley («Orange is the New Black») e Max Minghella («Ágora», «The Mindy Project»).

 

Por outro lado, numa altura em que nos preparamos para mais uma temporada repleta de protagonistas homens e brancos, a série da Hulu destaca-se pela diferença, colocando as mulheres não apenas nos principais papéis da narrativa, mas também na realização e escrita dos argumentos. Já na ficção as contas são bem diferentes, com as personagens femininas a serem colocadas num lugar bastante inferior ao dos homens, sobretudo se não pertencerem a famílias de classe alta. Nesse caso, o seu destino tem tanto de trágico como de inevitável: se forem férteis, vão trabalhar como aias para as famílias mais ricas; se não forem, vão ser colocadas em campos de concentração.

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No mundo habitado por «The Handmaid’s Tale» somos colocados, tal como acontece em 1984, num país ditatorial e onde nada se sabe sobre o exterior. Fechados e controlados por um poder feito absoluto, e anónimo, os cidadãos vivem hierarquizados e compartimentalizados, demasiados presos nas suas rotinas e afastados do passado – recente, mas que parece pertencer a uma outra vida. No caso das aias, escapam ao terror dos campos de concentração e da morte pela ‘sorte’ de serem mulheres férteis numa sociedade condenada à extinção. Com grande parte das mulheres sem capacidade de ter filhos, resta às aias cumprirem rituais de procriação, a fim de darem aos patrões o filho que tanto ambicionam e não conseguem ter. É logo aqui que encontramos um dos alicerces fundamentais de «The Handmaid’s Tale» que, qual «The Truman Show - A Vida em Directo» (1998), assume o quotidiano como uma estrutura fixa e que, tanto quanto possível, não deve sofrer alterações.

 

A mulher não é dona do seu corpo nem das suas memórias, negadas até à exaustão com medo das repercussões que isso pode ter. Cabe a Offred (Moss) partilhar connosco o seu testemunho: do que foi, da família que teve, e dos destroços em que se transformou. Além disso, e através do seu olhar e contacto com a realidade, conhecemos outras histórias e vamos desvendado a forma como o regime se faz valer e ganha força. Ironicamente, e a lembrar os trejeitos do discurso político e da apatia pública, tudo teve origem numa realidade aparentemente normal, onde a população ‘adormeceu’ e, com o Estado a aplicar leis invasivas com ‘vestes’ de proteção, só tentou reagir quando era tarde demais.


Para acentuar o paralelismo com o presente, e também modernizar a narrativa, referem-se as redes sociais e as ferramentas da modernidade, como o Tinder, que, na sua indestrutibilidade, de nada servem quando a ditadura se impõe. Assim, tal como no futuro imaginado por Atwood nos anos 80, reforça-se a crítica ao sermos colocados, enquanto espectadores, perante uma realidade bem próxima – e que vai desde os nossos hábitos mais comuns aos vícios que vamos ganhando, ou à liberdade que temos como certa. Mas nada é certo. Muito mudou nos últimos 30 anos, mas algumas mudanças não foram tão eficazes quanto isso: as mulheres ainda lutam pelos seus direitos, procurando igualdade, e o mundo mantém-se dividido entre guerras, ameaças e ódio. Como tal, «The Handmaid’s Tale» está bem longe de ser algo do passado, afinal podemos encontrar a distopia de Offred em várias coisas do nosso dia a dia. No entanto, será que estamos atentos?

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº51 da Metropolis, de julho de 2017.

 

O Inverno Chegou, Jon Snow e Daenerys Targaryen Estão a Caminho

Esqueça viagens de sonho como México, Ibiza ou Itália. Esqueça o calor. O destino da moda é Westeros, onde se espera o inverno mais frio de sempre. A partir de dia 16 de julho nos Estados Unidos, e do dia seguinte em Portugal, no Syfy, não há volta a dar: todos os caminhos vão lá ter. A série mais popular do mundo está de regresso – e nos próximos meses não se vai falar de outra coisa.

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Cersei Lannister, Rainha Cersei Lannister. Muitos fãs de «A Guerra dos Tronos» não conseguem dizer este nome sem desenharem no rosto um esgar de repulsa. E nem a atriz que lhe dá vida, Lena Headey, escapa impune aos crimes cometidos por uma das personagens mais odiadas da televisão. A própria já confessou que, em filas de autógrafos, há seguidores fervorosos da série que recusam a sua assinatura – ao ponto de ela ter de 'roubar' o livro para escrever à 'força' –, ou pessoas que lhe atiram impropérios quando se cruzam com ela na rua. Ao longo de seis temporadas – e de forma sublime, diga-se –, a personagem conseguiu irritar, num momento ou em vários, (quase) todos os seguidores da série. A julgar pela última temporada, aliás, Cersei pode mesmo vir a dividir com George R.R. Martin, quase de igual para igual, a responsabilidade (e, consequentemente, o 'ódio' dos fãs) por grande parte das mortes em Westeros.

 

Não obstante, esta é a história que George R.R. Martin (ainda) não escreveu. O escritor teima em adiar, indefinidamente, a publicação de The Winds of Winter, o sexto livro da saga «A Guerra dos Tronos», mas já se sabe que em televisão não se pode parar. Ou que nós não podemos parar perante esta, e as redes que se criam pelo caminho – veja-se as múltiplas teorias, algumas bem certeiras, que se continuam a multiplicar pela Internet fora –, uma vez que nos arriscamos a ser ultrapassados (mesmo que sejamos George R.R. Martin). Depois de alguns 'sinais', a ação dos Sete Reinos está, finalmente, à deriva: é caso para dizer que as próximas mortes já não vão ser traçadas pela ‘caneta’ do criador da saga – será o fim dos memes do autor? Mas desenganem-se: isso está longe de querer dizer que os nossos favoritos estão a salvo. E, desta vez, nem os 'cromos' dos livros nos podem preparar para os maiores sustos do verão… ou devemos dizer 'inverno'?

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Ned Stark (Sean Bean) bem o anunciou, logo na primeira temporada: "O inverno está a chegar". Outros repetiram o anúncio, passado de boca em boca ao longo de gerações. Mas foram os criadores da série, David Benioff e D.B. Weiss, que deram o golpe decisivo: a season finale de 2016 teve um título bastante sugestivo e nada inocente, The Winds of Winter, o mesmo do livro que George R.R. Martin nunca mais publica. À medida que os white walkers se aproximam perigosamente das populações e, mais concretamente, de Bran Stark (Isaac Hempstead-Wright), não há dúvidas que se esperam temperaturas bem agrestes em Westeros. Resta é saber quais vão fazer mais mossa: se os white walkers, se Daenerys com os seus dragões. O inverno chegou e Daenerys prepara-se, finalmente, para disputar o trono que julga seu por direito, tal como o outrora bastardo indesejado Jon Snow (Kit Harington), recentemente nomeado Rei do Norte. No entanto, há uma questão que se impõe: será que vão encontrar King’s Landing inteira? É que Cersei seguiu os 'boatos', encontrou o fatal wildfire e já lhe deu uso para eliminar os primeiros inimigos, na vingança de duas temporadas de pesadelo.

 

CERSEI: DE CRENTES E 'LOUCOS' TODOS TEMOS UM POUCO?

 

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Ainda assim, há outra profecia que convém também lembrar, a da própria Rainha. Traçada nos livros de George R.R. Martin e recriada, parcialmente, no ecrã, a sina de Cersei Lannister é escrita a custo de muito sangue. No arranque da quinta temporada, após a morte do pai e antes do homicídio de Myrcella (Nell Tiger Free), somos, com ela, transportados para a memória da sua visita a uma vidente, Maggy (Jodhi May), na adolescência. "Ela prometeu-me três filhos… e prometeu-me que eles iriam morrer". E, se no início da sexta temporada ainda sobrava Tommen Baratheon (Dean-Charles Chapman), a verdade é que depois do suicídio deste, um dos poucos a sair ileso do wildfire, tudo aponta para que Cersei não escape com vida ao próximo inverno.

 

No passado, assim que a jovem Lannister perguntou se iria casar com o príncipe, então Targaryen, a misteriosa mulher garantiu que ela iria, em vez disso, casar com o rei: isso confirmou-se quando Cersei casou com Robert Baratheon, já coroado após a derrota do ‘'Rei Louco' Aerys Targaryen. De seguida, anunciou que ela seria Rainha, mas que, depois, chegaria outra, mais nova e mais bela, para a destruir a ela e a tudo o que lhe era mais querido. Primeiro, Cersei achou que esta seria Sansa (Sophie Turner), e mais tarde teve a certeza que se tratava de Margaery Tyrell (Natalie Dormer), pelo que resolveu esse problema no final da passada temporada. Embora a fúria de Olenna Tyrell (Diana Rigg), que até já contribuiu para a queda de Joffrey (Jack Gleeson), não possa ser ignorada, tudo indica que a “mais nova e mais bela” visada na profecia só agora se está a aproximar: Daenerys. A terceira parte da profecia, no livro e na série televisiva, já se confirmou: "O Rei terá 20 filhos e tu terás três. De ouro serão as suas coroas… e de ouro serão as suas mortalhas".

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Há, todavia, uma diferença entre o papel e o ecrã. Além do que aqui referimos, no livro a vidente acrescenta que "quando as tuas lágrimas te tiverem afogado, o Valonqar irá colocar as suas mãos à volta da tua garganta pálida e branca, e asfixiar-te até à morte" [tradução livre]. Na língua Valyrian, essa palavra costuma referir-se a irmão mais novo, o que explicaria, em parte, o ódio da Rainha a Tyrion Lannister (Peter Dinklage). Mas já sabemos que em «A Guerra dos Tronos» não há respostas assim tão simples, certo? E, embora Tyrion tenha sido o responsável pela morte do pai – e até esteja a caminho na equipa de Daenerys –, há uma cena da quinta temporada que o poderá ilibar desta profecia: o facto de ter conseguido lidar com um dragão sem ser comido – algo que parece ser capacidade exclusiva dos Targaryen. Além disso, no momento em que se prepara para matar o pai, este diz "não és meu filho". Se, tal como Jon Snow, também ele for da família do 'Rei Louco', tal deixa como irmão mais novo Jaime (Nikolaj Coster Waldau), com quem Cersei mantém uma relação incestuosa há décadas, uma vez que foi o segundo gémeo a nascer.

 

Contudo, importa referir que há teorias na Internet que põem o possível destino fatal de Cersei nas mãos de personagens como Daenerys ou Arya Stark (Maisie Williams), que até tem o nome de Cersei na sua lista de pessoas a matar. Segundo essas hipóteses, Valonqar pode significar também irmã mais nova, considerando que o Valyrian é uma língua com variações e, dependendo do vocabulário da vidente, pode não apontar para nenhum dos Lannisters, mas antes para a irmã mais nova de outra família. Porém, e apesar de esta parte não ter sido incluída na televisão, poucas dúvidas restam de que o destino que espera Cersei, talvez já esta temporada, é a morte. Não obstante, será que, antes disso, ainda vamos ser presenteados com uma 'Rainha Louca' dos tempos modernos? O wildfire, pelo menos, já tem…

 

O REI DO NORTE QUE TAMBÉM É FILHO DO GELO E DO FOGO

 

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Com a revelação de que Jon Snow é, afinal, filho de Lyanna Stark (Aisling Franciosi) e de Rhaegar Targaryen, uma das principais teorias da história de «A Guerra dos Tronos» foi, finalmente, confirmada. A mãe foi-nos apresentada na sexta temporada, confirmando as suspeitas de que Jon não era o filho bastardo de Ned Stark, sempre tão devoto à mulher. A existência de Jon, aliás, parecia fruto de um momento out of character do principal bastião do Norte – que até lhe prometeu a verdade, mas morreu antes disso. Como queria proteger o sobrinho, manteve-o por perto e criou-o no seio da família, o que nunca agradou a Catelyn Stark (Michelle Fairley), sem relevar o nome dos progenitores, já que resultaria certamente na morte de Jon. Lyanna teria sido raptada por Rhaegar mas, e tal como os fãs suspeitavam, os dois viveram, em vez disso, uma história de amor. É que apesar de o pai de Jon não ter sido introduzido ainda no ecrã, a HBO acabou por confirmar, acidentalmente na Internet, que o eterno bastardo é um Targaryen.

 

Por sua vez, Melisandre (Carice van Houten) colocou nos ombros de Jon outra profecia, que antes destinara a Stannis Baratheon (Stephen Dillane): será ele o guerreiro da Luz, o salvador anunciado? Ao contrário do irmão de Robert, que até sacrificou a própria filha, o outrora defensor da Muralha não foi na conversa e expulsou a perigosa vidente do grupo… aproximando-a de Arya? Na terceira temporada, Melisandre falou com a corajosa Stark, que, desde então, tem andado por conta própria, e nem ela se livrou de uma profecia: "Eu vejo uma escuridão em ti. E nessa escuridão, olhos que olham de volta para mim. Olhos castanhos, olhos azuis, olhos verdes. Olhos fechados para sempre. Vamos encontrar-nos de novo" [tradução livre]. Será esse encontro na sétima temporada? Segundo um fã da série, que publicou a sua ideia no Reddit, Melisandre enumerou cores que equivalem aos olhos de pessoas que Arya já matou, à exceção do verde. E não é que, segundo esse mesmo fã, Cersei tem olhos verdes?

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Entretanto, e agora que Jon e Sansa parecem estar mais próximos do que nunca, falta saber se o mesmo vai acontecer com os Stark sobreviventes: Bran e Arya. A família Stark tem sido uma das mais castigadas desde o início, com a decapitação de Ned e o 'Casamento Vermelho' a figurarem entre alguns dos momentos mais marcantes – e chocantes – quer dos livros quer da série televisiva. E a morte de Rickon Stark (Art Parkinson), em frente a Jon e por culpa do terrível Ramsay Bolton (Iwan Rheon), na épica Batalha dos Bastardos, é apenas mais um sinal de que os irmãos vão continuar a não ter vida fácil. A começar por Bran, que ganha um papel cada vez mais relevante na saga, nomeadamente devido à sua capacidade de viajar no tempo e, assim, ter acesso ao passado. No entanto, o mesmo personagem pode também ser um dos grandes responsáveis pela aproximação dos white walkers, como presenciámos num dos arcos da sexta temporada.

 

DE TARGARYEN PARA TARGARYEN: ESTARÁ A RESPOSTA EM JON E DAENERYS?

 

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Ela, por culpa dos seus temíveis dragões, sempre foi vista como a mulher do Fogo, e candidata mais do que anunciada a liderar os Sete Reinos. Ele, criado em Winterfell e feito homem no frio das Muralhas, pode agora ser apresentado como Targaryen, mas nunca deixará de levar Gelo dentro de si. Como tal, Jon e Daenerys parecem os ingredientes mais do que perfeitos para a receita anunciada por George R.R. Martin desde o início, com o intitulado As Crónicas de Gelo e Fogo. Será que a resposta sempre esteve à nossa frente e nós, entre guerras épicas e confrontos antecipados, fomos distraídos pelo caminho?

 

Numa altura em que faltam apenas duas temporadas para o fim, e mais curtas do que os habituais 10 episódios (a nova temporada terá sete), restam poucas dúvidas de que o pior está para vir. Mas, quando os criadores da aposta mais bem-sucedida da história da HBO se lançam de forma totalmente autónoma, há muito mais em jogo do que apenas criar um argumento atrativo. Independentemente do rumo que George R.R. Martin decida dar à sua saga depois (ou do tempo que tal demore a acontecer), David Benioff e D.B. Weiss têm nos ombros a árdua tarefa de corresponder às expetativas de milhões de espectadores espalhados por todo o mundo. As profecias vão-se cumprindo, as personagens vão morrendo e, na inevitável reta final, é preciso atar as pontas soltas e aliar as vontades dos criadores da série à narrativa dos livros. Tudo tem de fazer sentido, até porque, bem o sabemos, a Internet não perdoa.

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Entre os arcos de «A Guerra dos Tronos» que foram transitando da página para o ecrã, há três que parecem pautar, incontornavelmente, a agenda dos fãs. Por um lado, os criadores optaram por 'colar' Sansa à trágica sina que uma outra personagem tinha, nos livros, nas mãos de Ramsay Bolton. Tal nunca foi perdoado e o próprio autor da saga fez questão de divulgar excertos do próximo livro – que, ainda assim, teima em não terminar há vários anos –, onde Sansa se encontrava num ambiente bem menos nocivo, um mês antes da terrível noite de núpcias com o bastardo de Bolton. Por outro lado, a Lady Stoneheart, presente nos livros, continua a não aparecer na televisão e, ao que tudo leva a crer, deverá mesmo ser mantida longe do pequeno ecrã. A personagem é a versão zombie de uma das vítimas da caneta de George R.R. Martin e um dos maiores desejos, não correspondidos, dos fãs. Maior desejo do que esse só a anunciada 'Cleganebowl', o confronto entre os irmãos Clegane, que, tanto nos livros como na série, teima em nunca mais acontecer. Ainda houve alguns sinais de que o 'Cão de Caça' Sandor Clegane (Rory McCann) pudesse enfrentar o irmão, agora zombie, Gregor Clegane (Hafthór Júlíus Björnsson), sobretudo quando Cersei se preparava para o seu julgamento. Ao ser anunciado que os 'julgamentos por combate' estavam proibidos, a esperança esfumou-se…

 

Preparamo-nos há anos, seja enquanto leitores ou espectadores, para o acontecimento da épica batalha entre o Gelo e o Fogo. De um lado, os vilões sedentos de sangue, outrora apenas mito. Do outro, Daenerys Targaryen, que caminhava há anos rumo a Westeros sem grandes avanços, e Jon Snow, que tardava a ser confirmado com o derradeiro candidato das terras mais a Norte. No centro, a Rainha Cersei, que ainda mal teve tempo de aquecer o trono. Depois de um dos finais mais quentes da temporada televisiva, «A Guerra dos Tronos» está, mais de um ano depois, de regresso para aquele que deverá ser o inverno mais frio de sempre. Com o epílogo cada vez mais próximo, a toalha de praia promete ser trocada pelo inverno gélido do universo criado por George R. R. Martin… pelo menos uma vez por semana.

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº51 da Metropolis, de julho de 2017.