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Androids & Demogorgons

TV KILLED THE CINEMA STAR

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Big Little Lies: A Morte Fica-lhes Tão Bem

A mulher sonha, a HBO quer e a obra nasce. Numa altura em que se faz muita (e boa) televisão, só a ideia de juntar as atrizes Reese Witherspoon e Nicole Kidman, que nunca se cruzaram no grande ecrã, parece ser suficiente para convencer as principais produtoras televisivas e levá-las a competir pelo que quer que seja que elas queiram fazer. Se pelo caminho se formar um elenco de luxo, onde se contam nomes como Shailene Woodley, Laura Dern, Alexander Skarsgård ou Adam Scott, tudo sob o olhar da lente do realizador Jean-Marc Vallée, acabar em frente ao ecrã é uma inevitabilidade.

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Como bem sabemos, uma série nova não significa, necessariamente, uma história nova. Veja-se a tendência avassaladora de adaptar narrativas já conhecidas ao pequeno ecrã, ou de as renovar. Tal como acontecerá, ainda durante 2017, com «The Handmaid's Tale», «American Gods» ou «Sharp Objects» – esta última até tem o mesmo realizador –, também «Big Little Lies» segue (e é inspirada por) um livro. Neste caso, Reese Witherspoon e Nicole Kidman, produtoras e protagonistas da minissérie da HBO, formaram uma dupla de peso para convencer a autora Liane Moriarty a ceder os direitos da obra, que em Portugal tem o título de Pequenas Grandes Mentiras. E, sejamos francos, quem seria capaz de lhes dizer que não?

 

"Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". Que o diga Jane (Shailene Woodley), uma mãe solteira recém-chegada ao subúrbio dominado pela popular, mas persona non grata, Madeline Martha Mackenzie (Witherspoon). A sua integração já se adivinhava difícil, mas tudo se complica quando a filha de Renata (Laura Dern) acusa o seu filho, o aparentemente pacato Ziggy (Iain Armitage), de a ter agredido. Para que não restem dúvidas, estamos, claramente, num mundo dominado por mulheres fortes: esta posição é concretizada logo no genérico, onde os sucessivos vislumbres das personagens femininas, ao volante, evidenciam a ausência dos homens. Esta é, aliás, uma das pistas que nos leva a antecipar que não estamos perante uma série igual às outras. «Big Littles Lies» é, na sua essência, uma antítese daquilo que regularmente encontramos na televisão (ainda que se veja cada vez mais).

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Assim como acontecia com «True Detective», a narrativa desloca-se, com propósito, por diferentes espaços temporais, deixando para o final as revelações mais determinantes. E, apesar de abrir, de forma fulgurante, com um homicídio, a verdade é que, acabado o piloto, não sabemos quem é a vítima – nem quando será confirmada a sua identidade. Para atiçar ainda mais a nossa curiosidade, nenhuma das personagens centrais se senta na cadeira para ser interrogada pelas autoridades, sob o olhar atento da detetive Adrienne – interpretada por Merrin Dungey, que volta a vestir a “farda” depois do desaire em «Conviction». Sem cadáver e sem culpado, as suspeitas vão-nos perseguindo ao mesmo tempo que a câmara embrenha, às vezes freneticamente, pelas realidades aparentemente perfeitas dos subúrbios.

 

Apesar de as pistas serem escassas, o conflito vai-se adensando em torno de Madeleine, Jane e Celeste (Kidman), as figuras principais desta história, com o mote a ser lançado logo no arranque, acompanhado por flashbacks: se Madeleine não se tivesse lesionado no pé quando voltava para o carro, ou se Jane não tivesse parado para a ajudar, será que o homicídio tinha acontecido? A pergunta é feita pelos detetives, que procuram saber, através das personagens terciárias da ação, o que escondiam as três mulheres. Enquanto Madeleine é fortemente criticada pelos vizinhos e pais dos colegas das filhas, Celeste é invejada – e julgada – pelo casamento que mantém com Perry (Alexander Skarsgård), mais novo do que ela. A certa altura, não sabemos onde acaba o crime e começa a coscuvilhice...

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O drama social, tantas vezes explorado na arte, ganha contornos de série policial e, ao sermos guiados pelo passado e pelo presente, temos a noção clara que estamos a ser manipulados. Mas, captados pelo argumento vibrante e realização competente, que fortalecem ainda mais um elenco galáctico, já não temos fuga possível. Nada é inofensivo ou inocente, e as certezas tornam-se mais fortes à medida que as primeiras surpresas vão sendo conhecidas. Por um lado, Celeste não é tão feliz quanto aparenta, sofrendo, na escuridão, da violência de Perry, apresentado como o pai e marido perfeito. Jane, que encanta as melhores amigas Madeleine e Celeste, parece esconder algo bastante suspeito, e perigoso o suficiente para a levar a dormir com uma pistola por baixo da almofada. Já Madeleine tem de conviver rotineiramente com o pai da primeira filha e a nova mulher deste (Zoë Kravitz).

 

No meio da confusão que vamos conhecendo, Jane parece esconder a resposta do mistério, sendo várias vezes sugestionado que ela ou Madeleine podem ser as vítimas – ou as culpadas. Mas é esta mesma insinuação prematura que nos leva a crer (ou nos engana) que nenhuma delas morreu. O enigma de Jane desmonta-se nos primeiros diálogos, embora passe quase despercebido numa banal conversa de café: ela é mãe solteira mas nunca viveu com o pai do filho. O seu desconforto nesta confissão, subtil, é indicador de um potencial problema: quem é o pai de Ziggy? Que tipo de relação mantiveram? Como lida Jane com isso? Será que foi trocada por uma mulher idêntica às novas amigas, ou o seu passado esconde algo mais escabroso? Os palpites são muitos mas, depois dos 52 minutos do primeiro episódio, que se vê num trago, as perguntas são ainda mais.

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na Metropolis.

 

T2 Trainspotting: O Obi-Wan Kenobi, o Rumplestiltskin e o Sherlock Entram Num Bar...

"Não estás a ficar mais novo, Mark. O mundo está a mudar. A música está a mudar. Até as drogas estão a mudar. Não podes ficar aqui o dia todo a sonhar com heroína e Ziggy Pop", dizia Diane (Kelly Macdonald). E tinha razão. Muita coisa mudou nos 20 anos que separam «Trainspotting» (1996) da sua sequela, «T2 Trainspotting» (2017), que chega dia 23, quinta-feira, aos cinemas portugueses.

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Entre as mudanças, há uma demasiado evidente. Aquele que era um elenco de promessas britânicas virou uma montra de estrelas do cinema e da televisão, ainda que os nomes sejam os mesmos. Veja-se o caso de Ewan McGregor, então na casa dos 20 anos e a participar no seu quarto filme, longe dos sucessos de «Moulin Rouge!» (2001) ou da trilogia «Star Wars», onde foi um jovem Obi-Wan Kenobi. Ou o ator Robert Carlyle, o arrogante Begbie, dez anos mais velho, mas bem longe do mediatismo conseguido com o “seu” Rumplestiltskin de «Era Uma Vez»; a confirmação depois do percurso bem-sucedido em «SGU Stargate Universe». Já Jonny Lee Miller passou de “Rapaz Doente” [Sick Boy], no seu segundo filme, a detetive de luxo na série norte-americana «Elementar», em que dá vida a um moderno Sherlock Holmes.

 

Mas, há 20 anos, ninguém imaginaria o talento, ou o alcance deste, do trio britânico. À exceção de Danny Boyle. Naquela que era a sua segunda longa-metragem para cinema, o realizador inglês teve o dom de escolher um leque de ‘putos’ excecionais. O estrondo fez-se ouvir em Hollywood e, poucos meses após a estreia, o argumentista John Hodge figurava entre os nomeados aos Óscares de Melhor Argumento Adaptado, lançado pela vitória nos prémios BAFTA. Curiosamente, o vencedor dessa categoria seria Billy Bob Thorton que, sendo um ator brilhante, tem uma única estatueta... pela sua adaptação de «O Arremesso» (1996).

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Costuma dizer-se, tanto no cinema na vida, que a lei mais determinante é o tempo. E assim foi também neste caso. De produção humilde a filme de culto foi um passo e, atualmente, «Trainspotting» (1996) é um marco para muitos "cinéfilos". No entanto, a continuação da história de Renton (McGregor) e companhia adivinhava-se um sonho quase impossível. Desde logo porque, ironia das ironias, Danny Boyle e Ewan McGregor zangaram-se poucos anos depois e estiveram muito tempo de costas voltadas. O "culpado", como confessaram recentemente, terá sido Leonardo DiCaprio, que protagonizou «A Praia» (2001), retirando a McGregor o protagonismo a que estava habituado no cinema de Boyle.

 

Outro dos regressos mais desejados é o das belas paisagens da Escócia. Ser palco de filmes de fantasia é-lhe "inato", mas o país, e particularmente Edimburgo, tem no seu ventre uma realidade bem mais crua, transposta de forma sublime para o universo de Renton, Begbie, Sick Boy e Spud (Ewen Bremner). As suas paredes respiram memórias de uma história fascinante, mas também escondem o lado mais sujo da sociedade. Os vícios, como as drogas, contrastam com as paisagens imensas de cortar a respiração, revelando o lado menos bonito das suas ruas, de bares duvidosos a casas de banho (como esquecer a 'cena' do primeiro filme!). A ação bebe, de igual forma, do feio e do belo, alimentando uma narrativa que tem tanto de contagiante como de “podre”. Nada está a salvo. A sociedade é redescoberta, criticada, os seus "esgotos" são remexidos e, nos diversos atalhos que encontramos pelo caminho, a lição ultrapassa a tela para nos lembrar, como há 20 anos, "choose life". Mas, bem sabemos, nada é tão linear...

 

 

 

Este artigo foi originalmente publicado na Metropolis.